A 4 de setembro de 1886, na Freguesia de São Pedro do Cachoeiro, nascia Virgílio Rodrigues da Costa Vidigal. Em Vitória, para onde foram de...

Virgílio Vidigal


A 4 de setembro de 1886, na Freguesia de São Pedro do Cachoeiro, nascia Virgílio Rodrigues da Costa Vidigal. Em Vitória, para onde foram de mudança os seus pais, ele frequentou a escola primária e deixou, pela metade, o curso secundário, no Ateneu Provincial, sentindo-se, ao mesmo tempo que enfeitiçado das musas, um prisioneiro de Cupido. Casou-se antes dos vinte anos, com a filha do Padre Antunes de Sequeira, outro poeta e enaltecedor das letras capixabas. No Espírito Santo, exerceu o magistério primário, foi solicitador e pequeno industrial, até 1895. Nos anos seguintes, percorreu alguns Estados do Norte. De 1900 a 1904, colaborou na imprensa carioca, em vários jornais e revistas literárias.

As dificuldades financeiras, que haviam de acompanhar o poeta, deixaram marcantes reflexos em sua inspiração, mais acentuados nos poemetos: "Adamastor" e "Ontem e Hoje" e nos soneto "Revolução", "Resignação" e "Realismo", sendo que, no último, há quase uma verdadeira profissão de fé:

É ridículo, não é?, viver rimando,
Quem não tem cobre e sim mulher e filhos?
Quem pretende escrever uns dois idílios
E vê que a vela vai já se acabando?

Muitas vezes me ponho figurando,
Que sou rico e sou livre d'empecilhos;
Imagino um namoro — e os belos cílios
Da minha loira amante canto, quando

Diz-me a filha: — Papai eu quelo pão!
Acrescenta a mulher: — Deixe o versinho
Falta carne, farinha, alho e feijão.

E eis que ia dizendo: — é como arminho
O teu rosto, divina... Em confusão,
Concluo: Arroz, manteiga, alho e toucinho.


Em 1886, Virgílio Vidigal imprimiu, na tipografia d'A Província do Espírito Santo, o seu livro de estréia: Cantos e Prantos, pequeno opúsculo de 76 páginas que recebeu animadora acolhida. Afonso Cláudio foi um dos que louvaram o lançamento, tendo escrito nas colunas do citado jornal uma crítica que posteriormente inseriu em sua História da Literatura Espírito-Santense.

Um jornal: O Pimpão (ano II – nº. 39 – 19 de outubro de 1889), em apreciação sobre o vate cachoeirense, estampava: "...Virgílio é um dos poetas que mais amou a Arte e a Forma. Empobrece, muita vez, o assunto para enriquecer a rima; para elevar a forma." E, mais à frente: "...Não é doado destes momentos entusiásticos tão comuns em Castro Alves, mas possui esse dom natural que se torna o contraste das lindas produções de Abreu. O autor dos Cantos e Prantos não é somente o poeta sentimentalista, é também um espirituoso psicologista social, como se pode ver em seu poemeto: "Adamastor". É justamente ali que melhor se pode analisar sua dor íntima, seu ódio pelo dinheiro, asco pelo poder. Aquele poemeto é seu brado colérico, sua blasfêmia contra uma sociedade velha e corrupta de dezoito séculos, é injúria com a qual tenta levar o rubor às faces cínicas dos lendários opressores." A apreciação continua, noutros trechos: "...A 'Agonia', sua melhor poesia, seu verdadeiro lavor, é a filha ingênita desse sentimento natural que deu o mais terno poeta de nosso século: Lamartine. 'Saudades', 'Desengano' e 'Vem!...', são o fruto de seus dissabores e alegrias amorosas."

Por um acaso feliz, comprei um exemplar de Cantos e Prantos com a marca dum carimbo da "Farmácia de Bernardo Horta de Araújo" na página frontal. Acredito que o livro tenha pertencido a Bernardo Horta, beletrista que se tornou o maior vulto de Cachoeiro.

Nesse volume, está inserta a poesia: "Ressurreição de Lázaro", de valor antológico, que pode resistir a qualquer cotejo com as de nome idêntico da lavra dos poetas Fagundes ou F. L. Bittencourt Sampaio.

Outro confronto que não deslustraria o nosso poeta poderia ser feito com o "Canto da Mulata", tema do qual Trajano Galvão escreveu, em 1853, "A Crioula" e que Melo Moraes Filho também glosou nos versos intitulados: "A Mulata", publicados no Eco Americano, em 16 de outubro de 1871 e incluídos no livro Cantos do Equador. Como é um pouco longa, essa poesia, "que o povo recita e adora como criação sua", conforme testemunhou, na época, o crítico d'O Pimpão, transcrevo alguns versos:

Inda ontem à tardinha, o ioiô,
Na saleta me disse: – vem cá!...
Dá-me um beijo, mulata querida!...
Mas... não contes a tua iaiá...

E eu sorrindo, ele veio ligeiro
Um beijinho no rosto me dar,
E depois... oh! me disse umas coisas...
Mas... não posso, não devo contar.

A 17 de setembro de 1887, o jornal O Espírito-Santense publicava a seguinte notícia: "Flores do Ermo – É um livro de versos do autor dos Cantos e Prantos, Virgílio Vidigal, com uma introdução de Ataíde Júnior, que brevemente sairá à luz. Está ele dividido em três partes: 1a – Borboletas (descrições); 2a. – Irídeas (sátiras); 3a. – Saudades (versos amorosos e sentimentais). Cada volume, nitidamente impresso com uma fotografia do autor, custa 2$000 [dois mil réis]." No dito jornal, era anunciado outro livro: "Helena ou a Vítima da Aristocracia – Fragmentos em forma de romance, em prosa e verso, pelo mesmo [Virgílio Vidigal], sendo o custo de cada volume: 1$000 [um mil réis]."

Em nenhuma publicação: jornal, livro ou revista, encontrei qualquer outra alusão aos dois livros anunciados, cujas assinaturas podiam ser feitas nas tipografias dos três jornais que se editavam em Vitória: O Espírito-Santense; A Província e Folha da Vitória.

O segundo livro conhecido de Virgílio Vidigal, ele o lançou, em 1891: Irídeas. Afonso Cláudio teve ocasião de emitir sua crítica, reproduzida na História da Literatura Espírito-Santense. Celso Bomfim diz que manuseou um exemplar, donde copiou "A Cruz", produção que também resiste a um paralelo com a de Gonçalves Dias, feita com versos medidos para darem o formato tipográfico do madeiro santo.

Em 1907, Virgílio Vidigal achava-se no Amazonas, onde colaborou na imprensa de Manaus e foi colhido pela morte, a 26 de dezembro daquele ano.


[In Crônicas de Cachoeiro. Rio de Janeiro: Gelsa, 1966. Reprodução autorizada pela família.]


---------
© 2004 Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia autorização expressa dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.
---------

Levy Rocha nasceu em 14 de merco de 1916, em São Felipe, então distrito de São João do Muqui. Graduado em Farmácia, residiu em Cachoeiro de Itapemirim e no Rio de Janeiro, interessando pela história de seu Estado natal. Publicou vários livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Estação Capixaba

Estação Capixaba é o site voltado para a cultura, história e geografia do Espírito Santo e que busca resgatar, produzir, sistematizar, preservar e divulgar informações nessas áreas, sejam elas de autores locais ou não.

0 comentários :