Todos os poemas que de amor eu li Todos os poemas que de amor eu li debulhavam olhos, mãos e colos de meninas, estrelas, mulheres, nuv...

Poemas do livro inédito Poemas do desconcerto


Todos os poemas que de amor eu li


Todos os poemas que de amor eu li
debulhavam olhos, mãos e colos
de meninas, estrelas, mulheres, nuvens.

Nenhuma gota de sangue trincava a leitura.

Num acaso, um verso estilhaçou meus ouvidos:
um jovem colhendo trigo no segredo de um homem.

Os poemas viraram listas de febre.



Meu poema é um monge confuso,


Meu poema é um monge confuso,
preso por paredes que silenciam o sol
e censuram os cânticos das prímulas.

Os muros. As grades. Os portões.

A aldrava inquieta.

Um vasto país se espalha: extrajanelas.



Invoco-te, Francesco, e teus madrigais:


Invoco-te, Francesco, e teus madrigais:
amassar o ar como um Daniel e tirar leite de um tema
tão cheio de enredos de flores e seios.

Laura, Marília, Luísa, Sueli:
o que vossos lábios anunciam
para que minhas mãos
não se tornem dança para vossos rosas?



É estrangeiro o corpo de uma mulher.


É estrangeiro o corpo de uma mulher.

Nele, ao redor dele, perto dele, por ele
os sentidos se desnorteiam e vacilam;

nada se equilibra, nada se harmoniza.
Meus dedos se calam, meu abraço perde chão.

Há, entretanto, frescor de aragem
em sua pele de uva, de água amaciada,
que meus óculos beiram intocadamente.

Como será jorrar aurora nesse campo desconhecido?



Em mim fincaram joio e trigo raízes


Em mim fincaram joio e trigo raízes
e nunca pude separá-los nos outonos.

Quando em corpo desenhado veio o traço
da luz de Cristo: triste barba, olhos cacheados
de sol, pálidos lábios, ombros magros,

vi grãos de claridade num dourado de pintura.
Percebi estrelas em espigas de éter.

E como da beleza o trigo, o joio fez pétala
entre as espigas, e os moços de pouca década
entravam em meu desejo com traços de luz até para

brotarem em poemas sem um nada
de pregos, graal, páscoa, nada.

Os claros olhos tristes, os pálidos cachos
louros, a frágil magreza suave: os gratos
moços vivem em meus olhos pasmos,

misturados nos ventos que mexem nos cheiros
dos grãos de luz e da luz do joio.



Francisco entrou em minhas orações


Francisco entrou em minhas orações
como os antúrios inauguram outubros.
Cheio ele de pássaros nos olhos.

Ouvi os pássaros sobre o róseo
cheiro das flores de antúrio
entre paisagens de hóstias e altares.

O rosto claro de manhã macia
espreitava meus olhos com antúrio nos meses
em que cresciam meus dedos soltos.

Ele, moço de nuvem com oestes de éter,
mexia nas flores que roseavam outubros:
eu dedilhava seus pássaros com cantos de luz

sobre os telhados das tardes
cercadas de flores de um calendário rosa,
ouvindo orações
com
dedos
de
pássaros.

Tomada Primeira: os vidros

Adoro o brilho das pedras lilases
nos aros, nas placas,
nas tranças das tiaras faiscantes.

Adoro as faíscas de purpurina nos batons,
nos vestidos, nas echarpes,
nas calcinhas com detalhes de rubi.

Brilham, faíscam, reluzem, douram, iluminam.

Adoro as jóias que sopram esquecimento.



Réquiem em Sol Menor


Um canto de cigarra
devora o olhar de minha irmã
com olhos de oliveira
e novembro nas rugas da mão.

Um gemido de cisne
anuncia angelus de tristeza
e espalha flores carpideiras
pelos passos presos de minha irmã.

O silêncio da cigarra
escreve sons de pranto
sobre as folhas que no chão
esperam o afeto da terra.



Feito de maio, abril e junho a insinuarem oboés e aldeias alemãs.


Feito de maio, abril e junho a insinuarem oboés e aldeias alemãs, teu corpo fende o ar e revela e esconde a cor nômade de teus óculos, portões e de tuas frases trancadas.

Insistir em te ver: caminho que não conhece repouso.


Uma camada de pêssegos te clareia as manhãs.

Uma camada de pêssegos te clareia as manhãs. Comecei a ver-te, grave hora, da janela que sempre me hospeda: uma erupção de vermelhos farfalhou, gelando o nó de minha garganta. Teu rosto simples, tua barba comportada, as espáduas, as sardas, tuas mãos acanhadas, teus passos líquidos.

Espalhei-me pelos ventos e pelas folhas de agosto, procurando teus dedos firmes, sem que você soubesse sequer de minha sombra em brasa.



[Poemas do livro inédito Poemas do desconcerto. 1994. Reprodução autorizada pelo autor.]


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Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)

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