Traduzir um poema de uma língua para outra é ainda tarefa mais difícil (a linguagem do poema é tremendamente metafórica), que exige do trad...

Resenha de O barco ébrio


Traduzir um poema de uma língua para outra é ainda tarefa mais difícil (a linguagem do poema é tremendamente metafórica), que exige do tradutor uma co-autoria que não pode ser manifestada, uma co-autoria em que o co-autor, para agigantar-se, se autodestrói necessariamente, para deixar em toda a sua transparência a autoria primitiva e alheia, pagando o preço de apagar-se, num processo de identificação suicida e, ao mesmo tempo, revivificadora.

Esse foi, exatamente, o trabalho de Oscar Gama Filho em sua tradução do difícil, belo e eterno poema "Le bateau ivre", publicada este ano, recentemente, pela Fundação Ceciliano Abel de Almeida, com o título Eu conheci Rimbaud & Sete poemas para armar um possível Rimbaud: um trabalho de recriação de um texto na destruição do próprio co-autor enquanto tradutor, mas na sua ressurreição como autor-poeta. Um suicídio de Fênix que renasce das cinzas de plumagem nova, mas com a mesma essência do original recomposto. Se a tradução foi o auto-aniquilamento em benefício da Arte, os poemas finais, do próprio Oscar Gama Filho, são a sua ressurreição.

[...] A língua é forma e não substância — dizia Saussure, ou os seus discípulos o disseram por ele. Mas Oscar Gama Filho sobrepujou esse obstáculo sem teorizar: vivenciou intensamente o ofício e a arte de tradutor, num livro que pode ser considerado uma obra de consulta obrigatória para qualquer tradutor, uma lição de identificação do tradutor com o autor traduzido, uma simbiose que faz ciência ao aprofundar-se na ficção.

O processo é lento e gradual. Inicialmente, a afirmação: "Rimbaud sou soou eu" (p.11), e o emprego distinto da 1ª e 3ª pessoas ("De tanto ouvi-lo, já o ouço em mim", ib.). Depois a mistura que gera a simbiose: "Mas quem fui Rimbaud?" (ib.), e a identificação se completa na biografia que é uma confissão em 1ª pessoa. Desvenda-se assim ao leitor o segredo de uma psicografia sem mediunidade, num processo de fusão do tradutor no autor. Oscar não apenas se identifica com Rimbaud: estuda-lhe a alma, assume-lhe a identidade, com seus vícios, sua inteligência, seu espírito aventureiro, e sua genialidade. E só então, desarmado de sua própria personalidade, autodestruído para ceder lugar à voz de Rimbaud em língua portuguesa, é que ele passa ao fantástico poema "O barco bêbado".

A tradução é científica, mas, paradoxalmente, ficcional. Científica, na medida em que o tradutor procurou entender o poema desde as suas origens, fontes e polifonias, e mergulhar em profundidade na essência do autor; ficcional, na medida em que os recursos estilísticos do autor foram respeitados pela criatividade artística e pelo bilinguismo do tradutor. [...] O leitor terá a satisfação de descobrir (já que o poema está integralmente reproduzido em francês, no livro) não apenas uma genial e trabalhosa transposição de uma língua para outra, mas o segredo maravilhoso da própria arte da tradução.

Mas há ainda outro detalhe: se o tradutor Oscar Gama começa por anular-se ao identificar-se totalmente com Rimbaud; se continua a anular-se mergulhando fundo no poema, em sua gênese e meandros; se se autodestrói como autor-tradutor, ele consegue realizar a tarefa insólita de renascer na integridade de si mesmo, ao encerrar o livro com poemas de sua própria autoria, Rimbaud-renascido na plumagem de um Oscar Gama que nunca deixou de ser o próprio Oscar Gama, em momento algum, apesar de tudo: o ficcionista, o cientista, o autor, o tradutor, o poeta visionário e o homem de pés no chão. Embora partindo do trabalho de Augusto Meyer, publicado há 34 anos, Oscar Gama sobrepujou o mestre. Foi além. E convenceu!

Se a Fundação Ceciliano Abel de Almeida pudesse fazer uma distribuição dessa tradução, Oscar Gama, com seu trabalho, se tornaria um nome nacionalmente conhecido. E seu livro teria não só de figurar obrigatoriamente na bibliografia de qualquer ensaio sobre Rimbaud, mas também — e sobretudo — de constar como obra de consulta obrigatória para qualquer tradutor.


[In Um tradutor não Traidor. Minas Gerais, Belo Horizonte, 6/1/1990. Suplemento Literário, p. 1.]


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José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa.

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