31 anos, iluminador cênico, natural de Cachoeira Paulista (SP), reside em Vitória, em Jardim da Penha, há cinco anos, trabalha fixo no Cent...

F.C.P., iluminador cênico

5/23/2014 , , 0 Comentários


31 anos, iluminador cênico, natural de Cachoeira Paulista (SP), reside em Vitória, em Jardim da Penha, há cinco anos, trabalha fixo no Centro da cidade. (10.2007)


– Quando cheguei aqui na verdade trabalhei numa assessoria jurídica, além de representante comercial. Eu morava antes em São José dos Campos e vim pra cá por causa de uma pessoa com a qual estou junto. Pra mim Vitória era a Grande Vitória, uma coisa só. Aos poucos fui sentindo as diferenças, diferença no comércio, nos relacionamentos. Sotaque o capixaba não tem e sim diferença de fala. Ele fala de forma linear e acaba também misturando alguns elementos da Bahia, do Rio e de Minas. Ele é receptivo enquanto houver uma postura de turista ainda, depois há certa cautela, que é isso, o que ele veio fazer aqui? Aqui é mais fechado, o pessoal é aberto na rua. Os encontros aqui, até mesmo de negócios, são geralmente em bares, o que me assustou um pouco no início. Nem escritório se abre a porta.

– Meu convívio com teatro nasceu aqui em Vitória. Ouve-se falar que essa atividade está em desenvolvimento aqui em Vitória. Isso se fala há um bom tempo, quer dizer, há muita coisa pra se fazer há muito tempo. Existem produções de qualidade, mas existem poucos espaços. O público tem um pouco de dificuldade em frequentar por falta de hábito e também pelas características geográficas, ou seja, tudo é mais concentrado em Vitória, no Centro, impedindo o acesso dos que moram mais longe.

– Uso transporte público. Vejo dificuldade no traçado das vias, parece que não há um planejamento de traçado, e só não flui mesmo o tráfego devido a essa dificuldade de traçado. Os carros aumentam e vejo dificuldade das autoridades em melhorar as vias, desapropriar, parece que causa desconforto político e não desconforto econômico. Os ônibus funcionam nos horários, principalmente pro Centro de Vitória e quanto ao preço, um pouco caro em relação à quilometragem.

– Vejo polícia nas ruas, mas não dá pra se sentir seguro. Duas vezes já tentaram me assaltar na porta de casa, aliás, me assaltaram, levaram celular, dinheiro. Já precisei de hospital público quando tive dengue, devo ter sido picado na UFES. As autoridades tentam educar, conscientizar quanto à questão da dengue, mas a população não responde muito a isso. Fui atendido no Hospital das Clínicas, mas demorou um pouco o diagnóstico. Foi um pouco burocrático. Grosso modo acho que a população não é bem atendida.

– Faço artes visuais na UFES. Por aqui existe uma tentativa de engajamento político na universidade. Há muita recorrência aos anos 80, ao movimento do Balão Mágico. Mas os estudantes não são bem informados, um sabe uma coisa, outro sabe outra; são meio alienados. A mídia aqui é meio centralizada, fica entre o Grupo Gazeta e o Grupo Tribuna, mesmo com os canais Capixaba e Vitória, mas é mais entre os dois. A notícia é focada no regional, local, mesmo as que vêm do interior.

– Esteticamente a cidade de Vitória joga pra trás. Lembra até o Rio, parece uma miniatura. A moda é contemporânea, tem o pólo de Vila Velha. Realmente lembra o Rio, anos 80. Parece uma novela de televisão onde as pessoas sempre se encontram no mesmo lugar, no mesmo supermercado, no mesmo bar, na mesma clínica. Panelinha tem, de acordo com os interesses, com a área de trabalho, natural. Não sei se chega a ser provinciano.

– Quando cheguei aqui se falava muito em resgate da identidade. Ora, isso caracteriza muito uma perda de identidade. Estão tentando se encontrar novamente. Sinto que estão tentando criar uma identidade mais contemporânea, voltada pro progresso.

– Pra mim as maravilhas de Vitória são o Teatro Carlos Gomes, dentro e fora, a vista que temos de Vila Velha, o Penedo e o Convento e aí até me lembra a relação Rio – Niterói, Parque da Pedra da Cebola, os píers da praia de Camburi e peculiaridades da noite capixaba: a noite capixaba é meio sonolenta – todo mundo sai já com sono. O capixaba sai de casa com aquela empolgação e volta cedo pra casa: 3 horas da manhã, todo mundo no berço. Há uma ilusão sobre a noite capixaba. É um sonho curto, acaba cedo. Curioso que o capixaba não é definitivamente da noite e também não é do dia, porque acorda tarde, não vai à praia. Aqui quem frequenta praia é quem mora em Vila Velha ou o pessoal que pode e frequenta balneários vizinhos. E a poluição não ajuda. Somos uma ilha com apenas uma frente pro mar e o resto ligado ao continente, o que ajuda a poluir devido aos esgotos e os canais, que mesmo tratados não despoluem 100%.

– O povo aqui é contraditório quanto aos valores, pois o discurso é um e a prática é outra quanto ao racismo e minorias. Até as campanhas políticas são provincianas, passa pela amizade. Vota-se no indivíduo porque ele é amigo, conhecido, coisa de cidade pequena, não por causa de seu programa. Até na religião tem duplo comportamento.

– O custo de vida aqui já foi mais barato, de cinco anos pra cá aumentou um pouco, um pouco de especulação, principalmente a imobiliária.

– Não vejo muita identidade em relação ao esporte, é indefinido. Vejo pouco espaço pra prática do futebol. Tem a bocha que tem endereço certo e não muda.

– A comida aqui é arroz, feijão, frango e colorau. Como se usa corante por aqui.

– Antes não pensava ficar muito tempo por aqui. Agora, acho que dá pra crescer aqui profissionalmente. Sinto dificuldade de ver crescimento em equipe, só o individual. Espero que Vitória cresça.


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