você me vence enquanto escrevo   mão e caneta lhe formam em feudo no mesmo instante em que meus óculos preparam motins   noites em que você...

Trecho do romance Lhecídio: gravuras de sherazade na penúltima noite


você me vence enquanto escrevo   mão e caneta lhe formam em feudo no mesmo instante em que meus óculos preparam motins   noites em que você passa pela rua são minha eternidade mais duradoura   deveria não lhe ver   lacrar vidros que lhe traduzem   em vão no entanto todo cadeado seria porque em minhas lentes sua claridade alimenta sua presença de onírios gasosos

apago as luzes mas sobra uma que enche os lençóis onde tento sufocar minhas vontades de você nublado em indiferenças   porém pela manhã o que fica são os alvimortos peões aquosos que se esforçam em lhe desmanchar

a noite me retém   suspenso   até que a porta lhe retome


O cheiro de café se diluía sobre o gosto de biscoito; as casas arrumavam a tarde. Janelas abertas chamavam ventos pendurados nos galhos de abacates e castanhas. Uma lavadeira descia a rua com uma trouxa de cores. Num prédio, uma janela, perto de um castanheiro, segurava sombras que as folhas dispersavam. O vento maduro mexeu na folha de papel com rabiscos de um veneno: ele crescia entre vírgulas.

Muito folheio você nos meus períodos, vendo-o em soltura tanta, simples. Tornear de lábios sua nuca de maciez. De você roubar os roubos de me olhar em segredo; de deixar nos olhos nublados uma gravura no meu de seu querer; canoar seus sentidos e descobrir o sexto depois do nono. Num galho novo de uma jabuticabeira, um casulo poucamente se desabotoa. A luz incide sobre um maço de cigarro amassado umas fagulhas de tarde acesa.

A abertura da janela filtrava incensos de calor. Sobre um papel a tinta azul cromava pensares. No copo de vodka, três faíscas queimavam o vidro de sol. Girar em seus carroceis com músicas tímidas; rolar sobre seus decalques. Toque minhas viagens espalhadas pelos cantos e sótãos de mim. Desfira uma sonata ou um blues, derramando-me em você, minuto a minuto. O quarto meio-escurado; um destempo passava sem empoeirar os pensamentos. Um pedaço de cor em quase mosaico desintimidava-se da cinza do casulo.

As horas lentipassavam sob os ponteiros. Flamboyant chovia laranjas. Boccherini girava quintetos sobre o disco. Caligrafe-me em páginas as suas de contos autranianos. Minhas ruas com seu silêncio, calce-as, bebendo meus recalques tolos; e, desligando minhas roupas, desleixe minhas cercanias. Tonturas transpiro quando sobre suas esteiras. Tire as luzes de minhas pontuações, rasgando minhas gramáticas e, meus verbos conservadiços, desbravando-os, bandeirantemente. Alaranjava o minuto as telhas do relógio da igreja. Uma jabuticaba cai e roxeia, com outras, o chão.

O casulo oco ficava, aos poucos, sob as asas nada longe de iludir os ares em voo. O papel faltando pouco para ficar azulejo. Tome minha libidivenosa catedral, antes que meus labirintos o devorem; permita que meus passos atravessem suas fronteiras de nácar, assim, farei da lua uma calidoscópica luzia, e darei a seus caprichos o mimo dos incêndios miúdos; mas ancore-me num de seus solos e leve minha pele tatuada à sua sombra pálida, perto de minha tanta vontade. As asas colorindo perfumes de ida de tarde murmuravam pequenos vôos em movimentos vagarosos. Atrás das casas e copas de verdes, os vermelhos-laranja zuniam.

Pela janela, as asas riscaram o quarto, tocando-se borboleta sobre o espelho. Revoou pelo rosto de Gismonti, passando sobre quadros, santas de Manoel Dantas e um relógio parado de parede. Abriu as asas perto do desenho de um escorpião com o aguilhão inchado de letalias azuis.

A morte crescia: noite no medo de Sherazade.


[Trecho do romance Lhecídio: gravuras de sherazade na penúltima noite. 1989. Reprodução autorizada pelo autor.]


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Paulo Roberto Sodré, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui.)

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