O ocupante habitual da seção “Escrivão da Frota” na revista Você era Luiz Guilherme Santos Neves, que ali se assinava Luís de Almeida. Tant...

Crônicas publicadas na revista Você


O ocupante habitual da seção “Escrivão da Frota” na revista Você era Luiz Guilherme Santos Neves, que ali se assinava Luís de Almeida. Tanto assim que, mais tarde, em 1997, reuniu suas crônicas em livro a que deu o título natural de Escrivão da frota.

Entretanto, por três ocasiões, um certo José da Costa substituiu nessa seção o escrivão titular. José da Costa outro não é senão Renato Pacheco, e a sua tríplice contribuição à revista naquela capacidade se encontra a seguir. [Neples]



IVA

Naquele tempo morávamos em Pasárgada e não sabíamos. O governador decidiu comemorar os quatrocentos anos de fundação da cidade e uma chuva de fogos subiu aos céus partindo do Penedo, guardião quadrissecular da entrada da baía.

Uma novidade gostosa, que assanhou todos os intelectuais e pseudo-intelectuais da ilha, se espalhou aos quatro cantos: uns padres italianos, recém-instalados na cidade, iam abrir uma livraria. Nós só tínhamos, até então, papelarias que vendiam livros e a pequena Livraria Técnica, embaixo do Hotel Europa, que primeiro foi de Basílio Zahar e depois de Durval Cardoso. Mas livraria mesmo, com suas estantes do chão ao teto, com tudo quanto é livro editado nos grandes centros, isso não tínhamos.

Os convidados de paletó e gravata; bispo para benzer a nova casa; champanha para as pessoas gradas. Estava inaugurada a Livraria Âncora, onde passaram a se reunir, em animadas sabatinas, os amantes das boas obras. Havia crédito, levava-se um ano para pagar (sem juros!), e no último dia do ano o pagamento podia ser feito com 10% de desconto. A delícia das delícias!

Mas a delícia das delícias mesmo era a subgerente da casa: Iva, ítalo-capixabinha de Castelo ou Venda Nova, que veio do Empório Capixaba onde, aliás, se vendia de tudo, até livros…

Iva não era baixa nem alta. Muito moça, tinha a paciência das grandes vendedoras. E de memória sabia o nome e preço dos quase três mil livros em estoque na loja. Em pouco tempo criou-se o clube dos admiradores de Iva. Alguns lhe amavam o corpo jovem e esbelto. Outros, a textura surpreendente dos cabelos dourados. Alguns queriam bem a seus sorrisos. Mas todos, todos, sem exceção, se apaixonavam por seus olhos azuis, plácidos na superfície, mas tão profundos e sábios que magnetizavam os incautos fregueses , quase todos poetas em disponibilidade não remunerada.

Um sisudo desembargador comprou três vezes as Ordenações Afonsinas só para poder trocar um dedo de prosa com Iva. Um advogado houve, diz a lenda, que decidiu abandonar a esposa amantíssima (como se falava então) desde que Iva o aceitasse como companheiro. Foi dissuadido pela respeitosa recusa da moça, contam uns, ou pela pressão dos amigos, dizem outros. Um poeta, subindo a ladeira Nestor Gomes, teve um infarto porque vira, segundos antes, Iva conversando com um rival literário.

E assim, entre admiradores e aborrecimentos do dia-a-dia, Iva dava um toque de paz e encantamento aos fregueses de nossa livraria. Um dia tudo acabou. “Tudo passa, tudo passa, só a canção é eterna”, escrevera o poeta. E Iva se foi. Casou e mudou. Disseram que fora com o marido, um advogado, para Ecoporanga, no extremo norte do Espírito Santo. Ou para as zonas novas do Paraná. Ou para ambos, em seqüência. Anos depois disseram que Iva voltara a Vitória, ou talvez fosse a irmã dela, de igual ou maior beleza. Ninguém sabia nada ao certo.

E os anos se passaram. Iva ainda é relembrada com saudades pelos que a conheceram. Dizem que, na comemoração dos cinqüenta anos da livraria, ela compareceria ao banquete comemorativo. Dizem tanta coisa. E isso foi há tanto tempo, Vitória foi absorvida pela metrópole trepidante, muitas livrarias foram criadas (só na ladeira Nestor Gomes há cinco livrarias e um sebo).

Mas uma conclusão se impõe: nunca houve nem haverá presença tão poética em livraria alguma do mundo, nem em Barnes & Noble, Hachette ou Lello & Irmão. Iva reinou como verdadeira primeira musa das letras, naquela amada Pasárgada!

[In Revista Você n. 8, fevereiro de 1993.]



O TESOURO DE MEAÍPE


Aconteceu que o pescador Joaquim Marvilla estava à morte na enfermaria São Lucas, da Santa Casa de Misericórdia de Vitória, e confessou à vicentina irmã Ângela que deixara em Meaípe, pinturesca colônia de pesca no município de Guarapari, um tesouro enterrado. Segundo ele, estava próximo do solitário coqueiro, a vinte e dois pés da porta da Igrejinha, no alto do morro.

Morto e enterrado Seu Marvilla, a vicentina que, entre outros votos, tinha o de pobreza, passou o fato ao médico-chefe, Dr. Luiz Castellar, que contou ao Dr. Pappi, que contou ao Filó, administrador do hospital, meu pai, e os três combinaram uma excursão, podemos dizer cinegética, pois era de “caça ao tesouro”. Chamaram para auxiliar Manuel da Funerária, que, como lhe diz o nome, tinha muita prática em abrir buracos. O menino José da Costa foi também, possivelmente, melhor dizendo certamente para servir de escrivão da frota, quase sessenta anos depois.

Num domingo de maio — o mais belo dos meses nas costas do Espírito Santo — lá fomos nós, para Meaípe, espremidinhos num carro Auto Union DKW, daqueles cujas marchas eram feitas com uma alavanquinha, tipo bengala. Valente nas descidas, o automóvel era um desastre nas subidas, quase parava. Mas o bom tempo favoreceu-nos e em duas horas chegamos a Guarapari. Atravessamos a balsa, em Muquiçaba, e a única rua da cidade que dava num hotel à beira-mar, na praia das Castanheiras (tenho medo que lá hoje exista um monstro de pedra), o qual com muita propriedade era chamado Hotel Beira-Mar. Nele almoçamos, e uma hora depois, por praias e colinas, chegamos à belíssima enseada de Meaípe. A maré estava alta, o riozinho represado, e o carro não pôde subir o morro da Igreja. Assim, fizemos a subida, resfolegando, com os recursos que a natureza nos deu.

Lá em cima, outra surpresa: o coqueiro solitário tinha irmãos: haviam sido plantados dezenas de coqueiros em torno da Capelinha. Como achar o ouro dos piratas?

Cava daqui, cava dali, Manuel da Funerária provou ser exímio cavouqueiro. Alguns curiosos (a vila tinha, então, cerca de trinta moradores) subiram ao morro para ver que tanta cavação era aquela. Acabaram confirmando a história do tesouro, mas, por superstição ou pura preguiça, instados a ajudar, mediante paga, se recusaram firme e solenemente.

No fim da tarde, nada havia sido encontrado. Nada não, na descida o Dr. Pappi achou, num restolho de casa velha em ruínas, um ferro de engomar de bronze, cuja parte interna era colocada sobre o fogão até ficar incandescente, arrecadado da arribada forçada de um navio sueco, cujos tripulantes deixaram também, na terra, entre outros salvados, muitos meninos de olhos azuis.

Fomos buscar Camelot, mas nada encontramos. Tudo foi documentado por uma máquina de filmar Baby Kodak do Dr. Castellar, película exibida, depois de processada no Rio de Janeiro, meses depois, com o treme-treme dos filmes mudos, sobre a lateral branca de uma geladeira, em sua casa em Jucutuquara.

O filme se perdeu.

O tesouro não se achou, as pistas estavam embaralhadas quando os caçadores lá chegaram. Mas, por certo, ainda se encontra, perto da Igrejinha de Meaípe, no alto do morro, ao pé de um coqueiro da Bahia…

[In Revista Você n. 14, agosto de 1993.]



ORANGE, CASSIPORÉ E NORTE…


Imagine-se remexendo esta velha caixa de papelão, com cerca de cinqüenta cadernos escolares do menino José da Costa, aluno do Ginásio Espírito Santo, no período de 1940 a 1946.

Aqui uma anotação da primeira aula de português, no ano de 1945. Assunto: gêneros literários. Aí se diz que Coelho Neto considerava o estilo de Machado de Assis “uma casa sem quintal”. E respiga-se um texto exemplificativo da falta de sobriedade: “Os graves criados, vestidos de grossas librés vermelhas, olhavam, atenta e curiosamente, do alto do minarete, o desenrolar fatídico da cena sangrenta.” Quem será, Deus meu, o autor de tão rebarbativo parágrafo?

Segue-se uma fórmula matemática — an = al x q n – 1, que suponho ligada às progressões. Geométricas? Aritméticas? Não me lembro mais.

Aprendo, na aula de inglês, que “boresome fellow” é camarada cacete, o que, certamente, leitor amigo, não sou. Em biologia, ensinam-se os caracteres dos seres vivos e dá-se notícia de que Le Duc, seja ele quem foi, provou o crescimento da matéria bruta.

Já em história Quatrefage está com tudo e não está prosa, pois é o maior defensor do monogenismo, teoria a que adiro, de pronto.

E em geografia se ensina que as principais constelações antigas eram 48 e, de Sirius a Castor, 22 as estrelas de primeira grandeza. Mesmo hoje, tantos anos passados, ainda vislumbro a Alfa do Cão Maior, tremulando, humildemente, lá longe, bem longe…

Perdida em uma folha solta, deparo-me com a aterradora pergunta, digna de Conan Doyle: “What happened one night?” E lá e vem a historinha catita do que aconteceu certa noite: um ratinho que bebeu whisky, certamente velho de 12 anos, de uma garrafa quebrada no armazém em que morava. Bebia e dava uma fugidinha para o buraco, até que, no quarto ou quinto gole, trepou num barrilzinho e desafiou:

— Que apareça o danado do gato…

Em desenho, destaca-se a diferença entre circunferência e círculo, e somos apresentados ao raio, diâmetro, tangente, secante, setor, arco, corda, flecha e segmento. Não sei por que existem também exercícios preliminares de taquigrafia (matéria fora do currículo) onde se vê que o “E” no meio da palavra exprime-se pela união direta das consoantes que encerram a vogal.

O curso de matemática de 1944 começa, estranhamente, com uma análise da posição da disciplina entre as demais ciências, e o de física nos esclarece que matéria é a coisa ao alcance da nossa imaginação, feita abstração do tamanho e da configuração, ao passo que substância é que tem existência objetiva e fere nossos sentidos. Será que nos manuais de hoje ainda é assim? Sei não.

Descubro que, em 1943, estudamos pelo livro Língua portuguesa de Aníbal Bruno e a Gramática francesa indicada é a de Trajano Pinto da Luz.

Na cadernetinha de Canto Orfeônico, entre muitos hinos e canções, eis que se nos depara a marcha heroica “Sete de Setembro” que Obertal Chaves escreveu e Thiers Cardoso musificou (sic), cuja primeira estrofe nos concita a que

Neste diz de glória e de luz,
Nossas vozes, irmãos, levantemos.
Nossa fé nos anima e conduz,
Somos fortes e pois venceremos…

Não se sabe o que ou a quem venceremos, mas vamos em frente.

Esta música nos dá alento para que assimilemos o conceito de prosopopeia, “figura de gramática que consiste em dar aos animais ou seres inanimados, vozes humanas”. E o exemplo vem célere: Quando o Penedo falava, o que nos remete ao autor do livro, o este ano centenário professor Elpídio Pimentel. Descubro, também, que solteiro é adjetivo que não admite graus, embora hoje se diga, quando um cidadão se descasa, que ele está solteiríssimo…

Lá pelas tantas há uma aula sobre o livro, “este audaz guerreiro que conquista o mundo inteiro, sem nunca ter tido Waterloo”, e os alunos aprendem que livros têm capa (brochura ou cartonada), dorso ou lombada, corte, guardas, ante-rosto, rosto, cantos ou cantoneiras, prefácio e posfácio, o que me relembra o fato anedótico contado por Paulo Vellozo que teria ocorrido no Ginásio Espírito Santo, no final da Capixaba. Aloísio Gonçalves verifica que no banheiro não há papel e ouvindo, ao lado, o som inconfundível, dialoga com o Calazans, em seu inconfundível sotaque nordestino:

— Calazans, me dá papel…

— Aqui também não tem. Estou usando o prefácio da Química do Pessegueiro do Amaral…

— Então me passe o posfácio…

Enfim, e para encurtar a história que já vai longa, lá estão, na anotação de geografia, para que a gente decorasse, os nomes dos cabos do Pará, hoje no estado do Amapá: Orange, Cassiporé e Norte…

Bom mesmo é a satisfação de ter aprendido muito e ter esquecido quase tudo, tanto saber inútil que não faz falta alguma. Cabo Orange, eu nunca vou lá, não sou madeireiro, minerador nem agente secreto.

Ah! Ia me esquecendo: Gurupi no Maranhão…


[In Revista Você n. 20, fevereiro de 1994.]


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Renato Pacheco foi importante pesquisador da história e folclore capixabas, além de escritor, com vários livros publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Estação Capixaba

Estação Capixaba é o site voltado para a cultura, história e geografia do Espírito Santo e que busca resgatar, produzir, sistematizar, preservar e divulgar informações nessas áreas, sejam elas de autores locais ou não.

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