Alguns destes poemas, publicados originalmente em O despedaçado ao espelho (1988), sofreram algumas modificações para inclusão em O relógi...

Poemas do livro O despedaçado ao espelho

3/29/2001 , , 0 Comentários


Alguns destes poemas, publicados originalmente em O despedaçado ao espelho (1988), sofreram algumas modificações para inclusão em O relógio marítimo, obra ainda inédita. As versões aqui incluídas são justamente estas.



O DESPEDAÇADO AO ESPELHO


Até a alma ensangüentadamente desnudo,
Sem poder ver o mundo,
O despedaçado se olha ao espelho
e inveja o que nele é inteiro.

E, a um primeiro olhar, o espelho parece partido,
Mesmo estando inteiro,
Pois reflete os fragmentos de seu parceiro,
Mas a imagem refletida dentro de sua água
é um reflexo seco que nem toca o espelho
nem pela água especular é tocada.
Assim, é pela pura suavidade de alguém vê-lo partido,
Que a imagem incorpórea se parte
sem fazer tocar a matéria dura de sua partitura.

O espelho inteiro, vendo-se olhado,
Fita o homem por meio dos olhos de caco
que lhe dão a imagem do despedaçado:
O espelho vê tudo pelos olhos alheios,
Olhos que, apesar de quererem ver apenas a si mesmos,
Por curto tempo lhe foram doados e surpresos.

O espelho inteiro o olha,
Por meio do corpo esfacelado
que lhe foi emprestado,
E, em troca, empresta ao homem mais do que lhe foi dado:
Devolve-lhe a própria imagem do corpo despedaçado,
Rodeada da imagem do mundo ao lado.

Os cacos, sendo muitos,
São mil olhos fitando todo o mundo,
E cada olho crucifica-se e é crucificado
Pela imagem sem carne e pelo fado
do humano homem despedaçado.



ENCONTRO DA LETRA


Encontradas letra e palavra de que o poeta falara,
Escrevi-as em desejo num papel que adentrava
a linha como quem constrói uma casa rara
com paredes que geralmente são asas
e são asas que, abrindo-se em bálsamo e veneno,
De suas prateleiras embutidas em penas
derramam latas e mercadorias e o mundo que jaz
na impossibilidade de vermos mais ou menos
por fendas que, ampliadas, se convertem em ramagens
de ramagens de vermes minerais que fazem de um mundo pequeno
um mundo grande demais:

Eis a palavra criando a morada
de paredes que não estão paradas.
Eis a palavra trazendo a mudez
ante um resumo como jamais se fez.
Eis o traço da letra projetando-se em relevo
para encobrir os penetrantes indícios do desejo.
Eis a palavra que aprisiona
os que a defloram sob pesada lona.
Eis a palavra sendo relevante abrigo
e lona e hímen rompidos pelo amigo.
Eis um segundo nascendo de um minuto
E plasmando a vez de um breve mundo.



ESTÉTICA DA CARNE


I - O Tom Sóbrio

Louvo a mulher gorda de amplas espáduas
plantadas em origens desconhecidas
e de curvas atenuadas pelas ruas em dobras de gordura:
Louvo e louvo-a ainda mais por uma ser duas.

Louvo a esquelética penetrante e lavada
por relevos contrastantes com o misterioso sumiço de seios e coxas.

Essa mulher de humores visíveis que nada
em meu corpo como concha que se abre e se fecha e me dilacera
de maneiras horríveis e, no entanto, belas e sem ronchas.

As nádegas ausentes significam menos obstáculos
a cada vez que novas posições se apresentem no espetáculo;
A barriga proeminente, as rugas e os seios puxados pela gravidez
significam mais pastagens para outro prazer,
Sulcos que devem ser preenchidos por sentimentos, não por maquiagem,
Uma massa mais macia para um escultor hábil se entreter.

Pois são seus olhos imensos ou pequeninos que me atraem,
Sua originalidade em despertar atenções pelo avesso,
O descaso que acumula na feiúra tanta dependência
e tanto amor àquele que propõe um começo.

II - O Tom Ébrio

Os grandes ouvidos inteligentes
compensam que a prolixa boca quase ande;
Os pés imensos têm mais lugar para alojar sua maciez
(E caso haja calos, e um leitor descontente com sua áspera tez,
Saiba que, quando fritos, não há melhor regalo:
Donde se conclui que a mesma dureza tem seus vassalos).

Enfim, durmo em cada uma das ventas que a nariguda
enfia em minhas corcundas senhoras
de negros pêlos macios sobre o corpo musculoso e suado
que visto após meus exercícios de cio.

III -Conclusão

Sejamos, todos nós, belos e poéticos por natureza,
E, na sede do nosso tudo-fazer virar beleza e poesia,
Quando também as fezes teimarem em não sair
(a não ser sob a forma de poesia),
Saibamos que desta teimosia provém
uma prisão de ventre que nunca deixa que se esvazie
o cérebro dolorido por entre pêlos das nádegas
e o cabelo.



DEUSA


Teu corpo, querida, não está onde estás,
Pois os menores gestos de tua pele — nem teus — o transportam
para onde mulher não há.

Há, isto sim, um vulto embaraçado nos embaçados
de gestos míticos colocados sobre a cristaleira
de todas as pessoas que permanecem
no teu altar-mor: espelho de toda
a limpeza que brota das caldeiras
de madeira
que queimam enquanto aquecem
o sangue esquentado
pra mamadeira.

(Vem, ó sudorípara deusa
de hálito hiemal, eliminar distâncias
trazendo a comunhão do sangue
suado que beberei seco
até que seja só meu o sangue
quando ele for cálice só;
Quando só é minha a borra das mitificações esgotadas,
Quando só é meu tudo que pensas,
Quando só é meu todo o corpo teu
que tens como se fora teu:
Vem, que inscreverei com penes as palavras de teu corpo
no negro papel humano
que nada realça e tudo — mais do que foi escrito — guarda
dentro do ânus.)



TEMPO DE ARIDEZ


Estamos no tempo
em que o planeta Terra
a vida desterra
e desterra o sentimento:

Tempo em que, longe do sentimento,
Só cresce a aridez,
Só o zero é fermento,
Só o deserto tem vez
e rapidamente cresce do lento,
Só a secura procria
e espalha suas crias,
Sua semente colhida
da flor da agonia.
Camelôs vendem sacos de água em pó:
  — "Ô, freguês! basta adicionar água só!"
Mas estamos no tempo da aridez.

Por milênios, as estações se sucederam,
Mais insaciáveis a cada vez.

Cansado de ver renascer, nas primaveras,
As pessoas, a avidez, as plantas e as esperas,
O planeta finalmente a vida — viva! — enterra
e semeia aridez na terra.

Longe de todo sentimento,
O deserto aumenta seu tempo,
A aridez floresce, nasce o estéril
quando o terreno é fértil
e, para crescer a aridez, o fértil é o zero.

Estação invertida a multiplicar o zero,
Gentes exiladas dos limites de seus peitos,
Nenhuma esperança existe mais, nenhum jeito
até que venha este novo milagre que quero,

E o homem colha o deserto,
  a secura,
a aridez,
o estéril
e os reúna em um buquê
e, vendo que cresce o zéril,
Extraia do buquê o que cresce
e faça brotar vida do estéril.

E é somente uma a próxima nossa vez
de extrairmos água em pó da seca aridez.


Vitória, 1988-1999

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Oscar Gama Filho é psicólogo, poeta e crítico literário com diversas obras publicadas.(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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