Bairro onde mora: Barro Vermelho Profissão: aposentado. Antes: funcionário público municipal, depois estadual, metalúrgico, professor univ...

J.F.A., funcionário público municipal aposentado

5/21/2014 , , 0 Comentários


Bairro onde mora: Barro Vermelho
Profissão: aposentado. Antes: funcionário público municipal, depois estadual, metalúrgico, professor universitário, advogado não militante e administrador de empresas.
Naturalidade: Itapemirim, ES
Idade: 73 anos
Tempo de residência em Vitória: 45 anos
Estado civil: divorciado
Filhos: 3


O que você acha da cidade de Vitória como ambiente para se viver?

– Vitória é uma cidade muito bonita em razão dos seus contrastes geográficos, tem uma baía linda, os morros debruçados sobre o mar. Vitória é extremamente agradável porque nos dá a opção de ir à montanha que está ali pertinho, e você tem o mar à sua disposição, para você estabelecer essa dicotomia recreativa e até de investimento. Quantos investimentos são feitos na montanha? O agronegócio também. Nós temos também o privilégio geográfico da nossa cidade, a localização. Temos o Rio de um lado, a Bahia de outro, e Minas Gerais. Então fazemos parte da Região Sudeste, evidentemente que a Bahia faz parte da região Nordeste. É a região mais rica, e dos três, nós somos o primo pobre. Mas estamos em grande desenvolvimento, o petróleo… – Temos uma convivência muito assídua com o Rio de Janeiro. Eu sou capixaba do interior e vim pra cá em 1946, pra estudar na Escola Técnica Federal, que é uma escola profissionalizante voltada para o pobre, classe média baixa. E vim de Itapemirim. – Esse domicílio de 45 anos é uma opção espontânea, produto de vinculação prazerosa. A minha capital é bonita com seus contrastes geográficos. Tem as deficiências óbvias de uma ilha urbana de demografia qualitativa limitada.


Como descreveria o aspecto físico da cidade?

– Uma ilha marítima, cidade anciã no rol das capitais do país. Tem a contramão do empirismo que caracteriza a baixa auto-estima do capixaba. Esse comportamento se liga, também, ao cenário físico da cidade.


Do que você mais gosta em Vitória?

– A sua proximidade da cativante geologia serrana – quase uma riqueza climática metropolitana.


Você conhece a ilha como um todo? Quais bairros você gosta mais?

– Você vê aquela região de São Pedro, aquilo é muito bonito. Aquele Mestre Álvaro pertinho olhando para a gente, aquele mar… Essa ilha é privilegiada, não há dúvida alguma, pela razão da localização. Os capixabas, pelo menos no início dos anos 50, iam muito ao Rio. Aliás, temos muita semelhança fotográfica com o Rio de Janeiro. Sem dúvida alguma. Mas nós vivíamos concentrados na capital do país. Então, o capixaba daqui de Vitória visitou muito o Rio, porque sabia que tinha mais recursos, porque Vitória era carente de recursos recreativos, mesmo cinema, que era tradicional na época. Eu me lembro que eu namorava no cinema. O namoro era no cinema, só, “pt saudações”, acabou a sessão vai para casa. E ainda tinha aquela coisa interiorana. – Conheço em toda sua modesta extensão, sem, contudo, qualquer vivenciamento comunitário. Gosto nessa ordem preferencial: Jucutuquara, Fradinhos, Praia do Canto e Santo Antônio.


É fácil fazer amigos em Vitória?

– O capixaba é muito comunicativo, nós temos muita semelhança com o carioca. Muito entrosamento entre nós e o carioca, porque vivemos muito perto, e nisso há uma facilidade. Ainda tenho alguns amigos da minha geração que estão por aí ainda, a velha guarda, porque eu estou com 73 anos de idade, existem alguns, é bom a gente ser surpreendido. – Eu me comunico, então, com muita facilidade. Eu trabalhei em empresa siderúrgica 25 anos, sempre conversando, gostava de fazer discurso, participei de várias campanhas políticas no interior, mas nunca quis ser candidato. Eu só queria estudar. Então essa facilidade em me comunicar me leva a estabelecer esse relacionamento pessoal, inclusive gosto de iniciar uma conversa perante uma pessoa que esteja com certa dificuldade. Acredito que o capixaba seja um povo aberto, mas eu sou suspeito para fazer esse julgamento, mas ele não é cismado, ele é aberto. – Eu saí da zona rural para vir estudar aqui em 1947. E nesse longo percurso até essa alvorada de um novo milênio, o embasamento da estima natural percorreu épocas contrastantes. Porém, atualmente, neste envelhecimento etário a montagem de relacionamento flui com certa facilidade. Eu sou extrovertido e crítico. A seleção prevaleceu. A facilidade na matemática somatória ou excedente da amizade é modesta. Pessoalmente, prefiro armazenar amigos. O perfil do capixaba, mais auto-julgamento, é de fácil abertura, sempre amistoso de sofrível politização e de limitada reflexão empresarial.


Quanto às oportunidades de trabalho, o que você tem a dizer?

– Eu acho que agora mais do que nunca, e eu não estou empolgado pelo que a imprensa diz, estou empolgado pelo que eu constato, porque a imprensa, às vezes, exagera porque quer vender noticiário. Mas você vê aí um mercado de trabalho enorme, a CVRD, que eu vi sendo construída, o porto de Tubarão. Eu trabalhei no gabinete do governador três anos, 60, 61 e 62. Eu admirava o capixaba com a coerência com a qual ele tocava aquele mercado. Infelizmente, a genética não funcionou. Eles são políticos. Dr. Carlos Von Schilgen era fantástico, amava o nosso estado. E o Espírito Santo, nessa época, nos anos 50, foi o Dr. Eliezer Batista que construiu o porto de Tubarão. O minério era descarregado aqui na baía… – Aí veio a CST, logo depois a Aracruz Celulose, empreendimentos fantásticos para nós, a Samarco Mineração, eu escrevi uma crônica sobre isso, eu trabalhei muitos anos como colaborador do jornal A Gazeta. Depois meus artigos foram transformados em cartas. Eles fizeram uma seleção jornalística, e eu não sou jornalista. – Lecionei durante 12 anos nas, então incipientes, Faesa, UVV e Facec (Colatina), fi-lo, inclusive, em momentos simultâneos. Passei experiência pessoal, de antiga militância em indústria, nas áreas de organização empresarial e capacitação de recursos humanos (RH). E Vitória e seu entorno urbano eram pobres em mercado de trabalho, no momento a realidade é motivadora. A hora é agora. O mercado de mão-de-obra, sem dúvida, começou a se qualificar, não com pedantismo acadêmico, senão com capacidade profissional rentável.


Você frequenta as praças e parques de Vitória? O que acha?

– Abrindo-se uma exceção ao Parque Pedra da Cebola, novidade interessante e mesmo assim recente, em se tratando de praças e parques estamos pisando o chão de primarismo cultural. Até o velho Parque Moscoso me passa a melancolia do capixabismo comodista, de frágil estima à terra natal, notadamente no aconchego da Grande Vitória. Uma lástima na minha avaliação.


Como descreveria o transporte e o trânsito da cidade?

– Em sendo uma ilha confinada, com sua pouca planície e acossada por três municípios populosos e em expansão urbana, o transporte coletivo já suplica a complementação do metrô. E [o transporte] fluvial. O intercâmbio aquaviário precisa ser ressuscitado, com Cariacica compondo com Vitória e Vila Velha. Já o trânsito segue a impulsividade do brasileiro. Ele é homicida em todos os estados.


Como você se diverte?

– Seguindo a rotina do esporte aeróbico. Aí entram as corridas, raramente não diárias, a natação, academia de ginástica. Passando para o abstrato, me divirto lendo o que me apraz.


Você participa das tradições que ainda restam (congadas, procissão dos navegantes, festa da Penha…)? E das tradições mais recentes (Vital, carnaval…)?

– De nenhuma delas. Torço sempre pelo aprimoramento desses e de outros eventos populares, folclóricos, religiosos ou místicos, os quais enriquecem a memória de um povo.


Quais são os grandes problemas de Vitória, em sua opinião?

– Vou responder como síntese: a vergonhosa e ostensiva poluição iminente produzida pelo complexo portuário e industrial de Tubarão, agenciado pelas poderosas Vale do Rio Doce e CST.


E as grandes vantagens de morar aqui?

– O sentimento do natural bairrismo regional: a beleza homogênea espacial, convivendo com o contraste geográfico.


O que acha do artesanato de Vitória?

– Sou um membro emocional de qualquer artesanato, como fruto da árvore frondosa da inteligência, praticando a notável habilidade criativa. Do mais engenhoso ao mais simples artesanato prevalece invicta a arte da perfeição.


Como você vive em Vitória?

– Sozinho no meu apartamento, divorciado, a namorada é um componente. Deixei, faz tempo, de ser notívago. Ao anoitecer, estou em casa. O dia é de ocupação integral: ginástica, leitura, escrever crônicas, conversas com Jesus, sua mãe Maria, seu pai José. Este ano deverei ir para o interior e por lá residir até o crepúsculo da vida. A cidade me enfada.


E o custo de vida?

– Não tenho base para falar disso. É mais ou menos igual por aí afora. Para a nova geração de emprego tem um mercado de trabalho fantástico aí, ele é profissionalizante, tem que ser. São empresas profissionalizadas voltadas à exportação, coisa fantástica, tudo voltado para o mercado exterior, trazendo o dólar para o nosso país, muito bom. Isso dá uma contribuição fantástica para o mercado externo. – Quando eu fui oficial de gabinete do Dr. Carlos Lindenberg, ele, como a gente interiorana, gostava muito de ir ao interior, então, era comum, fim de semana, toda festa de município, o governador ir. O governador não era como hoje, tinha aquele respeito, aquela distância, mas tinha muita humildade, tinha muita camaradagem, tinha muita doçura, tinha muita sinceridade, que existia por esse caminho. Uma coisa que ninguém se atrevia a fazer era qualquer proposta indecorosa, era capaz até de levar pancada. Então, eu não estou me referindo ao atual governador, que é um excelente governador, o Paulo Hartung. E o mandato está sendo dificílimo, ele doente inclusive, mas está levando nosso estado lá para cima. – Numa dessas viagens ao interior, o Dr. Carlos disse “vamos visitar o município de Itapemirim, lá na divisa com o estado do Rio, vamos, meu filho, vamos, pode agendar tudo.” Lá, o fazendeirão que se vire, quando o governador chegava tinha o maior prazer em receber o governador, dar aquele banquete de interior muito farto. Fazenda bonita. Do outro lado tinha uma fábrica de farinha.


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