De Ulisses a Telêmacos 1 Meu filho não é meu filho, em nada, senão no que nele meu sangue molda e meu sêmen legitima. Não mais que...

Poemas do livro De Ulisses a Telêmacos e outras epístolas


De Ulisses a Telêmacos


1

Meu filho não é meu filho, em nada,
senão no que nele meu sangue
molda e meu sêmen legitima.

Não mais que aparência ele manifesta
em seu rosto de minha juventude,
em seu jeito de minha presença.

Não, esse filho não assume meu nome,
mas seu traço que de mim
é menos que meu nome quereria.


2

Quando o vi entre os anos,
pressenti atalhos de mim.

Não podia dizer-lhe Esse é o passo,
Esse é o gesto, Esse é o espelho.

Envelheci sobre seus poucos anos
e nada pude lhe outorgar,

senão uma fenda, uma lacuna,

um silêncio.


3

Sei que suas mãos são gêmeas das minhas;
que seus ombros, seu andar, seus olhos
são águas onde posso me debruçar, sem cair.

Mas nenhum de seus nortes lembram os meus:
as partidas, os desafios, as terras,
nada o acende para os navios e as gáveas.

Você não tece tapetes, tampouco dá vida às setas.


4

Uma vez falei-lhe de viagens, de guerras, de cavalos.

Ouviu-me como quem bebe vinho sem defesa,
e deu-me sua atenção sem perceber
que seus olhos empalideciam, luz a luz.

Guardei todas as dúvidas num medo tácito
e zarpei, munido de um espesso frio no coração.

Mais do que das praias de casa, zarpei de meu rapaz
que me olhou como quem não partilha o mesmo ar.

Você me disse qualquer coisa, e ouvi Adeus.
Eu silenciei os olhos, e você entendeu Nada posso fazer.

Criamos o avesso, filho, e não nos beijamos mais.


5

Entre o que queria e o que em você conheço
há o tempo que esvaziei distraidamente.

Não percebi seus olhos longe,
em algum lugar, onde se frisam estigmas.

Vi-o por meio de mim, ignorando-o.

Esqueci-me do que naufraga
entre o que se sonha e o que vibra o tempo.

Ele vai, com meu corpo, sem meu nome,
e não sei se sorrio ou se fecho portas.



De Jessé a Davi


1

Quando a pedra de tua funda
arrebentou o tamanho daquele homem,
filho, caí com ele sob a consciência
de que teus anos seriam acesos
e meus passos não seriam mais
que um grão que trouxe o teu para a luz.

Desde então alegrei-me para o Senhor,
e entristeci-me para o que em mim
era mais que ser pastor e teu pai.

Apaguei minhas estrelas:
tua claridade delas faz garranchos.


2

Largo os olhos sobre esses pastos.

Meu cajado sob meus dedos secos;
as ovelhas cochicham sono sob o sol;
nenhum vinho alegra a sede que sinto
ao ver esse plano silêncio de vida.

Soletro teus passos a caminho de Saul,
meu filho, e nenhum dos milhares que fiz
canta um salmo de luz, mas de pó infecundo.

Teus passos a caminho de reino e ouro e glória.

Não sei que inquietude assombra hoje meus dias,
que não ouço bem o caminho do rebanho.
Tudo é pequeno e pouco e ermo e fosco e nulo
senão teu sangue onde agita-se o meu.


3

Cantam as palmas de Israel tua passagem,
e nada obsta teu destino, larga tiara de Deus:
nem lanças, nem reinos, nem luas, nem crimes.
Sob teu nome fulgura o poder que desencoraja a pieguice.

A flauta que acompanha meus dias
arrulha pastorais mesquinhas, filho,
e nada, senão minhas ovelhas, seguem
o vulto de minha humanidade pequena.

Fecho os olhos sobre os pastos empoeirados
e minha vida não consegue ser mais
que um eco pálido de tua luz no mundo.


4

Ishai, chamam-me; viril significa o nome.
Dauid, chamam-te; amado de Deus acende
o imensurável sentido de teu imenso nome.

Sou o homem que, dono dos grãos e da terra
que te trouxe, de minha estirpe raiou tua sina:
a de humilhar grandezas e dourar reinados.

Do nome do pai, o sêmen de teu início;
Do nome do pai, o cajado de teu começo;

Do nome do pai, a poeira para teu esplendor.

Dá ouvidos, Senhor, às minhas palavras
e acode, pelo salmo de meu filho, ao meu gemido.


5

Largados os olhos pelo horizonte,
cometo a tristeza de chorar meus limites.
E nada posso mover senão minha sombra
que sonha o vulto de meu filho abençoado.

As ovelhas querem o caminho de meu cajado
e meus olhos ardem de sede e sol e ausência.

Tu brilhas, filho, aumentando meu nome em ti,
e brilhas, esvaziando em ti minha presença.

A poeira dos teus passos me acolhe.


[Poemas do livro De Ulisses a Telêmacos e outras epístolas. 1998. Reprodução autorizada pelo autor.]


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Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)

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