DAS PÁGINAS DE SAL Sextina Senhor, não sou digno que o poema adentres. São folhas de outono e dor os meus olhos no anúncio de Tua ...

Poemas


DAS PÁGINAS DE SAL



Sextina


Senhor, não sou digno que o poema
adentres. São folhas de outono e dor
os meus olhos no anúncio de Tua luz.
O cárcere, a escuridão, a imagem
Gasta é tudo que me resta, o meu cântico
Tem apenas o pulsar do mistério.

O hálito da alcova, este mistério
forjado em janeiros, este poema
em fúria, tudo decompõe um cântico
em sombras e reticente uma dor
improvável. Posta na areia a imagem
gasta, a página vagará em luz.

É mesmo possível, Senhor, que a luz
seduza a noite e do pó o mistério
se levante e desfaça de Tua imagem
o susto. As sombras, o meu poema
desesperado fará luzir, dor
e retina ressoarão num cântico

primávero e de flor em flor o cântico
de Teus anjos encherá de boz luz,
forjada a vigília e contas, a dor
do cárcere. Clarefeito mistério,
Tua presença tornará o poema
um vale fértil, e feliz a imagem

Do meu rosto no Teu. Senhor, imagem
una seremos na derme do cântico.
Lavro nas cinzas do verbo o poema
possível, o verbo se fará luz,
retiro da inquietude algum mistério
e desfaço, verônica, esta dor

de existir. Tuas mãos na apócrifa dor
é bom fermento, ágata, é imagem
de cheiro suave. Desfeito o mistério,
os janeiros desintegram num cântico
as palavras vãs. Decomposto em luz,
recebe em fel, em ferro, meu poema.

Dilui no poema a sublime dor,
ausente da luz, a pálida imagem
galgará no cântico o seu mistério.



DAS PÁGINAS DE CINZA


Sonetos


I

No canto mais escuro da floresta
os deuses se assentam. Uma troca
cúmplice de olhares frios congrega
a vara: tem início a metagoge.

Até nós chegam as vozes gélidas
em sons destroçados, negros, ferozes:
nada entendemos, é tudo mistério
e dor. Ninguém nos terá a resposta.

Uns em desespero, outros em cinza
volatilizam, aqueles no peito
esmurram a culpa. Eu, pobre de mim,

tartamudeio: — Não, e, já afeito
à reticência dos pétreos porcins,
me estremeço canalha, rarefeito.

II

Levanta da terra um cheiro de fumo
— os homens agonizam casuísticos —,
eu me recolho ao poço mais profundo
da terra, só, fumarento, sísmico.

Louca se vai no vendaval, espuma
do tempo — baba de cães hemofílicos! —,
a imunda Nação, essa mui rotunda
herdeira do caos: não haja indigno

deus que justifique a nossa dor sóbria
nem imponha sobre nós paz de anjos,
essa paz resignada e hipócrita.

Minha dor não é senão uma branca
raiva, babenta, de quem, só, os próprios
nós espumeja, louco, sacripanta.

[Poemas publicados na revista Contexto, do Departamento de Línguas e Letras da Ufes, 1992.]

*****

SONETOS


I

A boca toma da noite uma sombra
lunar, desdenha de mim, boquiaberta
fúria. Ainda há pouco, em tarde zonza,
o lençol azul: braços, bocas, pernas,

o corpo feito de grutas, de montes,
de inesperados abismos. Janelas
misteriosas, os olhos de bronze
embalam os quereres e a quimera

usurpa-me a matemática dor
de existir. Junto na palma da mão,
em tom de dúvida, feixes de cor

e me desfaço, desmontado em branco
e preto. Dócil e saciado potro
ganho, na trégua, a errante manhã.

II

Dorme: enquanto eu me desfaço em fúria
os desvãos de mim tropeçam no éter
do setembro insone. Não é o cúmulo
que, entregue aos sonhos, este severo

vulcão assim a olhe, de faminta
retina? A manhã me espera em dó
menor — que as vísceras não desmintam
a loba. Não me refaço do pó

olhando daqui seus misteriosos
cálices: o vinho ganha a noção
do ácido. O cavalo em mim a postos

parte a trote noite adentro. São
as evoluções de vagas magnólias
a mais cruel certeza do porão.

III

O meu corpo é ausente do seu corpo,
meu amor: a noite apenas começa
e não é senão o anúncio da dor,
essa dor do furioso cio, etérea

dor. A noite não engana do amor
a fúria mal contornada, a eterna
angústia dos que debruçam famélicos
sobre o éter o desejo e o vapor

da nave que flutuou em azuis.
Da sorvência das horas vãs palavras
nada podem. É tudo furta-luz.

O amor prescinde de lavrar a pá
o perfeito verbo: tudo conclui
que o amor é um vento apaziguado.



[Poemas publicados na revista Você, da Universidade Federal do Espírito Santo. Para quem leu a retrospectiva do ano literário de 1993 (Você nº 19), já não é surpresa que Pedro J. Nunes, o autor da novela Vilarejo, também de vez em quando se mete a poeta: naquela matéria se elogiou muito a sextina que Pedro publicou na revista Contexto. Para mostrar que Pedro poeta não é monopólio da Contexto, estamos publicando três sonetos seus, com ricas imagens insólitas e uma surpresa na esquina de cada frase, e que provam que Pedro gosta mesmo é de formas fixas. Velhos? Brincadeira. Estes sonetos são das coisas mais pra frente que se têm visto ultimamente na poesia da província.]


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Pedro José Nunes, escritor, nasceu em Ibitirama, ES, em 1962. Nesse mesmo ano, sua família retornou a São José do Calçado, e lá ele residiu até os 19 anos, quando se mudou definitivamente para Vitória. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Criador e responsável pela manutenção do site Terlúlia, dedicado à literatura produzida no Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)

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