60 anos, jornalista, nascida do Rio de Janeiro, mora na Praia do Canto, trabalha no campus da UFES, residindo em Vitória definitivamente, a...

J.B., jornalista

5/26/2014 , , 0 Comentários


60 anos, jornalista, nascida do Rio de Janeiro, mora na Praia do Canto, trabalha no campus da UFES, residindo em Vitória definitivamente, após vários períodos intercalados, desde 1982.


– Vitória é a “minha” cidade, a despeito de não haver aqui nascido. Sou carioca, cheguei a Vitória na adolescência (1961), em razão do falecimento do meu pai. Tinha, à época, 12 anos. Minha tia materna, Irmã Maria Luíza, era uma das professoras e gestoras do Colégio do Carmo. “Estreei”, portanto, na condição de aluna interna e ilhéu a um só tempo. No início, não foi absolutamente uma escolha pessoal. Já nos anos 80, quando retornei à cidade, sim! Escolhi Vitória, porque “sinto” a cidade simpática, luminosa e acolhedora, além de apresentar facilidade para a construção de teias de relações profissionais e de amizade. Vitória é sim, acolhedora, simpática, enfim, uma bela cidade para se viver!

– Entre os pontos positivos desta cidade destaco a beleza e a peculiar luminosidade da ilha, a hospitalidade do seu povo, a facilidade de estabelecer relações profissionais e de amizade e, ainda, a peculiaridade de apresentar montanha e ilha tão próximas, distando apenas 40 km. Quanto aos aspectos negativos, ressinto-me da ausência de uma vida cultural mais intensa e rica! Ainda hoje, é preciso  deslocar-se para o eixo  Rio-São Paulo para se assistir a um espetáculo de ópera, concertos, peças teatrais, visitar museus, enfim, a vida cultural é, na minha visão, acanhada! Insuficiente, mesmo!…

– Quanto à infra-estrutura, excetuando-se o trânsito que é, de fato, um caos cotidiano – e a nova ponte, recém-inaugurada, não resolveu o problema (absolutamente!) – os demais serviços são bons. Pelo menos, os que eu utilizo. Não sou usuária do transporte coletivo e também não sei informar, com precisão, sobre a oferta de ensino público. Quanto ao item segurança, trata-se de problema nacional (para não dizer, do mundo ocidental, e não cabe aqui explicitar as razões). Acho, no entanto, que o transporte coletivo ainda é precário, impressão colhida nas raras vezes que tentei utilizá-lo em deslocamentos Praia do Canto – Centro da cidade. A opção é utilizar o transporte dito “seletivo”. Quanto ao lazer, acho que a cidade é ideal para quem gosta de praias e de praticar esportes, mas, ratifico, para quem não aprecia essas opções, a vida cultural faz, de fato, muita, muita falta.

– Se podemos compará-la com outras cidades? Acho que seria necessário se estabelecer um comparativo em específico: Vitória em relação a quais cidades? Por exemplo, o transporte coletivo no Rio de Janeiro parece-me melhor, além do carioca contar com a opção do metrô – que é limpo e funciona mesmo! – ou o de São Paulo. Quanto aos demais itens – segurança, saúde pública, etc. – ratifico: os serviços públicos, talvez, podem até se equivaler, mas, como o comparativo está sendo feito por mim com o eixo Rio-São Paulo, as opções culturais são, de fato, bem poucas e restritas.

– Pensemos no futuro: desde que se invista na construção de novas vias de escoamento para o trânsito – pontes, túneis, metrô de superfície, transporte aquático, duplicação de vias públicas, melhorias e diversificação no transporte de massa, etc. – continuará a ser uma bela e agradável cidade para se viver, vez que o seu território é limitado e as expansões – quando ocorrem – dão-se via aterramentos. Há que se “policiar”, ainda, o PDU, pois a verticalização acelerada da Zona Norte da cidade – um processo irreversível que, inclusive, já levou à destruição de belas residências – ameaça impedir a ventilação (que é ótima na ilha!), “barrar” a luz do sol, enfim, nos últimos 14 anos, testemunhei a Praia de Santa Helena, onde resido, transformar-se num “paliteiro”. Com a mudança no padrão de construção, estabelecido pelo PDU, vêm sendo erguidos gigantes de 25, 30 andares. Em consequência, a bela vista da baía e a contínua ventilação,  tão própria da ilha, foram-se para muitos dos moradores!… Como resido num andar mais alto, ainda desfruto do sol da manhã e da vista parcial das ilhas do Boi e do Frade; parcial em função dos altíssimos prédios recém-construídos! Vitória poderá continuar a ser, daqui a 10 ou 20 anos, uma bela e aprazível cidade para se viver, desde que os ilhéus exercitem a cidadania, policiando e cobrando a adoção de políticas públicas eficazes das futuras administrações municipais da capital.

– O residente na ilha é, sobretudo, simpático e hospitaleiro. Aqui, onde moro, com a divulgação sistemática da mídia de assaltos e violência, ninguém – é óbvio! – mantém as portas abertas para desconhecidos. Aliás, em qual cidade grande ou de porte médio – como é a nossa – alguém ainda adota essa política? Desconheço! Até mesmo no ex-pacato município, quase vizinho, de Domingos Martins, as residências e os carros começam a ser trancados!… Quanto a ser ufanista ou bairrista, não observo tal procedimento. O capixaba gosta sim, da sua cidade, orgulha-se das belezas naturais da ilha, da culinária típica, mas não manifesta um sentimento exacerbado de exaltação, ufanismo. O que me parece razoável e até de muito bom-senso! Afinal, todas as cidades têm a sua história, peculiaridades e encantos! Já pelo lado negativo, acho – mas o capixaba não é exceção! – que, como motorista, quando condutor do seu próprio veículo é, por vezes, pouco gentil e mal educado, quando não até agressivo no trânsito. Mas, ratifico, só testemunhei civilidade no trânsito na Europa. Em todas as demais cidades brasileiras segue-se esse mesmíssimo padrão!…

– Não creio que o capixaba conheça bem a sua própria história. Até  mesmo porque Vitória é uma ilha cosmopolita (ignoro as estatísticas), mas suspeito que grande parte da população residente é originária de outras cidades da região sudeste, além das correntes de imigração vindas do norte de Minas Gerais e do sul da Bahia. Creio que o interesse em melhor conhecer a história de Vitória e até mesmo a do estado fica restrito ao grupo dos mais curiosos, mais instruídos, ou melhor, informados. Mas, como também residi no Rio e São Paulo, não observei lá a massa popular ser detentora de melhor conhecimento sobre a história carioca ou a história paulista. Na verdade, o povo brasileiro pouco conhece ou – quem sabe? – pouco se interessa pela história do país. É, em minha opinião, uma característica nacional. Talvez – e, só talvez, mera hipótese – o fato mais conhecido da história da ilha para os habitantes nativos seja a da personagem Maria Ortiz, seja como lenda, seja com a chancela da comprovação histórica. Pelo menos, foi a que ouvi com maior frequência, quando aqui cheguei. Quanto às fontes para melhor se informar, Vitória oferece bibliotecas – municipal e estadual, além da Biblioteca da UFES –, mas o material turístico – folders, mapas, folhetos – que bem poderia suprir, em parte, essa lacuna, é escasso! Li, outro dia, no jornal, que sequer os tradicionais cartões-postais são de fácil acesso ao visitante.

– Não me parece que sejam caros os restaurantes em relação aos existentes nas outras capitais da região sudeste. Alguns, obviamente, têm preços mais elevados, seja pela culinária mais sofisticada oferecida, seja por terem ganhado o status de “points” da moda. Os demais preços – vestuário, lazer, saúde e transporte – parecem ser compatíveis, e, por vezes, até mesmo inferiores aos praticados no Rio e São Paulo.

– Aqui o interesse pela política é declinante. Um fenômeno registrado no mundo pós-moderno, contemporâneo, sequer restrito ao nosso país, mas que se espraia pelo mundo ocidental. Não creio que o perfil do ilhéu seja conservador no que concerne à política. Em décadas anteriores – ainda bem próximas e até nesta presente – foram eleitos sucessivos prefeitos e governadores ditos de esquerda ou de centro-esquerda. Aliás, responde, atualmente, pela administração da capital, um petista. Quanto ao interesse político dos estudantes e, aqui, faço um recorte para os da UFES – trabalho na Fundação Ceciliano Abel de Almeida que é a fundação de apoio à Universidade –, observo que o interesse político manifesta-se mais vivo entre os dos centros acadêmicos, participantes ativos dos movimentos de política estudantil. Não sei informar se o ilhéu é exemplo de cidadania. Dependerá, assim suspeito, da região onde ele reside, isto é, do nível de politização do bairro, ressaltando-se, por outro lado, o evidente interesse de grupos organizados ou político-partidários, ONGs, movimentos comunitários de bairros etc. Na minha personalíssima opinião, a cidadania hoje é um conceito subalterno ao que se mostra principal e dominante: sermos, prioritariamente, “consumidores” sob a égide do ultracapitalismo ou “capitalismo tardio”, como prefere Fredric Jameson.

– Quanto à população da ilha, como em todo o país, há uma evidente mistura de raças e etnias. No Espírito Santo há, de forma explícita e maciça, forte presença dos descendentes da colonização italiana e alemã. No que concerne ao sotaque, não o identifico, excetuando-se algumas expressões muito próprias do capixaba, como, por exemplo, o “pocar”, “madurar”, aliás, termos constantes do Dicionário do dialeto capixaba, de Julio César Alves dos Santos (organizador), publicado em 1975.

– Não tenho um local preferencial, em específico!… Acho muito belo o pequeno Teatro Carlos Gomes, alguns conjuntos arquitetônicos remanescentes de séculos passados ainda existentes na Cidade Alta e cercanias. Bela, também, a paisagem que se descortina do alto do morro onde se situa o Colégio Sacré Coeur de Marie. Para mim, o ponto marcante da capital é o porto de Vitória, pulsante e vivo, localizado no coração da cidade, após o navio “vencer” o Penedo. Outra predileção é apreciar, todas as manhãs, das janelas do meu apartamento (Praia de Santa Helena, voltado para a baía), os navios deslizando suavemente em direção ao porto de Vitória. Uma maravilha!… Viver “a ver navios”, literalmente!

– Em meados da década de 70, trabalhei como chefe do Setor de Promoção e Divulgação da Emcatur – Empresa Capixaba de Turismo – e também acompanhei de perto as atividades do Conestur – Conselho Estadual de Turismo.  Nesse período, muito aprendi sobre as potencialidades turísticas do Espírito Santo e desenvolvi a certeza da “vocação turística” do estado, o que inclui, obviamente, a capital. No entanto, passados 30 anos, creio que não se acreditou ou se investiu devidamente no turismo do Espírito Santo. As deficiências da época estão, ainda, hoje presentes… Ou seja, persiste o potencial, mas, infelizmente, não ocorreu investimento maciço para Vitória tornar-se, de fato, uma cidade turística, apresentando infra-estrutura adequada para reter o turista na capital. Excetuando-se as praias – que, aliás, nem são tantas! – não há oferta de uma vida noturna e cultural. Andar no calçadão de Camburi?… Ah, é pouco!… Sequer lanchas ou barcas disponíveis para bem apreciar as belezas da baía de Vitória. De dia ou de noite!… Enfim, o potencial turístico existe, mas não foram alocados recursos ou não houve interesse público (ou privado) para dotar a bela cidade-ilha Vitória de atrativos especialmente destinados a uma eficaz exploração turística. E, não custa lembrar, é uma “indústria” que não polui, ao contrário das siderúrgicas aqui instaladas e, inclusive, as futuras já anunciadas para funcionar, nos próximos anos, no litoral do Espírito Santo.

– O conselho que eu daria fosse Vitória uma adolescente seria que ela buscasse identificar, bem definir, sua real vocação. Num segundo momento, investir maciçamente nessa vertente. Aliás, tal como ocorreu com o Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Belo Horizonte. Se perguntarmos qual a vocação de cada uma dessas cidades, colheríamos  respostas precisas: Rio de Janeiro, vocação turística; São Paulo, vocação para negócios; Salvador, cidade histórica, com vocação turística; Belo Horizonte, cidade moderna, tendo nas cercanias um colar de cidades históricas… E quanto a Vitória? Cidade histórica (458 anos!)? Cidade turística? Cidade para negócios? Cidade moderna? Vitória, na minha personalíssima opinião, tem que ser mais do que a “Cidade Sol, com o céu sempre azul”. Claro que é linda e tem, de fato, sol e um céu de anil!… Mas não possui um perfil marcante e definido! E quem não consolida a imagem de um perfil marcante e definido, inclusive ou sobretudo, para ser publicitariamente explorado (e não vivemos sob a égide do marketing?), corre o risco de ficar na sombra, sem ganhar a merecida posição de destaque na região sudeste e até nacionalmente!… Fato que, no caso desta nossa adorável cidade-ilha, faz doer o coração daqueles que, verdadeiramente, a amam. Como eu. “Entre os milhões, eis aqui mais um!”


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