O texto a seguir, de Marta F. Moreira e Rita de Cássia V. B. Caldonho, professoras em Iriri e Iconha, respectivamente, faz parte da monogra...

Aninhanha e Vilarejo e o discurso bíblico


O texto a seguir, de Marta F. Moreira e Rita de Cássia V. B. Caldonho, professoras em Iriri e Iconha, respectivamente, faz parte da monografia que as autoras apresentaram no curso de pós-graduação Latu-sensu em Literatura Brasileira Contemporânea, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Madre Gertrudes de São José , em Cachoeiro de Itapemirim. A intensa leitura dos dois livros de Pedro J. Nunes, Aninhanha e Vilarejo e outras histórias, ambos editados pela SPDC-UFES, resultou em um levantamento de surpreendentes constatações.O fato não representa apenas um avanço se pensarmos que alunos dos cursos de Letras passam a se interessar pela análise de autores do Estado, mas é significativo ao nos levar à conclusão de que a boa literatura produzida aqui tem atravessado a fronteira da Capital.]

As obras apresentam-se repletas de indícios que nos levam à Bíblia. A enunciação deixa-nos pistas muito visíveis que nos conduzem a esta releitura.

Tanto em Aninhanha quanto em Vilarejo, a parábola da mulher adúltera (João 8:1-11) é utilizada com a finalidade de estabelecer contratos interpretativos de absolvição do narrador (em Aninhanha) e condenação do povo (em Vilarejo) com os enunciatários.

A piedade dos homens. Ainda me lembro quando me bateu em pleno rosto a primeira pedra. (Aninhanha, p. 74)

Sucedendo a primeira pedra várias outras lhe bateram à fronte. (Vilarejo, p. 54).

No entanto, o diálogo com o discurso bíblico ocorre em paródia, já que a intimidação de Jesus na parábola consegue salvar, evitar o apedrejamento, enquanto que nas obras de Nunes ele ocorre de forma concreta ou psicológica.

Quem de vós não tiver pecado seja o primeiro a lhe atirar uma pedra... a estas palavras eles se foram retirando um por um, acusados pela própria consciência. (João 8:7)

Em Aninhanha encontramos uma passagem em que a personagem Louca Mansa, enquanto narrador-protagonista, se define como uma legião, lembrando o episódio registrado em Marcos 5, intitulado O possesso e os porcos. É como se a personagem se sentisse várias, fragmentada, possuída pelas forças que lhe impunham caminhos. É como se a culpa lhe inculcasse o desejo de sair de si mesma, de se atirar para a morte como os porcos no episódio bíblico.

O Hades. Meu nome seria legião, uma coletivo. A vara toda. (Aninhanha, p. 13)

Perguntou-lhe Jesus: qual é o teu nome? Respondeu-lhe: Legião é o meu nome, porque somos muitos. (Marcos 5:5)

Ainda em Aninhanha, a figura do magricela espetado nas ferpas das palafitas é descrita de forma a associá-la à figura de Cristo crucificado. Essa associação se dá numa visão interna do narrador que se identifica como o magricela, o seu avesso, e entende a sua morte como o fim de um calvário de humilhações.

Me ocorria a lembrança do morto e sua imagem de espetacrucificado. (Aninhanha, p. 51).

Louca Mansa também se compara ao próprio Jesus. O adjetivo mansa sugere cordeiro, designação dada ao Cristo. Ela também é vendida por trinta moedas de prata, traída por Aninhanha, seu judas, que também se enforca de remorso.

Tirou de uma greta as trinta moedas de prata. Olhava-me com insistentes olhares de piedade. (Id., p. 51)

Estendeu para mim as mãos cheias de dracmas... malditas sem brilho... rodopiou sobre si e lançou à podridão das águas as moedas lá longe. (Id., p. 72)

Numa árvore alta a corda ordinária suspensa o medonho corpo de Aninhanha... As mãos abertas, esticadas, a judas terrível. (Id., p. 74)

Na via sacra, a caminho do calvário, Jesus cai três vezes antes de chegar à crucificação final. Na obra, o homem do depósito, com a cumplicidade de Aninhanha, faz três tentativas antes de consumar o estupro. Os números três e trinta aparecem constantemente, confirmando essas ligações intertextuais com o discurso bíblico. O número três é tido pela numerologia como ícone de perfeição. No cristianismo, representa a trindade nas pessoas do pai (Deus), do filho (Jesus) e do Espírito Santo, o que simboliza a união perfeita. Na obra, há também uma referência a este fato, pois Louca Mansa une a sua vida passada, a sua vida presente e a expectativa da travessia fechando o ciclo, concluindo perfeitamente sua narrativa.

Dissolve-me em primeira pessoa abstrata. Eu ela e eu a trindade. (Id., p. 48)

Segundo a Bíblia, em Marcos 14:36, Jesus prevê seu destino e chega num momento de grande angústia a pedir que o cálice do sofrimento lhe fosse afastado.

Aba! Ó Pai! Tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça o que eu quero, senão o que tu queres.

Louca Mansa, durante toda a narrativa, pressente o seu destino e tem a sua confirmação com o surgimento do estranho homem que profetiza o desfecho de sua história. Ela também chega a hesitar, pensar em suicídio ou em ceder, mas acaba como Jesus, prosseguindo o destino traçado.

A figura de Pilatos, lavando as mãos diante da condenação de Jesus, excluindo-se da culpa, é também lembrada no diálogo com seu pseudo-interlocutor.

A piedade é o sentimento mais hipócrita que conheço. Os piedosos se lavam as mãos e dormem. (Aninhanha, p. 56)

A própria denominação Maria Trinta Cruzes, dada a Louca Mansa pelo homem misterioso, comparado ao Arcanjo Gabriel, no episódio da Anunciação (Lucas 1:26-36), revela a associação de Louca Mansa com a figura de Maria, mãe de Jesus.

Essa ponte intertextual também ocorre em forma de paródia, pois na história bíblica o anjo traz boas novas sobre o nascimento do Messias e é dada a Maria a chance de escolha, pois ela diz o sim ao que lhe foi revelado. O anjo Gabriel prevê um futuro grandioso para o fruto de seu ventre e para Maria. Na obra Aninhanha essa anunciação realizada pelo homem estranho, em forma de música, perturba a personagem, que não compreende bem sua mensagem e no decorrer da narrativa ela diz não a esse filho, a essa concepção que na obra não se dá por obra do Espírito Santo, mas através da violência de um estupro. O que possibilita a gravidez de Louca Mansa não é um sim resignado. Ao contrário do que acontece no discurso bíblico, o futuro do recém-nascido é a morte ou a condenação a uma vida de amarguras e mágoas como a de sua progenitora.

...venho imaginando como seriam os rostos de meus naturais pais, aqueles que do coito se disseram sim, porque tudo no mundo começa com um sim. (Id., p. 49)

Maria. Aria. Ria? ... Cruzes? Não em mim o saber das cruzes... Adormeci de não sair da cabeça o som rachado de viola, o som de viola do louco só, ou anjo, ou Gabriel. (Id., p. 66)

No episódio em que Louca Mansa busca água no poço, a enunciação estabelece uma relação com a parábola da samaritana (João 4:1-42), pois a utilização da palavra cântaro é muito significativa, assim como o fato de estar indo ao poço buscar água, indo ao encontro de seu destino, sem culpas, e ao fato de a obra dar voz à mulher.

A mulher deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens: vinde e vede... não seria ele porventura o Cristo? (João 4:29)

Enchi vagarosamente a lata o pote (ou seria o cântaro, qual a melhor palavra?) e voltei. (Aninhanha, p. 63)

A passagem da obra que narra a morte do filho da Louca Mansa dialoga com a passagem bíblica que narra a morte do Cristo. Ao matar o próprio filho, a personagem anula-se a si mesma, morre existencialmente como humana, lúcida, e profere as mesmas palavras proferidas pelo Cristo.

Em suas mãos entrego o meu. (Id., p. 73)

Em tuas mãos entrego o meu espírito. (Lucas 23:46)

A frase incompleta, na obra, sugere que, ao entregar a vida do filho, entregava também o seu espírito, a sua vontade de viver. Como no relato bíblico, os fenômenos ocorreram revelando a profanação da verdade e as trevas da morte.

O que fazer da existência a existida que de mim tirei? Rompeu-se o véu e escureceu o escurecer necessário. (Aninhanha, p. 73)

Escureceu-se o sol e o véu do templo rasgou-se pelo meio. (Lucas 23:45)

Desta forma, tudo estava consumado segundo os desígnios de Aninhanha.

Consumados casos. (Aninhanha, p. 74)

Tudo está consumado. (João 19:30)

No entanto, como na Bíblia, ocorre uma ressurreição. O Cristo ressuscita após três dias, cumprindo as profecias e Louca Mansa recupera a lucidez no terceiro dia.

Três dias depois da primeira manhã ... entre murmúrios e sussurrados dizeres atravessei as palafitas ... que manhã era aquela? (Aninhanha, p. 73)

Louca Mansa recorda-se de sua atitude e volta à velha laranjeira, mas a cova estava vazia, assim como o túmulo de Jesus.

Encontrei a cova um buraco terrível .. Os urubus ainda esvoaçam na minha memória, os urubus e a cova vazia, vazia. (Id., p. 73)

Fica ao encargo do leitor imaginar o ocorrido: a possível morte do bebê, sufocado sob a terra ou a sua salvação graças a algum passante que estranhou a presença dos urubus e resgatou-lhe a vida. Nessa segunda possibilidade, menos provável, poderíamos imaginar o interlocutor como esse filho abandonado, ouvindo sua própria história muitos anos depois.

A própria vida das mulheres prostituídas também, de certa forma uma alusão às cruzes, ao calvário de cada dia, pois a palavra chagas, designando-lhes as feridas causadas pela vida promíscua, insinua o sofrimento de Cristo, pregado na cruz, de mãos e pés pregados, atados, impotentes.

Acha interessante que eu prossiga? Sejamos francos: a quem poderá interessar a ruminação, a danação dos tempos de uma mulher inútil como eu? (Id., p. 6)

O narrador-protagonista compara-se ao próprio Deus, quando utiliza as mesmas palavras do Gênesis que relatam a criação do mundo, para definir a sua narração, a criação de sua história, reunindo as lembranças.

... venho juntando peças quebradas, largadas no chão à mercê do recolher no meio do lixo, vim compondo a narrativa e decidi que assim se fizeram todas as coisas. Descanso no sétimo dia. (Id., p. 49)

Tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho. (Gênesis 2:2)

Na obra Vilarejo, além da menção à parábola da mulher adúltera, podemos identificar na figura do rabudo, ou melhor, na imagem que o vilarejo faz dele, a relação com o diabólico, com o anjo mau, demoníaco, contrário a toda verdade sacramentada. Na verdade, ele realmente profana o senso comum, mas, ao contrário de sua aparência, é definido como manso, cordeiro, interiormente. Ele encarna o bem e o mal simultaneamente, assim como o próprio homem, barroco por excelência. Sua aparência exterior encarna o grotesco, o mal, mas seu interior revela a vontade.

A ponte intertextual entre a história do vilarejo e a bíblica começou a se tornar mais evidente quando o povo do vilarejo, para se redimir, condena o rabudo e o entrega como o apedrejador. Esse episódio é narrado quase na mesma seqüência em que é narrada a paixão de Cristo.

O rabudo é delatado por Zé Preá, que, de remorsos, definha e morre, assim como Jesus é delatado por Judas, que também morre através do suicídio.

Consta que ao saber do termo de tudo, não durou senão meses, vindo a falecer num estertor horrível. (Vilarejo, p. 49)

Os doutores da lei, os chefes dos sacerdotes que acusam Jesus são substituídos pelas figuras de Capistrano e Serafim, que, como os primeiros, também torceram a verdade a seu favor, incriminando um inocente, liderando a turba.

... muito embora seja possível que Zé Preá tivesse falado àqueles ouvidos naquela noite com inconsequente boca, os homens terão certamente transformado aquelas possibilidades em verdades irretocáveis, pois precisavam de uma verdade. (Id., p. 49)

O cortejo que traz o rabudo exposto até a frente do casarão lembra a prisão de Jesus e o seu calvário, sendo insultado e espancado, não reagindo. O próprio rabudo é designado como cordeiro, assim como Jesus. O cordeiro imolado para a redenção dos demais.

Descendo a rua em direção ao casarão vinham os homens, conduzindo um prisioneiro ... homens empunhando varas, homens empurrando o prisioneiro com violência, outros aplicando-lhe vergas, com uma alegria feroz ... O solitário tinha a parte visível do corpo bastante arranhada e com marcas de severas vergastadas... / Cabisbaixo nada dizia, não esboçava um gesto, um silêncio de monge ... aos quais suportava como todo seu imenso poder de cordeiro. (Id., p. 51, 52, 54)

O Dr. Álvaro Veira, embora por razões diferentes, assume a mesma posição de Pilatos quando afirma em defesa do rabudo:

Esse homem é justo. (Id., p. 52)

E, da mesma forma que Pilatos, não consegue deter a multidão que exige a condenação do rabudo.

Seja crucificado! (Mateus 27:23)

Há de pagar pelas pedras, pelos ossos e pelos que dormem no cemitério... E para nós ele é culpado e deve morrer para os modos de justificar os nossos mortos... (Vilarejo, p. 53)

Numa livre interpretação da Bíblia, o criador errou ao criar o homem imperfeito, se, como o afirmado, ele criou à sua imagem e semelhança. As culpas dos homens, então, também se estenderam ao criador e, para salvar a sua criação da destruição era necessário pagar um preço, que seria morte do próprio filho Jesus. Da mesma forma ocorre em Vilarejo. Dr. Álvaro comete crimes, ultrapassa os limites e precisa pagar um preço, que no caso se traduz na morte de seu meio-irmão.

Jesus morre ao cair da tarde, assim como o rabudo. Jesus é enterrado num sepulcro de pedra e o rabudo é soterrado sobre o monte de pedras atiradas pela multidão.

Na Bíblia, antes de chegar o sábado, um homem rico chamado José de Arimatéia pede o corpo de Jesus e o leva para sepultar. Na obra quem se encarrega do sepultamento do rabudo é o negro Alcibíades.

Negro Alcibíades ... não se sabe como, tomou-o entre os braços e, abraçando-o com dificuldade, pôs-se a arrastá-lo em direção à saída do vilarejo. (Id., p. 55)

Como na Bíblia, ocorre a ressurreição após o terceiro dia. Na obra Vilarejo, ela é sugerida através do sorriso inexplicável encontrado no cadáver do velho Alcibíades, que não retorna de sua última missão.

Seja como for, três dias depois encontraram o cadáver do negro Alcibíades num canto da estrada. Alguns atestam ter visto em seus lábios um sorriso inexplicável que nem mesmo o melhor funerário conseguiria extinguir. Enterrou-se lá com aquele sorriso de maus alvitres. Quanto ao rabudo, por assim dizer, alguns dão conta de havê-lo visto contra a lua em medonhas noites. (Id., p. 56)

A obra traz em suas últimas linhas o trecho final de uma oração, um fechamento perfeito para uma história estruturada no discurso bíblico.

Tudo para bem dos homens de boa vontade, e pelos séculos desta terra cravada entre montanhas indiferentes e flores estéreis. (Id., p. 56)

Para analisar o discurso bíblico foi utilizada a Bíblia Sagrada mediana, versão dos Monges de Maredsous pelo Centro Católico, na 66ª edição, editada pela Editora Ave Maria, SP, 1989.


[Marta F. Moreira e Rita de Cássia V.B. Caldonho: "Aninhanha e Vilarejo e o discurso bíblico".]


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