I JUSTIFICATIVA PARA O POEMA As casas como as pessoas são diferentes mas não outras, ainda que sejam iguais; às vezes menos, às vez...

Excertos de A casa imaginária

3/27/2001 , , 0 Comentários


I
JUSTIFICATIVA PARA O POEMA

As casas como as pessoas
são diferentes mas não outras,
ainda que sejam iguais;
às vezes menos, às vezes mais.

Foram feitas pra guardar
num mesmo e único lugar
o que não foi consumido.

Na memória, o esquecido.
Numa parte deste quarto
as coisas de que me farto.

É um mesmo pó vertical.
Chame parede ou chame pele
ao círculo que as envolve,
ambas o tempo as dissolve.

Por dentro muito segredo.
Por fora silêncio e medo.


II
PRIMEIRA EDIFICAÇÃO DA CASA

Edificai vossa casa. Em pó ou argila,
em rocha se preciso
que a edifiqueis. Ou em espuma ou brisa.
Edificai que esse é o vosso
exercício e vosso abrigo.

Edificai para sempre ou por um
momento que seja. E será para sempre
ainda que por um breve tempo.

Edificai vossa casa em qualquer sítio
lugar ou em qualquer espaço,
até mesmo no interior de vós ou em vosso
redor. Edificai vossa casa onde possais ser
o senhor e o servo, o hospedeiro e o conviva.

Mas no instante em que disserdes: é a minha casa,
cuidai de a terdes edificado no amor, a fim de que
não vos pareça o que não é: vossa casa.


III
SEGUNDA EDIFICAÇÃO DA CASA

E então a edificaram.
E foi edificada
com paredes redes arcos
sobre a escada.

E pedras e arrecifes
e óleo ou o que seja;
absorta, distante, breve
a quem a veja.

E urzes brancas e verdes
e sebes por sobre um muro
assim tão mudo, assim quieto
e grave, sólido, obscuro.

E então a edificaram.
E foi assim habitada.
Por muito sonho, muita mágoa
muito pouco e muito nada.

Por muitos pés, mãos e passos
gritos, risos, dor e face.
Por muita espera, muita espera,
muito amor de quem a amasse.

E foram quartos, foram vidas,
foi esse lugar encontrado.
O chão vazio, o chão pisado
por tanto tempo e tanto lado.

É como a vejo entre pássaros,
flor e fruto, e entre azuis
de céu e veste — esta casa
e esse lugar em que a pus.

Em que eu a tenho e a ocupo.
Em que eu a habito e a construo.
Com o mesmo rio e o mesmo leito
onde me deito e me diluo.


VIII
ROTEIRO PARA UM POEMA

Não se pretenda alcançá-la, não
se pretenda alcançá-la de um só mesmo
modo. Siga até onde ou quando
se enterneçam ambos: a pele e os olhos.
O campo santo, o portão, os muros
brancos; flores de morte e tumbas
rasas, vagas; entre cravos e água.
Talvez até mesmo descubra um animal
cujo olhar se derrame e
fique.
Deixe-o.
Que fique..
E siga. E siga.
Até a igrejinha. Até a igrejinha triste e em
silêncio. Tão alva. Tão frágil. Tão macia.
De paredes rotas.

Mas não pretenda alcançá-la, não
pretenda alcançá-la de um só e mesmo
modo.
Siga apenas ou fique
como e quanto queira.
O campo é verde e o chão
sempre úmido.
Siga.
E siga.

Até que aviste, além
da última virada. À direita, a casa
a mesma casa
imaginada
alada
inútil
vaga.
Com janelas e pés
sobre os degraus.
Um porão escuro.
Um muro.
Um resto de
curral.


XI
PRIMEIRO ANIMAL INTERIOR

Ali a aranha
escura e feia.
As patas, curvas como
luvas.
Negras, macias.
Frias.

Tece e tece
a teia.
Serpenteia
sobe e
desce.
Se emaranha
em si mesma, a aranha
inseto
insone
pérfido
reto.

O escuro procura e nele
se deita.
A rede feita,
se contenta e
espera.
Espera.
A falsa fera
imperfeita.


XIII
EQUUS

Ao cavalo
o olhar é triste e em se olhá-lo
impossível se torna quase vê-lo
entre crinas e pêlo.

É fauno e fá-lo
mover-se o cavalgá-lo.
Dar-se-lhe (como?) a brida
em inopina corrida

se em trote a anca
errante galopante arranca
ao ventre metálico

o sensível
fálico?
Ah impossível!


XIV
O ANIMAL FINAL

Galinha
ser e ave
andante
inquieta
não como pétala
reta
imóvel
ab
sorta
rasa
réptil
alada em bípede
corrente.

O bico hirto e
grave
a define e a torna
o ser e a ave
inquieta
andante
loco
móvel.


XV
DO NOME

É necessário parece dar-se um nome
a esta casa e lugar como é costume
entre todos não importa a quem o tome
desde que assim o chame quem o assume.

A esta casa e lugar imaginários
em mim onde eu me encontro e onde habito,
não importa que os nomes sejam vários
e a nenhum eu o diga ou o tenha dito.

Pois apenas existem e assim somente
existir é importante, ainda que a gente
disso não queira estar sempre seguro.

O nome desta casa eu nunca digo
ainda que o conserve aqui comigo
na mesma imaginária memória onde o procuro.


XX
O CAMINHO O CAMINHO

O caminho, o caminho é um navio
alado e órfão do casquilho à proa.
É nauta o passo, o passo frio
errante e vago que ressoa.

O caminho, o caminho é sempre longe
e longe assim o entendo e o vejo e o ponho.
Apenas um lugar. E enquanto o busque
tão perto me pareça quanto um sonho.

O caminho, o caminho não são flores
nem ervas de que eu cuide pro plantio.
O caminho, o caminho é um navio
e nauta é o passo, o passo errante e frio.


XXIII
PRIMEIRA EDIFICAÇÃO DA AMADA

Deve haver, sim, a amada
em um lugar qualquer.
Imaginária e mulher.

Ou flor, ou
ave,
eu creio.

Eu não a fiz
ou quis
imaginada.

Foi como veio.


XXIV
SEGUNDA EDIFICAÇÃO DA AMADA

Havia um beijo em sua boca
era eu que o tinha dado.
Com os olhos ela me olhava.
Com os olhos ela era olhada.

Falou-me através da voz
e se vestiu de muitas prendas.
E não me disse o seu nome
apenas como a chamavam.

Trazia pálida a fronte
como uma luz se esvaindo.
Não era tarde, não era noite
não era ainda o dia findo.

Um frio de louco inverno
os ombros mordia (eu me lembro).
Estava trêmula a sombra
que ao meu lado se mexia.

Tinha um sorriso guardado
no vestido que vestia.
Uma flor entre os seus lábios
e adeuses nas suas mãos.

Eu a cobri com os meus ombros
todo o tempo, e de cobri-la
foram minhas muitas dores
e também não foram poucas.

E ela falou no silêncio
de sua boca. E em suas mãos
guardou palavras como sempre
as tive também guardadas.


XXV
PARTES, REPARTES

Aqui te
reparto. As mãos em minhas
mãos. Tão perto.

Num lugar qualquer
secreto,
um retrato.
Por que não o quarto?
Imagem longe e perto.

Os olhos? Que fazer dos
olhos? Vê-los.
Assim como aos
cabelos.

À volta e em mim,
docemente
o braço
qual cândida serpente
cujo laço
me liberta e me prende.

O sorriso, o sorriso
não existe
em que nem onde pô-lo.
Triste consolo!
Deixa-o incluso
Em ti, para meu uso.

Só o insone
sexo
não será ex
posto
posto
que é sexo e não o rosto.

Dormirá lá dentro
farto
inquieto
longe e
perto
enquanto em ti, em mim, aqui
te reparto.


XXVI
POEMA GERAL

Sê assim: cativa e próxima
como um arbusto. Ainda é outono.

As tuas mãos floresçam.
Que entre pétalas já não serão minhas.

E ficarão mais próximas
pois que florescem. Ainda é outono.

Sê assim: como esse branco
de vozes silenciosas.

Como os teus lábios. Assim
como os teus lábios.

Suaves, perdidos, brancos.
De pétala. Ainda é outono.

Quando colher a tua face em
mim, lembrarei que floresce.

Lembrarei que floresce. Ah,
e ainda é outono!


[In O país d'El Rey & A casa imaginária, de Roberto Almada, Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1986.]


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Roberto [Leite Ribeiro] Almada, poeta, nasceu em 22 de junho de 1935, em Juiz de Fora, MG. Morou no Rio de Janeiro, onde trabalhou como roteirista de fotonovelas, adaptador de teleteatro e redator. Casou-se em 1960 com Vilma Paraíso Ferreira, em Guaçuí, ES, onde atuou como professor. Alguns anos mais tarde transferiu-se para Vitória. Mudou-se para São Paulo, mas veio a falecer em Vitória a 22 de março de 1994. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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