45 anos, nascida em Venda Nova do Imigrante, descendente de imigrantes italianos, mora há 26 anos em Vitória, em Jardim da Penha, e trabalh...

D.C.Z.

5/23/2014 , , 0 Comentários


45 anos, nascida em Venda Nova do Imigrante, descendente de imigrantes italianos, mora há 26 anos em Vitória, em Jardim da Penha, e trabalha no bairro de Monte Belo. (26.07.2004)


– Hoje, gosto de Vitória sim. É uma cidade organizada, agradável nesse olhar físico, bem mais limpa hoje, mais organizada do que já foi há uns anos atrás, não muito prática de se locomover, por conta de ser cheia de morros, de altos e baixos, e sai da ilha e entra na ilha, pequena, com distâncias pequenas entre os lugares em que você precisa ir, o básico… Esteticamente, hoje, acho até a cidade bonita, mas, à primeira vista, e por longos anos, não me pareceu bonita não. Essa mudança é de uns 8, 10 anos pra cá, que esse aspecto da cidade me deixou de chocar e foi se tornando mais bonita…

– O trânsito é complicado porque os capixabas não sabem andar no trânsito. A relação do capixaba com o trânsito ordenado beira a psicose. Não é possível compreender por que as pessoas não usam seta, por que o motorista que anda a 40 km/h anda na faixa esquerda e não na direita, enfim, esses ordenamentos básicos do mundo urbano, o capixaba ainda não os absorveu. Não é privilégio do capixaba, é até normal no Brasil, até onde eu conheço, nesse seguinte sentido: o capixaba num modo geral tem uma dificuldade enorme de perceber o outro. Ele não precisa de não jogar o lixo na rua, ele não precisa de não quebrar o orelhão, ele não respeita a faixa do pedestre, e ele o faz. Se você faz isso é porque não vê o outro, vê você. Tudo ao seu prazer. Isso me parece estranho, até doentio. Tem até a impunidade, mas se você pra respeitar o outro tem que ser punido, você é um tanto quanto doente.

– O capixaba é comunicativo e eu gosto disso, principalmente quando você vem de uma cidade do interior… Ele é gentil, é solícito quando você precisa, tem aquele aspecto de se aglomerar pra ver acidentes, tragédias, tem uma convivência no bairro, por exemplo, quase que como numa cidade do interior.

– Vejo alguns turistas por aqui, mas não vejo muito organizado, sistematicamente, o turismo aqui não. Ele precisa sair pra descobrir. Será que existe algum passeio de escuna? As coisas não são facilitadas pro turista nesse sentido não. Tem pouca informação, pouca opção até no que a própria natureza oferece, poxa, é interessante passear de barco pela ilha. Não que eu tenha me interessado por andar de barco. Não temos muita opção de lazer, na parte cultural, por exemplo. Agora, festa popular em Vitória é difícil enxergar. Festa da Penha é Vila Velha, congo na Barra [do Jucu], tem em Roda d’Água em Cariacica, mas Vitória, Vitória, não consigo identificar nada. Ia até falar no Vital, mas é uma coisa artificial, totalmente importada.

– Vitória tem muito carro, o povo anda pouco na rua. No meu bairro, por exemplo, sábado e domingo, não tem ninguém na rua, são poucas pessoas caminhando. E confesso que com o passar dos anos acabei adquirindo esse hábito, de andar pouco, não que me sinta desprotegida. Eu me sinto segura nas ruas, não vejo violência urbana, não consigo ver, não tenho sofrido com isso, a não ser um arrombamento, mas nada que me incomode. Mas pelo tamanho da cidade, vejo menos violência do que poderia ter, pois Vitória concentra pontos de trabalho muito maiores que Serra, Vila Velha e Cariacica, imagino eu. Vejo sim mendicância, gente pedindo nos sinais, gente dormindo na rua. Não vejo droga, consumo, a não ser criança cheirando cola. Vejo prostituição, homossexualismo, principalmente em Camburi.

– Ah, o capixaba é preconceituoso sim. É tolerante, mas tolerante até o limite, onde ele não é obrigado a conviver com isso todo dia. Eu venho de um lugar de descendentes de italianos, onde vi pela primeira vez um negro somente aos 6, 7 anos de idade e, quando cheguei a Vitória, com a pele branca, com sotaque diferente dos locais que tinham um sotaque muito próximo ao do carioca, eu me senti diferente e chamava os locais, o pessoal daqui, de urbanóides litorâneos. Eu não sou do mar, passo dias sem ver o mar, não me incomoda, gosto de montanha, eu sou de lá, mas quando cheguei aqui, fiquei meses evitando falar em público, na faculdade, pois era totalmente ridicularizada pelo meu sotaque. A cidade exige o que eu e minha irmã chamávamos, na época, de a ditadura do marrom. Você não podia ser branca, usar saia com pernas brancas, era uma extraterrestre. Ridículo. Eu me sentia talvez como o que os negros hoje ou sempre sentiram, primeiro em relação à cor, mas nós sempre discriminamos,  talvez por um aspecto cultural… Vejo sim racismo em locais públicos, observo sim, uma coisa velada. Por exemplo, você está num lugar público com uma turma grande e aí chegam dois negros, automaticamente as pessoas se afastam um pouquinho… Fica no ar: quem serão? Podem ser assaltantes, quem serão?

– Na área de saúde ainda a população tem dificuldade de ter acesso a esse serviço, principalmente se você considerar que é um serviço público, mas em relação à educação, não. Nos últimos dez anos, vejo uma melhoria nesse sentido.. Agora, a cidade é cara. Não em relação à alimentação, ou à escola, é cara no comércio, as roupas são caras, os sapatos são caros, os eletrodomésticos são mais caros. A diferença de preços é gritante entre comprar aqui ou ali, no Rio, São Paulo, Minas.

– A imprensa local é provinciana como é a cidade. Ela se dedica hoje às questões regionais, mas ainda tem uma postura em relação ao poder, não diria de subserviência, mas ainda se posiciona como uma imprensa provinciana, totalmente aliada do poder. O povo tem muito pouca voz na imprensa. Tem melhorado, mas não tem o espaço que deveria ter. Até porque a relação do povo com a imprensa é receosa, vê o jornalista um aliado do poder; arrebenta um cano na rua, eles ligam pro jornal. Por que não ligar pra companhia? Quebrou o liquidificador, liga pro Procon, por que ligar pro jornal? Um certo paternalismo, é verdade.

– O capixaba não deixa de se orgulhar de sua terra, a natureza. Ele tem sua história, mas é esquecida. Eu diria pra esta cidade pra ela olhar mais pra ela, ter mais atenção com ela, que ela se permita ser o que eu sempre achei dela desde quando me mudei pra cá, ser mais feminina. Ela é acolhedora. Mesmo com suas contradições ela é acolhedora, mas ela precisa se tratar, os homens têm que se permitir esse olhar sobre o feminino. Ela é uma mulher adulta, uma senhora mulher, mas ainda não bem resolvida, por isso eu digo que ela precisa se cuidar, não ser maltratada. Ela precisa levantar a cabeça, mostrar os seus feitos, e acolher a todos com essa energia feminina que a cidade tem. Ela é uma cidade extremamente sedutora. E levou uns dez anos pra me seduzir, mas me seduziu, o que considero um feito. Pena que ela não se olha, não olha pra sua história, e é uma das cidades mais antigas do Brasil. Ela não pode se perder, é quase que como se prostituir, se modernizar, se capitalizar, e não olhar pra ela. Eu não sei, moro aqui há mais de 26 anos e não sei qual a sua manifestação popular, e olha que trabalho num jornal. A cidade não presta atenção nela. Presta atenção no Rio, em São Paulo. A minha cidade, que é um ovo, sabe da história dela, conta a história dela, tem uma festa popular que atrai 30 mil pessoas, e Vitória não tem uma festa dela.


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