Havia um volume encadernado na Biblioteca Nacional, coleção incompleta, do primeiro jornal impresso em Cachoeiro de Itapemirim e também no ...

O primeiro jornal de Cachoeiro


Havia um volume encadernado na Biblioteca Nacional, coleção incompleta, do primeiro jornal impresso em Cachoeiro de Itapemirim e também no interior da província capixaba: O Itabira. Lamentavelmente, esse jornal não é mais achado naquela Biblioteca, e ninguém pode informar seu destino.

O volume que as traças haviam começado a destruir reunia 24 números, inclusive o precioso primeiro, editado em 4 de julho de 1866, por João Paulo Ferreira Rios, e não três dias antes, como registraram alguns dos nossos historiadores. Creio que o engano foi causado pela data do artigo de fundo, o qual destaca: "Cachoeiras, 1o. de julho de 1866". Todavia, o frontispício do jornal não deixa dúvidas.

Antes de outros preâmbulos, merece que se lembre quem foi esse editor, mineiro emigrado aos 17 anos para Cachoeiro, onde exerceu, com inteligência, diferentes profissões: seleiro, comerciante, advogado provisionado e se realçou na oratória, lutando na campanha da Abolição da Escravatura.

O jornal era redatoriado por Basílio Carvalho Daemon, classificado como o primeiro jornalista de Cachoeiro. Ele ocupou toda a metade da página de rosto da folha, iniciando a publicação do seu romance Arcanos, onze anos depois reunido em livro, em Vitória, nas oficinas d'O Espírito-Santense.

"Literário, agrícola, comercial e noticioso": três colunas, em formato modesto e quatro páginas, do tamanho de um palmo de largura por palmo e meio de altura. Circulou, a princípio, aos sábados e, depois, aos domingos.

O dito primeiro número apresentava matéria de recreação e interesse. Pela sua leitura, fiquei sabendo que o Dr. Manoel Batista Fluminense, tendo sido nomeado médico da Colônia do Rio Novo, agradecia aos habitantes das Cachoeiras a amizade e atenções e renunciava à presidência da S. P. Ensaios Dramáticos, agremiação que realizara sua 5a. récita no dia 23 de junho p. p., levando à cena o drama de grande aparato, em 5 atos: "A Cruz" e a comédia em 1 ato: "Os Primeiros Amores", sendo a orquestra regida por Antônio Quintão. Outras sociais: o 3o. baile, no dia de São João, promovido pela Sociedade Minerva, e o casamento da filha de Camilo José da Silva Reis, na fazenda Pedra Branca. Na 4a. página, o anúncio que a tipografia (pertencera ao jornal Monarquista, Vitória, 1863) estava aparelhada para obras. E outro: a venda de uma canoa de peroba, com algum uso, bem calafetada, por quarenta mil réis. Mais outro: novos sortimentos de fazenda das lojas; chitas francesas e inglesas, algodão americano e de Santa Catarina, baeta, morim, durandina, brins mineiros para calças, riscados, etc., em jardas e côvados.

A Freguesia de S. Pedro do Cachoeiro, já promovida a Vila, esforçava-se para a criação dos foros civil, criminal e policial, ao que se depreende desta notícia, que transcrevo pela sua importância:

"Tendo a Assembléia Provincial, por decreto nº. 474 do ano de 1864 elevado esta Freguesia à categoria de Vila, principiando a gozar deste privilégio depois de haver casa da câmara e cadeia, construídas a expensas de seus habitantes, resolveram alguns deles nomearem uma comissão que ficou composta dos seguintes Srs.: major Misael Ferreira Rios; capitão Francisco Herculano Monteiro Nogueira da Gama; o fazendeiro Antônio Francisco Moreira; tenente Luiz Bernardino Costa e alferes Diogo Carlos Tertuliano de Vasconcelos, para agenciarem as assinaturas em uma subscrição que promoverão para a compra de um prédio que oferecesse necessárias proporções; a comissão compreendendo bem a honrosa tarefa de que foi encarregada, envidou todos os esforços a seu alcance e conseguiu obter a quantia suficiente para a compra do prédio pertencente a Gabriel Ferreira Pena, pela quantia de (?) — a traça comeu a importância — e fazer-se nela as convenientes obras, as quais estão quase concluídas e breve esperamos que tenha lugar a instalação desta importante Vila."

Efetivamente, a 25 de março do ano seguinte (1867), foi instalada a primeira Câmara Municipal de Cachoeiro de Itapemirim, em prédio situado ao lado norte. O terreno fazia divisa com a propriedade de Joaquim Jorge da Silva Quintais e face para a rua Senhor dos Passos. Em 1881, esse prédio se encontrava em ruínas e, antes que desabasse, foi demolido e os seus materiais vendidos em hasta pública, por quinhentos e sete mil, novecentos e sessenta réis. Em outubro de 1885, Antônio Bernardino Pereira Rios se apossou do terreno vago, nele erguendo uma casa.

O hebdomadário O Itabira, quando apareceu, tinha pretensões de pugnar pelas idéias do liberalismo e progresso e fugir dos artigos anônimos, das críticas às vidas privadas, da política e de vinganças. Mas, pugnando pelo Partido Conservador, tornou-se virulento, sendo obrigado a suspender a circulação. Manteve vivas polêmicas e debates com a Sentinela do Sul, primeiro jornal lançado na Vila de Itapemirim, em 24 de agosto de 1867.

Numa tentativa de reviver O Itabira, Basílio Daemon, acumulando as funções de redator e proprietário, procurou ressuscitá-lo, com outro nome, em 1868. Assim, lançou, a 5 de abril daquele ano, o Estandarte. Não o manteve por muito tempo, pois resolveu transferir-se para Vitória, onde se destacou nas lides jornalísticas.


[In Crônicas de Cachoeiro. Rio de Janeiro: Gelsa, 1966. Reprodução autorizada pela família.]


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Levy Rocha nasceu em 14 de merco de 1916, em São Felipe, então distrito de São João do Muqui. Graduado em Farmácia, residiu em Cachoeiro de Itapemirim e no Rio de Janeiro, interessando pela história de seu Estado natal. Publicou vários livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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