O passamento de Ribeiro Couto, em Paris, três anos atrás, avivou-me a lembrança de outro poeta, da mesma escola penumbrista, o nosso Newton...

Newton Braga e Ribeiro Couto


O passamento de Ribeiro Couto, em Paris, três anos atrás, avivou-me a lembrança de outro poeta, da mesma escola penumbrista, o nosso Newton Braga.

Sei que eles foram amigos de muito tempo. Quando Ribeiro Couto estreava no romance, em fins de 1931, já as suas poesias de Jardim das Conferências e os seus contos de O Crime do Estudante Batista haviam conquistado a admiração do poeta e jornalista de Cachoeiro que, não refreando o entusiasmo, escrevia, em outubro daquele ano, na revista Vida Capichaba: "...Quero falar, hoje, de uma alegria, uma alegria pura, sã, perfeita, dessas alegrias que enchem de sol um dia de chuva e dão um ar de carnaval à sexta-feira santa: Recebi uma carta de Ribeiro Couto, uma carta muito íntima, muito amiga, muito sincera." E, adiante: "...Ele me escreve de Paris: 'O alto conceito em que você me tem não podia ser mais lisonjeiro para mim, vindo de um homem novo, de vinte anos; e um homem do Espírito Santo, a mais brasileira das regiões do nosso país, porque é ponto de encontro do espírito de ação do sul e do sentimento poético do norte. A terra completa por excelência, aquela que marcou profundamente o meu Sistema de Confiança no Brasil'."

Palavras de tanto elogio e exortação exacerbariam o bairrismo do provinciano que assim intitulou a sua crônica: "Cabotinismo".

E prossegue a transcrição da missiva: "Quando recebi a sua carta, tinha trazido de Marselha um romance escrito em outubro de 1930. Chamava-se Cabocla e é, em duas palavras, o elogio do mato nacional. Por instinto, coloquei a ação no Espírito Santo. O lugarejo de roça em que se passa o livro é um lugarejo qualquer do Centro, Minas, São Paulo, Estado do Rio ou Espírito Santo. No entanto, escolhi o Espírito Santo sem nunca ter morado aí. Apenas por ter passado uma curta temporada. E eu vinha de morar seis anos em São Paulo, Estado do Rio e Minas. Não é também um fenômeno de afinidade?"

A notícia era demais alvissareira para todo capixaba, já bastante vangloriado com a escolha que o acadêmico maranhense Graça Aranha fizera, do cenário espírito-santense de Santa Teresa, para o seu romance Canaã.

Releio a quinta edição de Cabocla e através das notas que Ribeiro Couto deixou, explicativas para as edições anteriores, destaco alguns trechos. No verão de 1937, escrevera ele, de Haia: "Cabocla foi um desabafo da saudade e, talvez, da angústia." E, ainda: "...Da invenção do romance nasceram equívocos. Por exemplo, seria um episódio pessoal? O perigo de escrever histórias! Sempre é tempo para dizer que não tive outro intuito senão o de contar uns estados de alma que experimentei no contato quotidiano da vida do interior, entre 1922 e 1928. Não fiz o retrato de ninguém; não transpus nenhuma 'real realidade' para o plano da ficção. Desde os anos de adolescência que eu trazia dentro de mim, reflexo das primeiras viagens pela serra acima, essa 'moça da estaçãozinha pobre'."

Fora a saudade — procura deixar bem claro — das formas, cores e cheiro do sertão brasileiro, a fonte de inspiração do livro.

Nossa curiosidade perdura, em identificar a "Vila da Mata, no Estado do Espírito Santo (uma rua muito comprida, com casas baixas, um largo no meio com sobrados e uma igreja)", bem como a fazenda do Córrego Fundo, na estação do Pau d'Alho, próximos de Vitória, onde Jerônimo, principal personagem do romance, fez a sua estada de cura dos pulmões avariados, e se deixou prisioneiro de Cupido...

A carta de Ribeiro Couto que tantas alegrias causara ao poeta cachoeirense terminava com evocações, com pequenas lembranças caleidoscópicas: Petrópolis; São Bento do Sapucaí; Pouso Alto; Santos; a "estaçãozinha de Guiomar, na serra, a caminho de Vitória". Foi pena que o missivista não deixasse identificado o lugar do cenário que escolheu, em nosso Estado, para o seu romance. Em plagas longínquas, o poeta curtia saudades amargas: "Acho muito importante o fator petite patrie. A terra, sem dúvida, marca a nossa alma. Não me incomodo com o Amazonas, mas me comovo à simples evocação de Minas (Pouso Alto) ou de São Paulo (São Bento do Sapucaí) ou Espírito Santo (Cachoeiro do Itapiiiiiiiiimiiiirim — era assim que uma moça do Espírito Santo pronunciava, prolongando aqueles ii como se, adoravelmente, perdesse o fôlego)."

Quão compreensível e justa a alegria provinciana do cachoeirense. Ainda mais que o poeta e missivista estava sendo sincero, pois disso deu provas, ao incluir no seu livro Um homem na multidão a poesia "Cachoeiro de Itapemirim":

Cachoeiro! passei por ti uma tarde
e nos meus olhos ficou o teu rio cortado de pontes,
as tuas casas velhas amontoadas pelas colinas
e os arrabaldes a perderem-se pelo verde dos campos.

Nos meus olhos ficou também a tua estação
onde moças risonhas conversavam com viajantes
no meio de bagagens
aproveitando sonhadoramente a parada breve do trem.

Ó doce, ó ingênua Cachoeiro de Itapemirim
que perturbas, com o rumor dos teus bailes casadoiros,
a paz dos campos e o murmúrio das águas...


A afinidade nos sentimentos que entrelaçou a amizade dos dois poetas, igualmente sutis, haveria de acompanhá-los para sempre.

Em Newton Braga também perdurou, indelével, a marca da terra. Nem a premência, quase ao fim da vida, que o fez mudar a residência para o Rio de Janeiro, empanaria a fascinação da sua Cachoeiro. Os Casos e Epigramas com que frequentou o suplemento literário do Diário de Notícias, granjeando a consagração de fino cronista, plenos de autenticidade, eram instantâneos do seu "pequeno mundo". Lembro-me do ar encabulado, pouco convincente, com que ele procurava despistar, quando se lhe perguntava, em conversa, se um determinado "caso" não teria ocorrido com fulano, ou se algum epigrama, por vezes de fina mordacidade crítica, não se poderia atribuir a determinada pessoas com quem ele convivera. As suas filigranas escolhidas, por fim, com exagerada parcimônia, para comporem um livro, representam verdadeiros flagrantes de qualquer parte de nosso país, bem expressos e definidos no título: Cidade do Interior.


[In Crônicas de Cachoeiro. Rio de Janeiro: Gelsa, 1966. Reprodução autorizada pela família.]


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Levy Rocha nasceu em 14 de merco de 1916, em São Felipe, então distrito de São João do Muqui. Graduado em Farmácia, residiu em Cachoeiro de Itapemirim e no Rio de Janeiro, interessando pela história de seu Estado natal. Publicou vários livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Estação Capixaba

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