Chamava-se Parque Tênis Club. Seu quadro social era formado por um grupo de associados, predominantemente profissionais liberais e comer...

O Parque Tênis do Parque Moscoso

Foto Guilherme Santos Neves.


Chamava-se Parque Tênis Club. Seu quadro social era formado por um grupo de associados, predominantemente profissionais liberais e comerciantes de Vitória que nele iam jogar tênis nos fins de semana ou à noite, neste caso sob a luz dos refletores e, em geral quando havia torneios entre os sócios organizados em duplas ou não, ou quando competiam com os tenistas do Praia Tênis Clube.

Estamos remontando à época dourada – décadas de 30 e 40 do século passado - em que o Parque Moscoso era a grande área verde de Vitória, sem muros e grades protetoras. Um espaço aberto e franco (parque florestal e florido, no dizer do historiador Luiz Derenzi), destinado ao descanso e ao lazer da população, um dos pontos mais valorizados para moradia, em Vitória. Uma área nobre, sem dúvida, embora a expressão não fosse daquela época. Então, dizia-se apenas amorosamente “o Parque”, e já se sabia do que se estava falando.  

Pois é dessa época a existência do Parque Tênis Clube do qual não me lembro de ter visto nenhuma referência nos historiadores capixabas. Como sou testemunha de sua existência, onde tive até oportunidade de esporadicamente jogar na minha adolescência, a ele me reporto neste ano do centenário de fundação do Parque Moscoso.

O Parque Tênis – como todos o chamavam – situava-se onde está hoje a Escola da Ciência Física que antes abrigou o Parque Infantil Ernestina Pessoa, este último ali construído no governo Jones Santos Neves (1950-1955). Indico a sua exata posição: esquina da Rua José de Anchieta com a 23 de Maio.

Cercava-o um alto alambrado de tela de arame, por cujas largas tramas trepadeiras se enroscavam e floriam em alguns pontos. A visibilidade de quem passasse pelo Parque Moscoso em relação aos tenistas era completa. Nem por isso, muitos curiosos se grudavam à tela do alambrado para assistir às partidas, consideradas de um esporte de elite.

 A planta física do Parque Tênis era bem simples. Sua entrada habitual era voltada para a Rua 23 de Maio. Logo à direita havia uma construção térrea, de alvenaria, que servia de depósito para as redes e outros apetrechos, inclusive os de limpeza, destacando-se o rolo compressor de ferro para aplainar manualmente o piso das quadras, que era de saibro.

Uma passarela central, de areia grossa, seguia em linha reta da entrada do Parque até a sede do clube, localizada na outra extremidade. Era um pequeno prédio de dois pavimentos, com uma porta dando para a passarela, e outra, sempre fechada, voltada para a área verde do Parque Moscoso.

De cada lado da passarela, onde ficavam os eventuais assistentes dos jogos, se não me engano em alguns poucos bancos de madeira, havia uma quadra ou cancha. Embora ambas fossem simetricamente semelhantes, a da direita de quem entrasse no Parque Tênis pela Rua 23 de Maio era reservada para os jogos importantes. A da esquerda tinha ainda, num canto dela, na parte em que ficava a sede do clube, um paredão que servia de bate-bola para o aquecimento dos tenistas ou para sua iniciação na prática desse esporte.

Numa época em que a população de Vitória variou de cerca de trinta a cinquenta mil habitantes (de 1930 a 1950), o Parque Tênis tinha o objetivo social de congregar um grupo de pessoas não só para a prática de um esporte limpo e refinado, britânico por sua origem, como também para fortalecer os laços de amizade e convivência entre os seus adeptos.

O Parque Tênis constitui-se, pois, num espaço de seletividade social de que o grande público não participava, nem sequer movido pelo momentâneo interesse de assistir aos jogos que nele se realizassem.

Numa contextualização temporal mais ampla, tomando-se por base as décadas citadas, Vitória tinha a oferecer aos seus moradores, então verdadeiramente habitantes insulares visto que a expansão urbana da cidade ainda não se extravasara além do mar que a cercava, umas poucas opções esportivas, seja para os que a elas se devotassem, seja para os que as apreciassem. Tais eram as regatas, o futebol e as competições de vôlei e basquete (estas últimas atraindo um pequeno público).

Completando a visão desse quadro conjuntural importa dizer que a generalização da prática dos exercícios físicos como saudável rotina de vida estava longe de ser antevista naqueles tempos. As academias de ginástica e suas congêneres, ou o hábito das longas caminhadas a pé ou em corridinhas atléticas pelas vias públicas foram inovações ditadas pela mudança dos costumes que levariam ainda algumas décadas para surgir em Vitória. Uma simples corrida individual, em trajes esportivos, que alguém fizesse na calçada que cercava o Parque Moscoso seria um escândalo inesquecível. Se fosse então uma mulher daria assunto para as conversas machistas na Praça Oito e no seio das famílias moralistas.

Para enfatizar mais alguns aspectos dessa época, basta lembrar que, do jogo de tênis, o único elemento que se fez popular foi o calçado de lona e  sola de borracha dos jogadores (além de tênis, chamado “pé-de-anjo”) e assim mesmo usado em situações determinadas - nas poucas atividades esportivas que havia, nas aulas de educação física nas escolas e nos desfiles estudantis do dia 7 de Setembro. Era, pois, um tempo pautado pelo conservadorismo da sociedade em que um padre que foi assistir ao filme Gilda, no Cine Glória, em que Rita Hayworth fez o papel da mulher fatal provocou tal repercussão (como o próprio filme em si mesmo) que mereceu do escritor Eugenio Sette uma crônica deliciosa, publicada na coluna Praça Oito, da Revista Vida Capichaba.

Esse é o recorte temporal em que se inseriu o Praia Tênis Clube de Vitória, encravado no Parque Moscoso até ceder lugar ao Jardim da Infância Ernestina Pessoa, que também já não mais está ali.  

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Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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