No começo de outubro de 1977 o saudoso padre Antônio Lute me levou a São Pedro, naquele tempo uma invasão recente num manguezal à margem d...

Introdução



No começo de outubro de 1977 o saudoso padre Antônio Lute me levou a São Pedro, naquele tempo uma invasão recente num manguezal à margem da atual Rodovia Serafim Derenzi, que se chamava ainda Estrada do Contorno, uma estrada estreita, recentemente asfaltada, ainda que provisoriamente, pelo prefeito anterior, Crisógono Cruz.

Fiquei intrigado pelo que vi e tirei bastante slides, repetindo a dose nos anos 1979, 1980 e 1982, sempre registrando as novidades e os mesmos lugares dos anos anteriores.

Decidi fazer uma pesquisa de campo em 1984, acumulando ainda mais slides. Sobre São Pedro publiquei quatro artigos, um dos quais com Ana Maria Doimo.* Também usei dados sobre São Pedro em outros artigos.

Voltei ainda uma vez em 1986 e finalmente, em 1988, considerei ‘minha missão’ cumprida. Já então, por um lado, constatava que São Pedro era agora um bairro popular como tantos mais, e por outro, sentia-me desconfortável ao observar bocas de fumo em ruas onde eu sempre andara despreocupado antes…

Fiquei assim com centenas de slides e agora, depois de ter feito uma seleção, digitalizei e organizei 180 deles, mostrando o desenvolvimento impressionante do bairro, desde a lama do mangue até  o bairro São Pedro I tornar-se um bairro urbanizado com ruas de bloquetes e casas de alvenaria. Ao mesmo tempo surgiam São Pedro II, III, IV (perdi a conta), Nova Jerusalém, a grande maioria sobre aterros sanitários do lixão municipal. Registrei um pouco de tudo isso.

O primeiro slide é de Brasília em 1970, o segundo de São Pedro em 1977, confrontando o planejamento oficial com o planejamento popular: a impressão que se tem de São Pedro é de improvisação, até de uma certa anarquia, mas realmente os barracos estão numa rua planejada ao longo da lama do mangue. Assim grande parte do meio urbano brasileiro se baseia num planejamento talvez nem sempre rigorosamente calculado sobre a prancha do arquiteto, mas certamente destinado a construir o ‘nosso pedaço’, um espaço digno para morar.

Depois seguem-se alguns slides de Vitória e da Serafim Derenzi mais na direção de Santo Antônio, para depois mostrarem-se alguns aspectos de São Pedro nos primeiros anos. Podemos ver  o bairro da Comdusa, demarcações de lotes, mudanças bem rápidas em poucos anos no mesmo lugar etc.

Seguem-se os serviços públicos: energia, transporte público, escola, creche, polícia.

Depois uma série de slides mostra a presença da política (placas comemorativas etc.) e nomes de rua: Rua 4 de Setembro, Rua do Grito, Rua da Esperança etc., nomes ligados à luta dos moradores, liderada pelo Movimento Comunitário de São Pedro (fotos do lote reservado para o Movimento, ainda com nome de associação de moradores, do coreto e barracão do Movimento etc.)

Fotos de 1982 mostram o impacto enorme do programa federal, o Promorar (Programa de Erradicação da Sub-habitação), que transformou São Pedro I  num bairro com boa infraestrutura.

O resultado é, entre outros, a entrada da classe média (emergente) e a presença frequente da placa ‘vende-se barraco/casa’, em parte de moradores que invadiram outro lote em São Pedro II, III em diante. Aí, grande parte dos aterros foi feita sobre a lixão municipal. Há fotos do lixão, do comércio de ‘reciclagem’ e do armazém da Associação dos Catadores de Lixo.

Depois seguem-se séries sobre comércio e religião.

No final há fotos de outras ocupações do mangue e uma série sobre a construção de uma casa de vigia para a obra da capela de São José, realizada pelo Movimento Comunitário, bem como fotos  da Rodovia Serafim Derenzi e algumas fotos avulsas.

*Ver os capítulos VIII, IX e X da segunda edição do meu livro Dilemas e Símbolos. Estudos sobre a cultura política do Espírito Santo (Vitória: EDUFES, 2011). O mais indicado para se ter uma ideia do que aconteceu naquele tempo é sem dúvida o capítulo VIII.

Esses capítulos foram publicados em inglês como:

1986 Poverty, Politics and the Shaping of Urban Space: a Brazilian Example. International Journal of Urban and Regional Research 10(4):541-562.

1990 Cultural Dilemmas behind Strategy: Brazilian Neighbourhood Movements and Catholic Discourse. European Journal of Development Research 2(1):65-88.

1993 Signifying Urban Space: Vitória, Brazil. Cultural and Political Discourses behind Urban Imagery. In: Peter Nas (ed.): Urban Symbolism. Leiden/New York: Brill. pp. 104-115.

Com Ana Maria Doimo:

1989 Entre a Utopia e a Estratégia. Um Estudo de Caso de um Movimento Social Urbano. Vitória: IHGES/Cultural-ES. 51 pp.

1989 em Inglês: Between Utopia and Strategy. A Case Study of a Brazilian Urban Social Movement. In: Frans Schuurman and Ton van Naerssen (eds): Urban Social Movements in the Third World. London: Routledge. pp. 125-150.

[Reprodução autorizada pelo autor.]

---------
© 2001 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
---------

Geert Banck é antropólogo holandês, professor na Universidade de Utrecht e pesquisador do Centro de Estudos e Documentação Latino-americanos (Cedla), de Amsterdam. Desde 1970-1 vem desenvolvendo diversas pesquisas no Brasil, em especial no Espírito Santo, resultando daí diversas publicações. (Para obter mais informações sobre o autor clique aqui)

Estação Capixaba

Estação Capixaba é o site voltado para a cultura, história e geografia do Espírito Santo e que busca resgatar, produzir, sistematizar, preservar e divulgar informações nessas áreas, sejam elas de autores locais ou não.

0 comentários :