56 amos, advogado, natural de Governador Valadares, MG, reside há 23 anos em Vitória e atualmente mora em Mata da Praia e trabalha no Centr...

H.C.P., advogado

5/26/2014 , , 0 Comentários


56 amos, advogado, natural de Governador Valadares, MG, reside há 23 anos em Vitória e atualmente mora em Mata da Praia e trabalha no Centro. (16.09.2005)


– Vitória é uma cidade encantadora, como se fosse de um conto de fadas, sua geografia junto com as alterações que o homem fez com suas construções. Só não aprendemos ainda a fazer elevados e túneis. As ligações de Vitória com seu entorno ainda deixam a desejar. Mas se a gente parasse no tempo e deixasse tudo como está estaria muito bom, principalmente com relação à convivência com o verde, malgrado os problemas que a gente tem aí com a diminuição dos manguezais, de ataques a redutos naturais, há uma preocupação, me parece, com políticas públicas em razão de se preservar, criar parques, jardins, temos o Parque da Cebola, a Toca da Onça, a Praça dos Desejos, a dos Namorados, o Horto de Maruipe, redutos assim que fazem o equilíbrio do desenvolvimento com alguma coisa natural. Tanto que nesta questão o novo aeroporto teve problema em seu projeto e me parece que vão construir umas rampas para preservar no que for possível a mata de restinga. O retrato de Vitória atual eu creio que seja esse aí, uma tentativa de convivência do progresso com a natureza. Você conviver no meio do concreto armado sem dúvida ataca o comportamento do ser humano. Aqui não. Embora seja uma capital de porte médio, você ainda encontra as pessoas no meio da rua e cumprimenta. Aqui você ainda tem um bucolismo, uma coisa bem regional. A questão do verde, como diria Sêneca, o homem, nos seus momentos de ócio, precisa andar em grandes espaços. Não é só a praia que é um grande espaço. Temos a opção de jardins e parques.

– Eu cheguei aqui em l982. De lá pra cá eu tenho sentido que tem havido uma evolução do cidadão em estar reagindo a algum tipo de agressão, seja no campo político, social. Veja o vendaval político que o cidadão foi pego de surpresa e o capixaba tem-se mostrado pró-ativo e não apenas reativo na questão do interesse público. Por exemplo, tivemos agora o movimento estudantil que conseguiu diminuir os preços das passagens de ônibus. Eu sou advogado de duas associações e     tenho visto interesse das comunidades. O Morro do Quadro tem uma associação forte, tem até vereador. Essas células de poder espalhadas nos bairros são fortes e mostram que o capixaba está se organizando de uns tempos para cá.

– Quanto ao trânsito, é preciso tomar uma providência imediata no sentido do aumento da frota de carros particulares e de ônibus, o aumento de população, falta de locais para construção de moradias. Falam que Vitória é uma cidade violenta, mas todo mundo quer morar em Vitória. A expansão demográfica é um problema sério. Não vi ainda muita coisa anunciada a não ser a intenção de se fazer um metrô de surpefície. Um antigo secretário de Transportes do tempo do [governador Gerson] Camata me lembro ter dito que em Vitória não se poderia fazer metrô porque éramos uma ilha e se furasse o subsolo era só água a ser encontrada. Ué, então no Rio não poderia ter metrô, na Cinelândia, no Flamengo. Que se faça um de surpefície. O Transcol, que foi exemplo tirado de Curitiba, não comporta mais. Os terminais estão um Deus nos acuda. Os ônibus cheíssimos. Tem-se que pensar no futuro. Lembra como se era contra a Terceira Ponte? Não fosse o Moacir Dalla de Colatina, que era presidente do Senado, liberar a verba, estávamos na mesma. Hoje é possível imaginar Vitória sem a Terceira Ponte? Uma quarta ponte já tem que ser pensada. Ah, se fosse feito um túnel, pegando ali na altura da UFES vindo pra cidade, ia melhorar, a Reta da Penha, os gargalos. Daqui a cinco anos vai ficar horroroso andar de carro em Vitória. Estamos [pensando] até um grupo de advogados em mover uma ação junto com o Ministério Público obrigando o governo ou a forçar o aumento da frota ou a abrir novas licitações pra novas concessões.

– Violência nas ruas vi uma vez só, na rua General Osório, onde presenciei um assalto ao banco Bradesco, teve muito tiro. Só vi esse fato e eu nunca vi nada. A gente ouve falar de Vitória no noticiário nacional, mas eu acho que são os bairros do entorno onde acontecem as coisas e a fama fica conosco. E eu faço de tudo, ando de madrugada, caminho na praia às cinco da manhã.

– Ah, eu acho que a praia também tem sua fama. Tem 23 anos que mergulho na praia de Camburi e nunca peguei uma só micose. O jornalista daqui é muito honesto, sincero, sempre falam “olha que Camburi é poluído”, ao contrário dos cariocas; eu nunca ouvi falar que Ipanema é poluída. Bem, na praia você vê que a mulher capixaba é muito linda.

– Vejo muito turista por aqui porque ando muito em praia. E o mineiro então pode estar chovendo que ele está botando o dedo na água pra ver se é salgada. O capixaba é receptivo, só não gosta de dar informação na rua. Temos bons restaurantes, mas o curioso é que numa sexta-feira, na Praia do Canto, tem cozinha que fecha às 3 horas da tarde. Poxa, você trabalha até as duas, duas e meia, quer entrar no fim de semana e não tem restaurante. Só tem churrascaria. Na casa dele, o capixaba gosta de uma comida caseira, agora o que ele ama mesmo é o caranguejo. Ele fala muito na moqueca, mas o caranguejo é o preferido. E também o peixe frito, e gosta mais da pescadinha do que da peroá. Mas temos bons restaurantes, muitos de cozinha internacional, de bom nível. O turista carece um pouco de shows ao ar livre, na praia. E eu não sei o que leva o morador a ser contra o Vital. Pode fazer barulho, mas eu como morador de Vitória tenho que torcer que o Vital aconteça na Praia de Camburi, que um negócio que vem gente do Brasil todo, muito elogiado por ai afora, um dos mais organizados. Tinha que fazer mais.Tem que parar com essa bobagem. São três dias só, a poluição não é tanta porque é numa área perto do descampado do aeroporto. Tem que ter discussão pra incrementar o turismo, mais shows, teatros. Vi uma vez o Luiz Paulo quando era prefeito dizer que não ia ter fogos no final do ano, porque não tinha dinheiro. Ora, isso é brincadeira. Uma cidade do porte de Vitória tinha que ter no orçamento verba pra gastar com fogos, porque isso atrai turista, atrai dinheiro. Veja as cidades pelo Brasil, a movimentação de fim de ano, gente na rua, nos hotéis, gastando.

– Na saúde, não queira ir pro Hospital São Lucas, pro Hospital das Clínicas. É extremamente doloroso você ver as filas. Tem o caso de um conhecido nosso que, depois de um acidente de moto, ficou nos corredores e faleceu. O estado tem que imediatamente adotar uma postura pra fazer alguma coisa pela saúde. E tem que investir na educação pro sujeito saber exercer seu direito de cidadão. A rede pública municipal até que é razoável, a gente reconhece. Eu tenho percebido um aumento considerável de procura pelo capixaba pelos seus direitos, principalmente na área trabalhista; percebo isso de uns oito anos pra cá. As pequenas causas também já estão abarrotadas de processos

– O esporte amador vai indo bem. Nosso forte parece ser o futebol de praia, tem também remo, apesar de pouco explorado. Agora, somos bons em esporte coletivo e quase zero em esporte individual, mas isso também é pelo Brasil afora.

– A moradia tá ficando difícil por aqui, tá acabando o espaço pra construir. Os preços estão subindo muito. Dizem que é em função da Petrobras. O aluguel está subindo. Pra comprar é mais fácil. A expansão imobiliária de Vitória está fantástica. E o que mais tem por aqui é gente de fora, principalmente de Minas. E olha que isso não apaga o capixaba, pelo contrário. O capixaba, posso lhe dizer, é alegre, chama você pra casa dele, e quem não faz isso aqui é o mineiro. Eu sou mineiro. Mas o mineiro do interior de Minas, ele faz. Ainda menos os das grandes cidades. O capixaba gosta de reunir amigos, fazer festa. Já o idoso parece não gostar de sair, ir à praia… Pode até gostar, mas você vê pouco, ele jogando uma peteca, um dominó. Eles ficam é fazendo exercício. Agora desconheço programações pro idoso por aqui.

– Acho que Vitória não tem a festa que seja tradição. Tem essa Feira do Verde, sempre em setembro, que tá tomando jeito. Tem o Vital. Carnaval mesmo, não existe, é ridículo. Interessante é a Procissão dos Homens, a caminhada, na Festa da Penha, aí sim, é bem Vitória. Eu acho que a cara de Vitória é a Terceira Ponte, e a visão que você tem da Ponta Formosa, olhando o bairro de Camburi, o Mestre Álvaro atrás. Se Vitória fosse uma criança eu lhe diria pra crescer sem medo porque ela é bonita demais, pode ser uma top model, se mostrar para o mundo. Mas também se instruir, crescer. A sua beleza não pode ser oculta, tem que ser mostrada.


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