GERAÇÃO ACAMPADA Numa tarde gélida, com toda a nudez patética, Levantamos nossos braços para a alegria despojada de tranqüilidade, De...

"Geração acampada"

3/29/2001 , , 0 Comentários


GERAÇÃO ACAMPADA


Numa tarde gélida, com toda a nudez patética,
Levantamos nossos braços para a alegria
despojada de tranqüilidade,
Despojada de tumulto,
Despojada de alegria:
Levantamos nossas cabeças
para permanecermos dormindo
enquanto caminhávamos,

E veio então o sono diurno,
Aquele que vem e nos torna seres noturnos
dentro do dia escurecidos,
Aquele que nos traz o que queríamos
ter sido,
Aquele que nos traz o sonho perdido.



GERAÇÃO ACAMPADA II


Cansados de memorizar todas as partes
das notícias exatas comumente participadas,
E vendo que a recentidade
das gerações passadas
garantia-lhes a fácil transmissão
das palavras 
apenas por não conhecerem
o peso delas no mundo:
Apenas por não se conhecerem tanto,
Já não temos apenas a ambição
de envelhecer em paz,
Pois àj[ * ] fotográfica ciência, por contraste,
Revela a velhice dos traços pueris
sob a pele do esmalte.

Confirmando a impotência,
As paredes permanecerão brancas e azuis sobre mim, bem o sei,
Céu que são desvirtuadas da transparência,
E que esta ausência do transparente não me importe
entre as coisas nas quais se importa, eu compreendo,
Pois nem mesmo eu sou perfeito
em ver através dos obstáculos, súbitos, que do concreto
continuamente se projetam dos buracos
em laços e ramadas: abstratos jatos parados de pedra.

Além disso, bem sei que nem mesmo eu
me importo entre as coisas nas quais me importo,
Pois já em nada me importo, e estou despido
de tudo que me prendia a algo,
De todos os valores de agora deste momento nítido
de antes da explosão, que dizem, virá.

E mesmo absorto na aceitação com que se depositam as pernas
no tronco nos membros, e a cabeça no corpo,
Bem sei que virá, mesmo sem poder saber,
E mesmo que não seja uma explosão, mas algo que espero,
E, vivo mesmo que esteja,
Bem sei que não estarei o mesmo,

Pois já agora não tenho nada de meu a me apegar,
E com a mesma ternura com que xingo,
Anseio por algo onde o pouco tempo
para um soco não se distingue da rapidez
de uma
carícia que se distingue não
de um palavrão: acho-me anulado, ansiando por algo.

Sabendo que tudo dará em nada,
Bem sei que pela explosão que anseio,
Anseio saBemdo que ansiaria por qualquer outra alteração,
De corpos, bem sei que ansiaria por qualquer grito
que me libertasse
do que espero parado na praia, no bar, no vidro do disco,
Enquanto vejo a continuidade do tempo
descontinuar os gestos
que tentam pará-lo, mas que permanecem parados,

Bem, sei que anseio por algo.
Mas que, vindo rápido ou lento,
Chegue antes que as mesas embriagadormecidas consumam
uma geração nos cios dos sius ocupantes, caminhantes
excessivos perdidos das próprias raízes.

Fingindo estar acordado,
Espero adormecido dentro do dia
por algo que derrame goela abaixo um caldo quente
que detesto, pois enquanto me aquecer
me derreterá a espera que o corpo já quase não espera,
E me deixará levado pelas ondas vindas
do mar vindo dos olhos liquefeitos.

(Para atingir a origem das nascentes,
Ir às profundezas é me apertar
por entre grãos de telúricas incertezas.)

Confusos superpostos e confundindos, etc. novos dias etc.
nascem etc. a cada minuto,
Com planícies novas nascidas

quando, sem saber se manejar, em si mesma a montanha escorrega
na montanha, rola pela montanha, fere-se na montanha,
Cai no abismo que forma — e morre
e se transforma
sabendo que é porque a simples presença da própria carne a arranha.

In my beginning is my end.


[ * ] P.S.: àj = aaj = a ja = a já = já a



GERAÇÃO ACAMPADA VIII (RAZÃO DO SILÊNCIO)


Oculto, até que se desfaçam, as minhas faces em que eu mistérios via
  e que por mistérios via
as que no próximo verso serão desmanchadas pela idade,

Desapareço porque as faces que um dia tive para serem ostentadas com atualidade,
Porque estas faces seriam ultrapassadas — talvez no mesmo ano do dia—

e olhadas com estranheza ou com saudade em fotografias
que também seriam ultrapassadas
antes mesmo de talvez não serem tiradas;

Desapareço e, no mistério do corpo que some,
Some o verso que mora no corpo e no mistério,

Desapareço e, se no tempo em que havia mistérios
maiores do que o universo,
Se nesse tempo ancestral escrevi muitos versos e muito prazer,

Hoje meu único mistério é saber
para onde foram mistérios tão sérios,

Hoje, porque não há mais nenhum mistério crível,
Já não posso ver em mim os meus segredos
que usava para escre-ver-vos versos: TORNEI-ME INVISÍVEL,

E quem olha na direção em que estou
só vê o que há atrás do que não sou,

E quem me interroga a respeito da vida
já não se interessa pela minha resposta
antes mesmo de saber que não poderá ouvi-la,

Antes mesmo de eu não querer responder-lhe
a respeito de coisas que me são bastantes;

E quem atravessa o espaço que ocupo
talvez não saiba que desarranja o ser que ali habita,
E, por isso, a nenhum de nós EU O CULPO
por nossos corpos se penetrarem mas não se fundirem,
Por não querer conhecer antes antes mesmo de conhecer quem desconheço,

Por não poder tocar vocês
que toco apenas com minha visão invisível,
Uma visão que nunca enxerga o que vê

porque nunca possui um par de olhos
de onde passa partir um olhar;

Por não poder tocar o cortejo de corpos
que antes serem tocados
já não os vejo,

Por não poderem ter o desejo
de viverem para um único beijo.



GERAÇÃO ACAMPADA IX


Nossa dor é uma grandeza que cresce
porque o contato com os anos só a rejuvenesce,
E a experiência, rio caudaloso, só cava canyons em pele e alma
e apaga os traços e muda a paisagem infantil da calma.

E a da dor das mudanças é tão grande e tão bela
que, para não escutarmos seu canto de sereia,
É preciso gritar mais rouco, mais alto, mais profundo, mais dolorido
e mais ritmadamente do que ela.

Pois a dor, sabemos, é o destino de quem nasce
porque nasce antes de nascer a pessoa a que se destina:

Um dia fomos curvos e pré-nascituros,
Um dia quase não nascemos,
Um dia quase não tínhamos forma,
Um dia quase não nos movimentávamos,
E, um dia antes deste dia, não tínhamos forma

nem ânsias
nem vida                        } CORO
nem dor
nem esperança.

E no entanto existíamos em buraco no futuro
em que não tínhamos esperança mas que nos esperava.

Por isso caminhamos, à espera que a velhice
nos torne em antiguidades curvadas e engatinhantes,
À espera que o contato com os anos nos amorfe e nos gaste,
À espera que o tempo nos atravesse pelo avesso
e nos curve e nos impeça os movimentos que doem
e nos faça voltar à dependência de origem
até que, um dia depois de sermos curvos e vagarosos,
A espera e a esperança terminem,
A vida se extinga da mesma forma que começou,
Os extremos se unam
e a forma que começou se desvaneça e se transforme em terra
e chegue o momento em que pessoas que aprenderem a se mover
devam aprender, com as pedras, a imobilidade como pedras,
E chegue o momento de se nascer para uma outra realidade.

Pois a morte é um nascimento tão vasto
que torna a existência apenas um buraco no passado.



GERAÇÃO ACAMPADA X (A TRIBO)


Aos irmãos do Grupo Letra

Aos trilhões vividos os fatos
e já esquecidos de imediatos,
Aos trilhões vividos os fatos
copo a copo ou sóbrios os atos
e no entanto esquecidos no corpo
e pelos corpos e os corpos e no prato,
Da memória em ausência herdando
apenas sensações e o intuído e demência,
Velha de anos e composta por jovens de coração,
A tribo antiga acampa sua juventude nos prédios demolidos
no meio da moderníssima cidade dos anciãos.

E embutida na outra ela se acha,
Cidade dentro de cidade e submersas na maré baixa
como iguais duas caixas uma dentro da outra e abaixo,
As duas feitas de nada se acha e senões,
Mas só que a tribo também feita de paixões.

E se na moderníssima cidade de tédio
todos são muito mais ou menos de prédios,
Na antiga tribo todos se guiam pelas paixões
e mais ou menos muito todos são sões.

E quem são estes que ante o som da própria voz
calam-se para se ouvir melhor
até que das bocas fechadas em harmonia
eleve-se a plasticidade de esculturas em melodia?

Quem é que não acha difícil
instalar campos, rios e luas nos edifícios,
Quem é que come o sol de tarde
e restos de barulhos que ardem,
À espera da noite que tarda?

Pois é à noite que sua desmemória
usa seus mortos como perfume,
Cheiro de que suspeitam no que ouvem das histórias,
Mas que não sentem por causa dos anos de costume;

É à noite que suas emoções nascem do pó e da cinza morta
e viajam seu crescimento por tudo que lhes importa;

É à noite que, bem além da moral e da memória,
Tem-se o bastante se conquistam a própria voz agora,
Tem-se o bastante se angústias e conflitos
podem ser insatisfeitos mas podem ser ritos
em que seus corpos são toda sua cultura e são vistos
como obras que nos bares e na sua hora
ora são publicadas, são inéditas ora;

É à noite que alguém canta dizendo que sim
e que nada vale para quem não se vale de si
e não espalha vales em vocês e em mim:

Enfim, à noite, o desejo esculpido na chama
anseia por tudo que se ama
e ama iguais, opostos, animais e coisas inumanas
e inaugura as duas procissões que vejo
como sendo dois diferentes cortejos:
Na tribo antiga, o desejo há
de partir e o medo de chegar;
Na nova cidade, o medo está
de partir e o desejo de chegar.

Acampada na nova cidade e diferindo dela,
Ela a tribo cidade antiga se revelha
nas cores de neons que a fazem jovem e bela,
Nos sons com que a tribo se une e se invade
quanto mais está dispersa pela cidade,
Quanto mais se separa pelos bares
e se espera que não se pare espera:

  Sim, eles são os românticos que a cidade zera.



GERAÇÃO ACAMPADA (Viagem ao fim)


Desertos épicos me ladeiam na estrada,
Áridos por viajarem em minha companhia desolada,
Indo no fio que me corta o fosse
que sou eu e que me é tão doce.

Desertos épicos me acompanham
e se engajam na minha campanha
de percorrer o mundo por nada,
Viajando em mim que sou minha estrada.

Desertos épicos chovem das pedras,
E medram imantados onde nada medra,
Em mim, ímã que os atraio
para fazer-me de medroso e lacaio

que pelo mundo os arrasta
pelo interior de si e pelas estradas
que no seu corpo foram cavadas
pelos desertos que estradeiam pelo que arrasta.

Sim, é na estrada em mim indo
que se aridificam no que vou e findo
os desertos que molham meu osso
e boca e, sendo, são meu único olho.


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Oscar Gama Filho é psicólogo, poeta e crítico literário com diversas obras publicadas.(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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