Se está aqui é porque agrada-lhe a mulher que eu das vísceras. Dou uma Pitada de maldade e o senhor se ri. Corto os pulsos, o senhor ejacu...

Excerto do romance Aninhanha



Se está aqui é porque agrada-lhe a mulher que eu das vísceras. Dou uma Pitada de maldade e o senhor se ri. Corto os pulsos, o senhor ejacula. Legião. Todos espiam pela greta da porta. Mas não. É bom que esteja aqui, não sabe o prazer o gozo que me é permitido quando diz que devo continuar esta narrativa torta e sem valor. Desagradam-me e irritam-me suas insistências de que devo poupar-me. Elas dão uma sensação de conclusão, de insuficiência que dentro cá em mim é consciência. Os instantes que passo aqui largada nesta cama miserável me poupam fôlego, deixam-me imaginar melhor as palavras com que dizer-lhe minha narrativa, o senhor já deve ter a observância de minha dificuldade em falar esta sintética língua, aborrece-o certamente a sintaxe e outras dificuldades, mas é assim que me expresso eu aquela em mim carne viva. Beleza nunca tive segundo os vigentes conceitos, que não nasci para ser bela. É verdade que tinha os meus encantos, a natureza dotou-me de pele deste marrom indefinido, carne dura, ancas polpudas, a beleza bruta sem retoques que não dispõe para sua sofisticação dos apetrechos das moças para quem a possibilidade de todos esses miraculosos tubinhos. Aquela realidade de que tratamos o abjeto de então pouco levou dessa beleza agora distante, tinha meus encantos frescos, mas segundo os critérios de beleza bela não era não senhor. Agora que a angústia tolheu-me toda a possível beleza caco sou mais caco do que eu fui. Os dias convenceram-me do erro e do pecado final, aquele que nos dicotomiza, que torna o ser em antes e em depois. Os dias arrebataram de mim todos os encantos com que atraía os brutos. Não avalia como é pesado lembrar os caminhos e descaminhos e pedras desta vida aqui dentro, creio mesmo que aquela morta em mim eu outra tateando a expiação desde aquele dia em que debaixo da velha laranjeira os urubus terríveis. Não imagina o segredo que aqui dentro de mim garrafa de vidro. Frágil. Mas não é de qualquer maneira assunto para o presente. Compreendo sua ansiedade. Compreendo que diga da minha possível anterior alegria que transforma-se agora em uma cortina negra rés do chão até o teto. Eu sou uma janela oculta. Da legião ao abismo. Tristezas. É possível, sinto-me mesmo acabrunhada, por um instante o fim o termo, não cuidemos disso. A sua ansiedade haverá o termo certo em que a sacie, quando eu concluir a curva do tempo. O tempo medido. Então a possível paz, já não serei a única a saber o crime. O pecado. Não posso no que me concerne ignorar os descaminhos que me àquele levaram, não devo esquecer-me de narrar os acessórios fatos sem os quais o último perderia sua razão, sua justificativa. É preciso situá-lo para que compreenda em que circunstâncias cometi o cometido. Se não tiver pecados atire a primeira pedra. (...)Eram as noites o sonho e o evitar os homens, os absurdos, pulando daqui para ali. Numa daquelas tardes de inexplicar, Aninhanha surpreendeu-me quando ao invés de dirigirmo-nos ao depósito de sempre tomou outro caminho e dirigiu-se a outro comprador. Isso na verdade não me foi motivo de muitas cogitações, mas julguei estar ali terminando um ciclo de meu existir de papel. A possibilidade de outro encheu-me de. Aninhanha dera-se em sozinha ficar falando é arranjar-se arranjar-se mas eu nunca atinei com a significação disso nem me preocupei muito em razão deste novo estado de ânimo que me em mim por dentro renascia. Ficava pelos cantos com seu oblíquo olhar resmungando palavras incompreensíveis em que se ouvia com freqüência é arranjar-se assim assim que outro jeito não há. Os meus comportares de solitária e noctívaga arranjou-me indecorosamente um nome, homens e mulheres em me chamar Loucamansa meio a modos de galhofa olha a Loucamansa que tem boas ancas, qualquer dia lhe passam a peia que mesmo louca é boa de ferro. Loucamansa um dia se torna uma de nós e ai. O meu existirzinho era de universo exíguo de na exigüidade caber. Cheio de sonhos quebrados e caquinhos e pó. Uma daquelas noites mandou-me Aninhanha buscar água no poço lá no dizer que não demorasse, insistentemente. Era de fingir grande atrapalhação nos afazeres. Necessário relembrar que essa tarefa era quase sempre destinada a mim. Vez ou outra ia ela e ela, mas era já dos hábitos que eu fosse. O caminho ia perdendo seus medos, seus maus encantos, o medo que me anteriormente dava substituía-se por uma meio opaca felicidade do jeito que me possível fosse arranjar cá no meio das minhas miudezas. Prenunciava uma noite escura de ser possível que chovesse mais tarde. Mas não. Não há chuva no meu mundo, o mundo que de dentro expurgo. Apanhei a lata e fui descendo pela umidade das palafitas ao caminho lá embaixo na terra seca na terra. Ia pensando em nada do planejar arranjos de macho e fêmea, todos os meus medos de papel esquecidos. Apenas apagadas reminiscências. Os bichos, provavelmente ratos em seus correres no baixo do capim, já não me davam o terror de outros tempos. Os ratos eram aliás animais queridos com que me sentia igualada. Os ratos eu gostava mais deles do que dos homens, aliados. Havia muitas nuvens no céu. Mas no meu mundo a chuva não. O nada. A clareira em volta do poço sozinho. A noite ia adentrando o mundo de aberta boca. Já não via a água sempre muito branquinha, era de sentir seu frio nos dedos, um frio bom e sempre novo. Cheia a lata, resolvi sentar um pouco uma esperinha para voltar embriagada da noite e seus frescores. Aquela solidão me um pouco apaziguava de me dar um certo indefinido gozo, o gozar das solitárias. Uma ratazana passou correndo e em instantes era um correr enfurecido de ratos. Depois o silêncio de nem mesmo os ratos. O mundo encheu-se de tal sossego que me estirei no capim. Até que os ratos começassem novos correres, desta vez soltando guinchos medonhos. Sentei-me aparvalhado-tonta. Por um mistério de luz é que vi que os ratos se mordiam uns aos osutros, em luta feroz. Havia já vários cadáveres de ratos no chão, de barrigas muito esbranquiçadas viradas para cima, ratos sem cabeça e ratos pondo as tripas. Os ratos se amontoavam como lixo, como garrafas terríveis na luta inexplicável. De inopinado o silêncio quebrado apenas por um arrastar difícil de ratos estropiados. Depois o silêncio total. Nem vento nas folhas nem. Agarrei a borda da lata e a pus na cabeça. O corpo se enchia de arrepios do prenúncio dos ratos. Empreendi o retorno. Em mim uma tempestade de ventos. A alguns passos da clareira é que o tudo aconteceu, muito rapidamente para que eu pudesse alguma reação. Algo saltou sobre mim de violência. A lata caiu no chão derramando a água. Quando pude refazer-me do susto é que pude ver quem era o agressor: o homem do depósito, com os olhos medonhos. Dei um grito estrebuchando um gritar de guerreira. Trêmula de pavor empreendi soltar-me lutando com as forças de que dispunha. Com alguma dificuldade desvencilhei-me de seus braços e me pus a correr, mas as pernas me negavam a força e pareciam puxar-me para trás. O homem do depósito acabou alcançando-me num pulo em que ambos caímos no chão. Na confusão eu não via direito. Lutando com unhas e dentes. Aquela massa de carne ia se impondo em cima de mim. Enquanto uma de suas mãos me apertava o pescoço de quase me sufocar, a outra deslizou pelo corpo até enfiar-se nos ocultos de debaixo do vestido e rasgar a roupa que me. Assim feito puxou o vestido já meio rasgado de deixar-me os encantos à mostra. Eu lhe socava o rosto e unhava bicho doido de morder o que me pela frente. Ele se ia metendo entre as minhas pernas e eu senti o tótem na sagrada chaga. Urrei de dor e intensifiquei a luta, todos os meus sonhos se esvaindo. Eu já sentia o sangue empapando as pernas e o chão. O homem largou na noite um urro medonho e eu me senti encher o baixo-ventre de um líquido viscoso e quente. Medonho o homem estremecido descambou para um lado. Ajuntei no chão minhas forças e levantei-me de um pulo. Apanhei no escuro uma pedra e a atirei em direção à sua cabeça. Ia matá-lo assim do jeito como eu me sentia assim. Era uma forma de sim. Um bicho por dentro, um bicho espumento. O homem do depósito pulou para o lado e a pedra bateu no chão com um barulho seco. Pus-me a correr, mas fui novamente apanhada. Uma chuva de pancadas se abateu sobre minha cabeça e meu rosto cheia de injúrias ferozes e ressentidas. A queda e o coito. Quantos? Eu já não me possuía demônio inerte. Ordinária. Dúzias de vezes ordinária no buraco negro da boca do homem do depósito. Por fim cobriu-me o manto de nada mais ser consciente. Fantoche. Era como me sentia. Quando acordei tinha na boca um gosto de coisa amarga e nos pensares a impressão da desordem dos desejos jogados na terra enterrados, feitos pó. A cabeça doía muito, a carne toda doía muito. Eu tinha sido abusada de todas as maneiras. Eu sei comigo por dentro. Não tinha muita certeza nem tenho ainda dos sentimentos que me possuíam e que me possuíram até o dia em que. Quando me levantei dei-me com os cadáveres de ratos dilacerados e os vestígios da luta. E a pedra. A pedra ao alcance das mãos no meio da trilha. Toquei-a com carinho, de carícia. O sangue seco e fétido no meio das pernas, carne rompida e o brilho das dracmas. Senti-me partida em duas: a que se foi e a que nascia. Dois seres dicotômicos. Olhei para a pedra e sorri um riso medonho de louca. Lavei-me no poço e livrei-me de mim morta. Primeira pessoa absurda. Eu não existo. Primeira pessoa do plural. Sou a partir do momento que. O poço de vermelinda lama. Dirigi-me ao barraco, ajeitava a roupa como podia sem me importar com os de fora. Esfarrapada. Queria ser o retrato de mim a que morrera. Pelo caminho o amanhecer. Quanto tempo? O tempo é imensurável. As palafitas ensaiavam seus primeiros vôos. Quando empurrei a porta encontrei Aninhanha bêbada de morrer, os lábios babentos articulavam sons desconexos e roucos. Olhou-me com os olhos de anátema possível e pôs-se a rir medonha. Depois arrastou-se pela exigüidade do cômodo e tirou de uma greta as trinta moedas de prata. Olhava-me com insistentes olhos de piedade intercalados com olhos às moedas sem brilho que tilintavam nas mãos trêmulas. Pra Maria Trinta Cruzes nada que reluz é ouro. Nada. Aninhanha tartamudeou afinal um pedido de perdão pouco convincente, um pedido vão. Passei por ela muda como uma pedra a pedra que havia deixado no meio do caminho e deitei-me sobre os trapos daqueles anos todos, cenário silencioso. Só me das sombras lembro. Depois o existir continuou: o carroção, o lixo, a fome, eu calada abstida ia para o trabalho sozinha. Aninhanha definhava de passar todos os seus existires bêbada de ir ficando louca lá consigo. Os homens iam fugindo, os loucos é que vinham se chegando a se entender com ela. Levavam-na para o mato e ela voltava de lá cambaleante, fazendo macaquices no meio das palafitas. Parecia uma marionete molambenta. É conhecido que muitas vezes piedosas gentes a impediram de cair nas pontas de pau sob as águas podres. Ela também se apodrecendo. Os homens de Aninhanha tentaram transferir-se para mim com propostas vis mas os repeli. A Loucamansa bem que está no ponto de peia essa uma. Eu sou nada eu não existo. O senhor sabe que minha natureza é volátil. Um sonho fumarento. Nada. Um existir de papel. O homem do depósito nunca mais fisicamente, mas meus pensares eram todos dele: meus pensares de ódio e de morte. Eu urrava no silêncio do peito a dor de ódio. Eu espumava. Eu dizia sim: o sim absoluto. Ia assim levando aqueles esboços de existires até que o fato mais importante dos meus tempos aconteceu, o que veio dar curso mais grosso ao ódio calado que eu carregava aqui dentro. A princípio comecei a sentir vertigens e náuseas. Depois um sentimento de dicotomia como se eu me em mim terminasse e eu fosse os tudos. Esses sentires eram de repetência a repetência. Eu me em mim não me dava conhecimento do que acontecer acontecia. De nunca haver sentido aquelas coisas assim assim totalmente estranhas. Foi num dia o tempo ah como eu preciso do tempo. Deparei com minha barriga crescendo, o corpo tomando outras formas. Creia-me: quando descobri o quê pus-me a rir desesperadamente, enlouquecida. De pedra espumava. De ódio. Esvoacei pelas palafitas com minha loucura de deixar meus demônios a. Descobriu-me o amanhecer daquele dia feliz acariciando de olhos postos na escuridão das águas nas dores das águas o ventre inchado. O sim. E o riso desesperado. Depois a sobriedade e os olhos abertos na vigília. Não queria perder os iniciais desejos no remexer dos tempos. O mexer-se por dentro de mim. Pontapés. Nada. Fui vivendo cada dia o seu mal cada dia esperando a espera do tempo certo.


[In Aninhanha, Vitória: SPDC-UFES, 1992 / 2. ed. Vitória: Cultural-ES, 1998 / 3. ed. Vitória: Secult, 2014. Reprodução autorizada pelo autor.]


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Pedro José Nunes, escritor, nasceu em Ibitirama, ES, em 1962. Nesse mesmo ano, sua família retornou a São José do Calçado, e lá ele residiu até os 19 anos, quando se mudou definitivamente para Vitória. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Criador e responsável pela manutenção do site Terlúlia, dedicado à literatura produzida no Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)

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