PUS (Poemas selecionados) O VESGO VÍCIO DA FENOMENAL CAÇA galopando uma lambreta punk nacional a noite brusca passada a brasa e barr...

Poemas do livro Pus

3/30/2001 , , 0 Comentários


PUS
(Poemas selecionados)


O VESGO VÍCIO DA FENOMENAL CAÇA

galopando uma lambreta punk nacional
a noite brusca passada a brasa e barras
de vergalhão exposto
busco cricas e bofes ou vifes, nódoas de nada e neca
falas, rasuras de rasgos emotivos e mísseis amigáveis
rachas, bumbuns e rachaduras sensualíssimas
minha rixa com a noite
o galardão desta busca notívaga
até bater a estaca no nó no peito
resgatar a língua gata e ferina
um inflexível miado qual flecha certeira
farpa com veneno engatado
em um ponto do coração
dedilhar códigos de afeto na nuca
visitar o lado de dentro do blazer com um apalpo
e tocar o único seio amazônico
descer até o membro déspota
que ressurge das cinzas em pleno baile
a embriaguez propõe soluços de zinco
barulhos que acordam as mesas
a rua e os postes e os tontos em calçadas
me locomovo entre estalos
para os meus aposentos de vassalo vencido


A LAGARTA NO GUARDANAPO

a mesa está posta
eu sob o faqueiro de mais de mil peças
passo a fome a carvão
de tanto tentar adquirir o percebimento
com olhos de vaca no pasto
resta torcicolo e carne de pescoço
estouro de espuma com taças e tetas enxutas
colar de bolhas no gargalo
a mosca lavou as mãos
em lavabo blindado em tanque de garra
que ostentas o lábaro estrelado
com legumes grelhados e ostras gris
servidos em cinzeiros de platina
a casca de limão contraiu uma delas
aquela que insistiu fornicar na fornalha
o namorado de luneta em punho
entra pela janela aberta
o drácula este dragão fabuloso
engole seco dracmas
suas doces drágeas gregas
o crápula engole as moedas do baú
cospe parafusos entre goles de chá
belisca ricas roscas de sal
e sai com charme de onça inglesa
a toalha impecável sem pregas
sequer uma gota do meu sangue
então por que esse hálito de alho
e esta palidez dos lábios à testa?
eu sob as tigelas e pratos usufruídos
germe de cachecol a esconder o estrago da guilhotina
a gillette de barbear pomos-de-adão
abotoadeiras infeccionam o nó no peito e a gravata
mais de mil patas me levam ao nada
banho de querosene e fósforo resolvem este verde
esverdeado asco de metamorfose de vômito


A GENITÁLIA ADERENTE AO AVENTAL

fraque de cerimônia de cônjuges senis
sim fraco de noiva com glacê branco e rosa
o bolo entre facas e garfos de névoas de núpcias
a aliança de ouro derrete-se para brincos de aniversários
a certidão de óbito emoldurada na parede do muro
a cerca com farpas e arames no esôfago
formam os itens inúteis para o formulário
detalhe número um é o luto após o orgasmo
o número dois são as crianças sonolentas com o gás de fogão
o último é o tédio ao almoço dominical e galináceo
esposa e garçonete a preparar galetos
a mãe traçando os dias com rímel e cebola
alteza do assoalho ao bidê junto aos azulejos
impregnada de afazeres e deveres domesticados
dezessete canivetes na roda da saia e uma faca de pão


ARAME FARPADO

o volks me serviu de táxi
até o hotel dos deuses de seda
de soda cáustica em altar
a capela com cheiro de mofo e rasgo
verás cadáveres sujos de vinhos
em tábuas de acento nas tabernas
a profecia daquelas velas
milhões de volts formam a lareira profana
foliões da carnavalização neste mundéu
carnegão na hóstia e na uva moscatel
musselina em capas de chuvas e trovões
saques de vôlei saúdam o rito volátil
abracei os fios da rede
no dia de dezessete horas em urano


PERSIANA E PEDRAS

desfaleço frente aos 365 janelões
a palidez defronte às lascas de vidro
tudo quebradiço soltando luz
janelões que projetam luas & loas de sombras
o chafariz de sabão derrama aguarrás
um narciso com asas de santo
mira o céu acima do seu aro sacro
medo de olhar o líquido espelhado
sua foto revelada junto aos peixes
o jardim visto por todas as básculas
a casa cruza com a estrada
um par de leões inicia os degraus
anões circulam a estátua totem
as janelas dão dicas ao sol
que em falsete clareia o móvel
o imóvel piano de escanteio
o ancião locatário deste frio
muitos janelões me esperam largos ou de trancas
fico lívido até o susto me jantar
e lacrar a única porta
lacraia feito escória pedrês
para sempre a idade da pedra lascada


[In Pus, Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida-Ufes e Rio de Janeiro: Editora Anima, 1987.]


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Sérgio [Luiz] Blank é poeta natural de Vitória, ES, e nasceu em 1964. Publicou diversos livros de poesia, alguns reeditados recentemente. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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