Idade: 61 Natural de Criciúma, SC. Morador de Vitória desde 2008. Designer e produtor gráfico. Eu cheguei em Vitória bem recentemente...

L.C.S.A., designer, produtor gráfico

5/23/2014 , , 0 Comentários


Idade: 61
Natural de Criciúma, SC.
Morador de Vitória desde 2008.
Designer e produtor gráfico.


Eu cheguei em Vitória bem recentemente, em 2008, mas não é a primeira vez que moro aqui. Já morei em Vitória muitos anos atrás, 40 anos atrás. Eu tinha meus 15 pra 16 anos, e naquela ocasião a cidade me marcou muito. Agora, depois desse tempo todo, voltei e a cidade se revelou de uma maneira legal, porque o que naquela época parecia ser uma cidade pequena, agora, apesar dela não ter crescido tanto em tamanho, pelo menos na área em que eu costumo circular, ela se desenvolveu bastante no lado do urbanismo, na arquitetura. Ela se transformou de uma pequena cidade com jeito de cidade pequena, numa capital pequena com cara de cidade grande. É isso o que eu sinto, é a impressão que me passa. E eu percebo coisas que talvez um morador antigo não consiga mais perceber, já não tenha mais essa noção, por conta de ter ficado na cidade esse tempo todo, continuamente – eu cheguei de repente, agora, e gosto muito do que vejo aqui. Por exemplo, o trânsito. Ouço as pessoas reclamarem, mas acho que elas não têm ideia do que é um trânsito ruim. Porque se você for pro Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, que são cidades em que eu estive mais constantemente nesses anos todos antes de vir pra cá, você pode ver que o trânsito lá é infernal, aqui é uma beleza, engarrafamento aqui é quinze minutos, vinte minutos – um grande engarrafamento – isso não é nada, pra mim não me estressa de forma alguma. Isso é o que mais me chama a atenção: é gostoso morar aqui. É bom se deslocar pela cidade. À hora que for.

Outra coisa que eu percebo, que sinto aqui em relação às pessoas, é uma grande generosidade. Tenho sido recebido, aonde quer que eu vá, por pessoas com uma generosidade imensa, uma receptividade que me surpreende mesmo. Tanto, a ponto de eu não querer mais sair daqui. Estou encantado por esse lado de Vitória. Amigos recentes já são quase como amigos de infância. Gente que eu nunca tinha visto antes na minha vida, e que em meia dúzia de anos se transformou em amigo importante pra mim, que já estou com mais de 60 anos de idade. Eu sei que não é uma coisa comum. Isso se aplica também ao povo em geral, generoso, muito receptivo. É todo mundo, geralmente, sempre muito simpático. Há uma bondade, eu percebo isso, tudo é muito fácil de resolver quando você tem de lidar com alguém. É uma impressão de estrangeiro, talvez. Não sei se quem vive aqui percebe isso, sente isso, mas eu sim e fortemente. É muito legal. Com respeito à literatura, no meu interesse de trabalho nessa área, as pessoas então têm sido extremamente receptivas, tenho recebido muito apoio, de todo mundo em quem esbarro. É impressionante.

Eu lamento algo que vi naquele tempo e que foi perdido, que é aquele ar de cidade pequena. O centro antigo da cidade poderia ter sido mais preservado, há coisas ali que incomodam, que podiam ter sido mais bem cuidadas, parece que falta a intenção da parte de quem governou a cidade esses anos todos, é claro que isso também acontece na administração atual, não percebo energia nesse sentido, de preservar aquela cidade mais brejeira, mais histórica mesmo – afinal Vitória, por sua antiguidade, sua paisagem, é uma das jóias da coroa do Brasil. Essa preocupação você encontra em outras partes do mundo, mas, infelizmente, é uma coisa rara no Brasil, Vitória não está sendo diferente. Você vê isso em todas as grandes cidades até com mais violência, o quebra-quebra do antigo pra gerar áreas de especulação imobiliária. O que me surpreendeu foram esses aterros todos. Quando morei aqui, já havia alguns, mas não tantos quanto encontrei agora. Embora isso faça parte daquela imagem de cidade grande apesar de pequena, certamente que não precisava ter sido feito dessa forma tão radical. Por outro lado, aliviou o trânsito, criou uma paisagem moderna, esses aterros todos, essas áreas abertas na orla da cidade, enfim.

Eu sinto falta de mais eventos, apesar da cultura ter sua importância por aqui, pelo menos tem gente lidando com isso, persiste uma sensação de escassez de opções. Teatro, que é uma coisa importante, aqui acontece muito pouco. De cinema, acho que está bem servida a cidade, mas com o teatro e a música, há uma falta de eventos significativos. Já com a literatura acontece uma coisa interessante, que eu não havia visto nessas outras grandes cidades por onde andei. É claro que Rio e São Paulo têm um movimento em torno da literatura enorme, em relação a Vitória, até gigantesco, mas se for fazer um cálculo per capita, acho que Vitória é capaz de ser a capital brasileira da literatura. A quantidade de livros per capita que são lançados aqui anualmente tenho certeza que bate qualquer centro cultural brasileiro. Morei no Rio de Janeiro muitos anos e não percebia isso. Você via nos jornais notícias de lançamentos de livros, e tal, mas comparando a Vitória, se se fizer um levantamento, aqui deve ser algo absurdo em relação ao resto do Brasil. Você não percebe isso em Porto Alegre, por exemplo, com essa intensidade, nem mesmo em São Paulo. Isso me chamou a atenção.

Os locais de minha preferência? Eu gosto muito de andar pela orla da cidade. Apesar de muito mudada com aterro e tal, acho que, se esquecendo do que era antes, acabou ficando agradável de você andar – seja caminhando (gosto muito de caminhar), seja de bicicleta, ou mesmo de carro, e esse efeito de aterro e urbanização me agradou mais ali em Camburi. A orla de Camburi ficou um lugar muito bom de caminhar, andar de bicicleta. Bom, eu sou do tempo em que não existia Camburi. Quando estive em Vitória anos atrás não existia nada ali, Jardim da Penha, Jardim Camburi, tudo isso era mato. Tinha uma estradinha de terra serpenteando a beirada do mar, não havia as duas pontes, nem a Ayrton Senna nem a outra, a de Camburi. Pra você ir pro aeroporto tinha de pegar a ponte da Passagem, lá por dentro, que era o único acesso. Se quisesse ir à praia de Camburi precisava pegar umas estradinhas de terra pra poder voltar em direção ao mar. Era até muito raro a gente se embrenhar por ali – literalmente se embrenhar. E resulta que aquele lugar ali ficou legal, apesar de muita gente achar que houve muita especulação imobiliária, mas eu achei que ficou legal, uma área bonita da cidade. Ainda gosto de andar pelo centro antigo, subir aquelas ladeiras, a pé ou de carro, aquilo me agrada muito, muito mesmo, acho uma área da cidade muito bonita, um lugar gostoso, mas me preocupa porque não há cuidado com as casas antigas, acredito que dentro de pouco tempo aquilo vai estar mudado, não sei se pra melhor. Acho que pode ficar pior do que se vê hoje. Talvez precise mesmo mexer naquilo, não sei. Mas eu gosto muito do centro antigo da cidade. Gostei também dessa saída de Vitória em direção ao sul, pela Terceira Ponte, achei isso muito legal, bonito, dá uma sensação interessante de primeiro mundo, coisa moderna, coisa nova. Enfim, me sinto muito bem em Vitória.


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