para serem rasgados à luz de lamparina Menino. Não te vais cair no rio! [Garcia Lorca] Intróito Talvez devesse polir o não...

Poemas do livro inédito Poemas ridículos: ele passeia em beleza


para serem rasgados à luz de lamparina

Menino.
Não te vais cair no rio!
[Garcia Lorca]

Intróito


Talvez devesse polir o não,
redesenhar o silêncio posto
e deixar submergir, outra vez,
o que veio para não amanhecer.

Talvez.



Primeiro Pedaço


Os riscos da chuva tomam os dedos,
e um ardor de névoa instala sobre sua ausência
qualquer coisa entre
pétala de poema
e cheiro de mãos abertas.



Segundo Pedaço


Insensato é abrir os ouvidos
para o rumor de seus botões
que trazem cercados
os textos de seu corpo.

Ouço, contudo, os arrulhos
de sua pele sob as camisas,
e canto, em quietude,
os figos que não colho
para o aceso céu da boca.



Terceiro Pedaço


Não lamento as largas cartas
que deixei murcharem,
nem o vinho que sequei
sobre os gestos que não acordamos.

(Aceito que nada é tecido
sem que a sorte escolha
agulhas, linhas, pontos
e riscos das mãos
para uma crônica inopinada)

Não tomamos licor
nem tivemos da boca
o hálito das permissões.

Acolhi sua falta de vontade
e deixei que minhas mãos
saíssem da beira de seu porto.



Quarto Pedaço



Os dias trazem o norte do sul
e a cor da sombra, em passos de gato.

Ao descanso de meu corpo,
oferta o repente um tremor:
sua camisa sob meus dedos.

Por um detalhe à tona
vêm suas digitais
que imagino sobre meus ombros,
desabotoados para suas marcas
de leão, de álcool, de senhor.



Quinto Pedaço



De nenhum namoro,
de nenhuma aliança
ouço vozes.

Escuto seus dedos
e sua barba, largados,
e minhas costas cedidas
para os passos de seu hálito.

Em recanto de alguma hora
sem nome, sem endereço;
em arquitetura evanescente,
onde meus óculos conheçam o chão
e minha camisa descanse
longe de meu corpo,
inteiro para seus domínios.



Sexto Pedaço


Deveria guardar o selo
que impede das palavras a clareza.

Mas como deixar de lado
o delicioso zunido da fenda
que se abre entre um segredo
e uma inviabilidade?

Se não posso conhecer
o risco de suas juras amorosas,
que me venham os traços
de sua passagem
sobre um breve espasmo
de sombra, de músculo, de agora.



Peroração


Talvez pudesse ignorar
o azul que norteia seus olhos
e matizá-los com castanho lençol;

talvez pudesse ignorar seus pés
com caminhos para longes.

Mas nestes poemas, senhor,
picadeiro de Sísifo,
zombo do horizonte
e furto de um mínimo
a ocasião de umedecer-me
com suas camisas fechadas.



as circunstâncias de sal e areia


Nomenclatura


Que nenhum som, nenhuma luz amanheça
sem que seu nome ancore
num sentido que anuncie
sua passagem pelas minhas clepsidras.

Um nome para tomá-lo em palavra,
antes que o poema tombe seus sons.


Étimo


Colônia do lago é a paisagem
que seu nome ressoa, latino e galês,
como uma pintura de Constable:
cheiros de junho sob nuvens, pássaros
em cada canto de uma estação propícia.

Eis o nome. Eis o lugar. Eis meu recorte.


Fora de lei


Ainda que não devesse, de modo algum,
mesmo não podendo, olhei sua voz.

Atravessei sua paixão por outro
e, sem chances, olhei seu cheiro.

Sob os castanheiros de Itaparica,
larguei meus olhos a suas mãos: deriva.


Adivinhação


Não sei de seu beijo nem de seu gosto.
Desconheço a textura de seu sonho.
Não imagino como sua noite dança.

Apesar de tantos nãos, olho seu hálito
e todos os meus músculos se retesam.

Rir com você transborda de vinho.


Não estacione


Sei de seus olhos que não me incluem;
de seus dedos que não me indicam.

Mas adivinho, Sagitário, seus pêlos
que tocam seu corpo como ventos
que preparam o frescor da vontade.

Ilícito, peço ao talvez que me dê de beber.


Alternativa


Sim, é o que digo à vontade de ficar
ao lado de seus gestos engenheiros.
Mas parto de você para um lago,
onde planto portas, nenúfares e vésperas.

Nomeado o desejo; colhido o sentido,
rumo em direção aos silêncios:

colônia das horas imprevisíveis.



um jeito para ouvir canção
Vi no meu caminho
Uma aglomeração
Procurei você
Nem sei por quê
[Antonio Cícero]
aviso


Abro estes deslocados poemas,
a despeito do que São Jorge,
Chico Buarque e Pound
disseram sobre versos.

(Danem-se essas folhas
que recusam o único nome
que acende o oriente
de cada um de meus olhos.)



curriculum vitae


De Touro, de Tigre, de água
de poço cercada por todos os muros;
de terra, de fogo, de ar, de água
de lua à margem dos caminhos;
de turmalina, de nácar, de água
de avencas em frestas baldias;

de pardal à beira dos fios
de tardes sem eira nem semente de romã,

sento-me ao poema,
e espero que você me veja
e pergunte por meu sim.



flor de cinza


Deixar um endereço na florista
para que ela entregue bilhetes
é tão tolo quanto cromático.

O clichê, com pólen de cinerárias,
ganha qualquer traço de ouro
ou de dia lavado de chuva

ou de nome que deixa a quietude
e mina de todas as pedras.



astrolábio


Vai alta a incerteza medo adentro.
Os atalhos e os certos caminhos
e as brechas de estrada
e a falta de trilha penteada
assombram os pés diante da hora
que escapou do relógio pontual.

Óculos sem olhos, farol sem centelha,
toda a nudez dos pontos cardeais
estremece, falto que estou
de sinal de seta de sentença de sentido

O que chamar meus dedos sabem,
mas os passos não decifram
e, estancadas, as ruas não acontecem.

A noite estala no céu da boca.



clepsidra


Heliotrópico, heliografia, heliocromia,
heliofilia, heliossonância, heliogravura,
helioscópio, heliometria, helionomia.

O rio arruma seus augúrios.

O tempo busca os empecilhos
e, mesmo à beira das águas,
temo e demoro e receio desligar os nós.

O rio arruma as palavras.

Hélio.


[Poemas do livro inédito Poemas ridículos: ele passeia em beleza. Reprodução autorizada pelo autor.]


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Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)

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