O LOBO DA ESPÉCIE potentado ostentar estandarte nunca dantes adotado toda bandeira toda eu poderia e posso soletrar NO FUTURE no ou...

Poemas do livro A tabela periódica

3/30/2001 , , 0 Comentários


O LOBO DA ESPÉCIE


potentado
ostentar estandarte nunca dantes adotado
toda bandeira toda
eu poderia e posso
soletrar NO FUTURE
no ouvido sua orelha para brincos
a química não permite
a do amor
a das paixões
dos olhos seus tristes afetos
das pausas suas olheiras
lobos na voz alquimista que soa
poção definitiva nessa ciência
a química acridoce e suave lã
a fórmula dos nêutrons das esferas
feridas da caça sem laço
eu poderia e posso
subir ao penhasco de nossos íons e prótons
e lá deixar cair o arco e a flecha
o corno culpado aro corneta do cupido
não mas não e não & sim eu uivo e uivo
pontífice parco e pardo eminência e iminência
alheio ao aço nos olhos da alcateia



O KNOW-HOW DO KITSCH


os olhos que me restam
tatalam na masmorra em signo de ostra
o trampolim para o fim o in o sim
se um deus quiser ou não
eu não tenho não
não é de bom tom
isto não é bossa-nova e nada natural
o natural não amadureceu mas já apodrece
como as cáries sem colgate nos dentes
a natureza fica na bandeja de alumínio
gourmet vegetativo e suburbano de restaurantes
eu não tenho marketing nem merchandising
uni-duni-dê salamê mingüê
as crianças brincam de passar anel
pêra uva ou maçã?
não se vê a cor do fruto desse dia
ele não sobreviverá
mas quem há de?
aos olhos que tatalam



POR MINHA SINA


aos meus dias


(prefácio)

yin: — Chegue mais para o canto, você está com a perna sobre mim.
yang: — Só se você parar de puxar o cobertor para o seu lado.
yin: — Vou dormir na poltrona da sala.


(capítulo um e único)

é constrangedora a insônia
que me abate nas altas horas
a catalepsia sem covas nem mármores
a eutanásia que faço dos meus sonhos
é constante o contraste da noite
com o sono e os soníferos farmacêuticos
é constrangedora a insônia
aos meus travesseiros e lençóis
que ficam solitários me aguardando
como amantes platônicos
só a eles e a mais ninguém
posso somar vodkas vinhos ruas festas
pausas pragas brigas bares x y z
poço em que afundo as baixas horas
afogo o tempo lento e largo
não adiantaria nada e a nenhum
subtrair dividir multiplicar fugas
a tabuada só leva a um comum
a prova dos noves não é agora a alegria
e sim o sal que se seca no rosto
após o escorrer de lágrimas e ao sair do sol
a falta de açúcar e tempero
nesta vida inválida vigarista sem graça
um vazio no estômago e uma nau na garganta
o navio a nave o novelo de constrangimento e solicitude


(posfácio)

eros: — ...passe o bule de chá, por favor.
psiquê: — Quer mais um pouco de geleia?
eros: — Não, obrigado.

a pena ao lado do tinteiro em cima
de um móvel de cerejeira em verniz

a solidão esferográfica
aquela que a gente sente
frente a um verso
na hora em que o poema insiste e se impõe
a gente não... eu
se sente frente a um papel
se sente em qualquer sentido
em todo e algum trono
ou cadeira de balanço
na varanda ou no foyer
de um espetáculo enfim
qualquer um sim senhor
a solidão junto à tinta/à borracha/ao lápis
qualquer papel ou fibra ou pergaminho
pano também serve
a preencher esse céu o meu sem estrelas e de nuvens acinzentadas
há pena
caneta sem tampa e estojo
entre dois dedos
citando e a fitar um fato
a solidão esferográfica
redonda qual a terra vista em satélite
redondamente enganada



ARTIGO DEFINIDO MASCULINO SINGULAR


o coração metropolitano
catedral de vitrais quebradiços
e mosaicos de cacos assassinados
o amor cosmopolita
onde polaroid fica sendo grafite
metal ou gesso ou giz ou óleo
sente-se a falta de uma moldura
no atelier no vernissage na vitrine
diz-se assim então que é o menosprezo
acompanhado de um asterisco
amor em metrópole mas sem neon
no país de tic-tacs e fisgadas cardíacas
diz-se assim por conseguinte da paixão
onde estetoscópios avaliam os blues
as badaladas os tum-tum-tuns as canções aceleradas
em instantes de suspiros e baladas de amor
amor com coração metropolitano e cosmopolita
bairrista e saneado e asfaltado
conseqüentemente platônico e sem semáforo
no globo que gira indiferente às espécies


[Vitória: SPDC/Ufes, 1993.]


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Sérgio [Luiz] Blank é poeta natural de Vitória, ES, e nasceu em 1964. Publicou diversos livros de poesia, alguns reeditados recentemente. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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