Os textos de Pedro J. Nunes — uma novela e quatro contos — reunidos em Vilarejo e outras histórias incluem-se no fluxo da produção verbal a...

Os medonhos insucessos do Vilarejo e outras histórias


Os textos de Pedro J. Nunes — uma novela e quatro contos — reunidos em Vilarejo e outras histórias incluem-se no fluxo da produção verbal artística porque recebem e oferecem contribuições pessoais para o cabedal da Literatura, este misto de convenção tradicional e inovação, esta específica articulação de códigos para representar a realidade, esta concretização de novos e diferentes mundos e tempos na linguagem esteticamente trabalhada.

O livro, em sua unidade diversificada, cria mundos insólitos, fantásticos, absurdos, ligados numa forte teia de palavras em que velho e novo, mítico e histórico, universal e regional, sagrado e profano, sério e cômico, bem e mal estão em confronto e, ao mesmo tempo, integrados, provocando no leitor a boa e instigante dúvida que, como o riso, nos distingue dos irracionais. Ao criar esses mundos, o jovem autor capixaba realiza a fusão do discurso do sonho, da loucura, do mito, das narrativas populares produzindo um texto literário simbólico e revelador das profundidades do real que ele faz assomar.

Assim é no vilarejo, situado "sob a secular vigilância das rochosas montanhas", paisagem árida onde os homens tentam afundar na desmemória, a "largos tragos de etílica felicidade", o peso de suas torpezas. Entre eles, um forasteiro, o narrador sem nome querendo chegar "muito próximo a uma boa verdade sobre os homens e suas necessidades de conduzir a história." Procurando vencer a conspiração do silêncio sobre os medonhos insucessos ocorridos no passado, o narrador realiza um cruzamento de códigos literários e culturais, numa estratégia que lhe possibilita romper o "pacto canalha" mantido pela gentinha ordinária do lugar e o coloca como analista impiedoso de uma sociedade estupidamente cruel.

O foco narrativo escolhido — em primeira pessoa, com visão parcial dos fatos e intensa subjetivização do relato — recurso técnico que aproxima a novela das narrativas autobiográficas e das estórias de mistério e suspense; o retorno à temporalidade ancestral e a exemplaridade das ações refletidas no tempo atual do enunciado, que instalam o mito no tecido narrativo; a recorrência às fontes orais, ao maravilhoso, a omissão do nome próprio de alguns personagens simbólicos — procedimentos típicos do conto popular; o uso de alegorias e de metonímias como as que povoam o discurso onírico; a atitude de incerteza quanto à veracidade dos fatos, que dá à novela traços das narrativas fantásticas, são alguns dos componentes do processo de produção, constituindo um jogo combinatório estranho e prazeroso.

Movido pelo "humano desejo de atingir o que além da fronteira de põe", o narrador assume a dicção do cronista clássico que conta os medonhos fatos para a edificação das gentes. Entre irônico e filosófico, ele abre espaço para o leitor, tornando-o partícipe de suas descobertas e de suas dúvidas geradas pela falta de "notícias substanciais" e levando-o pelos meandros que dão "acesso ao território da abstração."

E o leitor descobre no implícito do discurso literário que, no vilarejo, tudo é uma coisa e o seu avesso, tudo é paradoxo, cada um carrega o seu contrário e, talvez, seja esta a chave do enigma.

O Coronel Veira é o oligarca mandante de crimes, que freqüentemente exercia sua lúbrica rapinagem sobre as desamparadas passantes das estradas do vilarejo, mas é, também, o cagão, o covarde borra-botas que se esconde da estranha mulher que vem postar-se, grávida, frente à "casa limpa" dos Veira.

Dona Cininha é a mater familias, piedosa e bem posta, digna e caridosa, mas não deixará de ser um ridículo cadáver encarquilhado, cujos ossos terão de ser quebrados para acomodar-se no elegante esquife encomendado pelo filho, Dr. Álvaro, o Coronelinho.

Este "doutor de boas letras da Capital", legítimo herdeiro dos bens materiais e dos indiscutíveis males morais dos Veira, é tido pela canalha do lugar como dotado de "modos afrangalhados" e dado a suspeitas amizades com jovens colonos de suas terras. Ele, porém, se casa e, ainda por cima, mantém uma bela mulata, a quem visita descaradamente, enquanto a esposa "martelava seu piano" com "os dedos demasiadamente pesados e desastrados."

A mulher inominada, que chega, grávida e ameaçadora, rastejando como um bicho e se planta "inamovível feito posta pedra" em frente à branca casa dos Veira, sem implorar misericórdia, obstinada e "muito senhora de seus quereres", esta personagem é, também, a "pobre mulher" que vai parir suas crias nas vastidões da Tronqueira, a terra do cão, onde nasce o rabudo.

Enfim, este ser de exceção, misto de homem e de besta, de horrível aparência mas de coração puro e compassivo, o rabudo é a expressão máxima dos paradoxos do vilarejo. Ele é o louco, o solitário, porém vive em paz com a natureza e com os animais, trabalha e conserva limpa e aquecida sua tapera; é o grande macaco, o Demo, o Próprio, mas é o Cordeiro, o inocente, acusado pelos fariseus que o odeiam por ser capaz de existir por si mesmo, longe das vilanias do vilarejo e a quem imputam a culpa pelo apedrejamento da casa da amante do Dr. Álvaro Veira.

Metáfora bíblica? Alegoria mítica? Visão pessimista do homem e de sua história? Tudo isto e muito mais emerge dos poderes verbais de Pedro J. Nunes, demiurgo do Vilarejo, capaz de conhecer as verdades e as falsidades daquela "gente ordinária que carrega seus crimes por trás de sorrisos sinistros, olhares dissimulados ou gestos incipientes."

No conto O porco a narrativa alcança os níveis do relato fantástico. O mundo infantil, as "relações familiares" — tanto entre os humanos quanto entre os animais — fundamentam a estória, e a memória do narrador homodiegético organiza os fatos em um discurso expressivo, sem descambar para a pieguice dos que não dominam bem a criação de personagens infantis e sem resvalar para o simplesmente pitoresco.

Novamente se encontra o tema da zoomorfização e a violência acentua os estranhos comportamentos, todavia não há crítica social nem amargas ironias, como na novela que abre o livro.

O segundo conto, A questão, aborda o drama de consciência do narrador assediado por um desconhecido que lhe propõe o duplo assassinato de seus próprios irmãos. Cheio de ressonâncias rosianas — desde a atitude narrativa ao uso de arcaísmos e regionalismos, além das reflexões filosóficas pessoais sobre o eterno conflito entre o bem e o mal —, o conto mantém o clima de incerteza e de suspense, gerado pela modéstia fingida e suposta ignorância do narrador que se dirige a um interlocutor silencioso. Mistério e violência, fetichismo e fatalismo dão ao texto o fascínio da visão das profundezas do trágico destino da frágil humanidade.

A loucura, a ambição, o crime constituem os elementos temáticos essenciais de O relógio. Focalizado na terceira pessoa onisciente, o conto tem menos enigmas que os demais da coletânea. A curta duração da ação exige condensação e rapidez do ritmo narrativo, com elipses e poucos diálogos, impedindo o maior detalhamento da interioridade dos personagens.

A cena final, acentuada pelas violentas imagens do mundo íntimo do louco, tem seu realismo pesado amenizado pela surpresa que encerra o desfecho.

Se, em A questão, Pedro J. Nunes homenageia Guimarães Rosa, especialmente o de Grande Sertão: Veredas, A divisória, o último conto, insere-se na tradição machadiana, fazendo-o no diálogo intertextual — e não cópia — pela presença do defunto autor, pela citação dos mistérios que existem entre o céu e a terra, muitos mais "do que pode imaginar a nossa vã filosofia" (referência shakesperiana que abre o conto A cartomante), bem como pelo interesse do narrador pelos inusitados acontecimentos nos quais se envolvem misteriosas figuras femininas e o tom de amarga ironia filosofante característicos do maior romancista brasileiro.

A divisória é o único conto urbano do volume e consiste, quase todo, na transcrição de uma carta contando fatos sobrenaturais vividos por um funcionário público que se depara com seu próprio cadáver e sai a espantar as gentes, invadindo uma repartição pública e "fazendo voar de parede a parede milhares de folhas de papel." Tal carta foi enviada ao suposto autor do conto por uma mulher não identificada e ele se lembra de ter lido notícias nos jornais sobre os acontecimentos relatados na carta. O embaralhamento entre o "real" e o conteúdo da carta, o delírio de que é tomado o autor da missiva, a passagem da lucidez à loucura, a amargura dos solilóquios em que ele se autoanalisa, a figura do homem desesperado que sabe que "já não interferia na ordem do mundo", a rudeza de certas caracterizações de personagens, a incerteza de Francisco Sá sobre o lado da divisória em que se encontra, fazem do conto — virtuosisticamente trabalhado na fusão de dados do Realismo (Machado, Dostoievski) com os da Literatura Fantástica ou do Realismo Mágico (Murilo Rubião, García Márquez, Cortázar) — a comovente representação de uma atormentada existência humana.

A linguagem de Vilarejo e outras histórias merece, por si só, um cuidadoso e prolongado estudo que este espaço impossibilita. Basta que se atente para sua originalidade, suas sutilezas, para a propriedade e a riqueza vocabular, para os recursos figurados, os coloquialismos, o impressionante processo de adjetivação. Aqui nos limitaremos a destacar ainda os lacônicos comentários dos moradores do vilarejo, as descrições dos cenários compondo o clima de alucinação e loucura (particularmente em Vilarejo, O relógio e A divisória), o ardiloso monólogo do narrador de A questão e os ótimos diálogos que o permeiam como mostras irrefutáveis do talento e do domínio do material expressivo da Literatura na obra de Pedro J. Nunes. Um jovem autor capixaba digno de ser lido por todos os que, como nós, amam e respeitam a Literatura.

[Prefácio da 5a. edição de Vilarejo e outras histórias, o texto acima foi originalmente publicado na revista Você. Reprodução autorizada pelo autor.]

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Deny Gomes nasceu em São Luís-MA, em 1938, e desde a infância vive no Espírito Santo, em Vitória, cidade que considera como sua terra natal. Licenciada em Letras Neolatinas, pela PUC/RJ (1959), foi professora titular de Teoria da Literatura, na Ufes, por mais de vinte anos. Autora de diversas obras literárias e de crítica literária. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Estação Capixaba

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