43 anos, natural de Cariacica, onde mora até hoje, é escritor, mas sempre esteve ligado a Vitória, onde trabalha, exatamente no centro da c...

S.L.B., poeta, funcionário público

5/26/2014 , , 0 Comentários


43 anos, natural de Cariacica, onde mora até hoje, é escritor, mas sempre esteve ligado a Vitória, onde trabalha, exatamente no centro da cidade.


– Passei um período em Guarapari, Jardim da Penha e Jucutuquara, mas Vitória é fundamental. A referência que eu tenho é a Cinco Pontes, pois, por morar em Cariacica e frequentar Vitória quase todos os dias, lá é minha referência. Meu primeiro emprego há quase 20 anos, na [livraria] Mandala, descendo o Palácio, sempre usei o ônibus – nunca foi fácil e está cada vez pior. Ônibus lotado, desconforto, tudo isso; engarrafamento, cada vez está piorando. O pior está em voltar pra casa. Você não consegue mais pegar ônibus no Centro de Vitória pra Cariacica. O ônibus passa lotado, é um sofrimento.  Eu tenho gastado com táxi porque ou eu saio às cinco ou quatro horas da tarde ou vou depois das nove, correndo o risco de ser assaltado.

– Gosto de Vitória, de seus teatros, cinemas, sua vida noturna, agora nem tanto, mas o Centro tem sua própria vida. Escuto relatos de violência, mas nunca presenciei nada. Cariacica é mais violenta. Eu volto quase sempre de táxi, mas o táxi é caríssimo – daqui lá pago quase vinte reais, caríssimo.

– Acho o capixaba muito acolhedor. Vejo turistas periodicamente, mas capixaba não sabe informar, não sabe nome de rua. Esteticamente acho o capixaba muito bonito, talvez pelo aspecto da miscigenação. Se você sentar numa praça e ficar observando vai ver um povo muito bonito. As pessoas que vêm de fora comentam isso e eu mesmo faço questão desse prazer de ver homens e mulheres muito bonitos. Preconceitos, raciais, sociais, tem como no resto do país, com suas hipocrisias.

– Por aqui vejo esportes como o remo e o surf como típicos da cidade. Minha imagem de Vitória típica é o triângulo Penedo-Palácio-Catedral. E também as Cinco Pontes, por onde saio e entro na cidade.

– O povo lê pouco por aqui, mas a classe média compra muito livro. Não temos é bibliotecas públicas suficientes, mas elas são bem frequentadas. Sei que as rádios populares têm muito poder de penetração e mudança, como A Gazeta AM. A imprensa escrita ficou em A Gazeta, com a parte política e cultural. A Tribuna é mais policial. Isso não é bom, pois fica muito unilateral. Temos poucos críticos por aqui; tem mais comentaristas, coisa de amigos. A gente acha que tem panelinha por aqui, mas não vejo isso. Os grupos sempre se interagem.

– Tem uma nova geração de intelectuais chegando aí e sempre fomos celeiro de cronistas. Temos Neusa Jordem na literatura infantil, Elton Pinheiro, poeta que também é músico, tem Mara Coradello, que é uma boa cronista, tem Marco Berger, um bom contista, e na música tem Fabiano Araújo, que me impressionou muito, mas o cinema tenho acompanhado pouco, mas tem Gustavo Moraes. Quanto à memória tenho acompanhado o trabalho de Reinaldo Santos Neves, preservando a memória do pai dele, e Luiz Guilherme Santos Neves fazendo literatura em cima da história.

– Não frequento muito festa de rua, mas acho que a cara de Vitória é a procissão de São Pedro, aqueles barcos, e uma coisa que sempre me chamou a atenção é a procissão dos homens [até o Convento da Penha] que eu acho emocionante. Eu nunca participei, mas falo daquela multidão saindo da Catedral, gente de todos os municípios. Interessante que a Procissão dos Homens não é mais a Procissão dos Homens, é a Procissão da Família, vão as mulheres, as esposas, as crianças. A gente pode observar do alto de um prédio de doze andares a multidão saindo, é uma imagem que fica marcada.

– Eu acho que se não tomarem atitudes urgentes quanto ao Centro, a cidade vai virar um deserto, o comércio está fugindo, os órgãos públicos estão se afastando e acho que tem que ser feita essa coisa de revitalização. Só vejo isso no discurso. Existe um fenômeno chamado Shopping Vitória que virou uma nova Vitória. Temos um problema com a droga também, além da prostituição – as prostitutas do Parque Moscoso em sua maioria estão morrendo, tudo por causa do crack, porque o crack é acessível e é barato e mata com rapidez. O crack veio pra aqui porque o Rio de Janeiro não queria esse negócio lá porque era barato. Aí eles vieram pra aqui, tomaram conta daqui, um lugar pra jogar essa bosta. A Prefeitura ainda tem um trabalho com menor de rua, com usuários de droga, com moradores de rua, com a loucura, apesar de que com essa gestão aí ficou muito a desejar, caiu um pouco a atuação, pois ao meu ver é uma administração muito burocrática.

-– Eu acho que a cidade é jovem, vejo apenas pessoas da terceira idade no Centro, no resto não. A cidade tem um trânsito confuso, não dirijo, mas sinto as pessoas barbeiras, tudo é confuso, os motoristas de ônibus são relapsos e, ainda por cima, vejo muito lixo na cidade, ela já foi mais limpa, vejo prédios abandonados. Barata não tenho visto muito, mas deve ter muito à noite. Esta cidade tem a sua poluição, mas não chega a ser uma coisa assim tão visível como outras cidades do Brasil. O cheiro daqui é maresia. Tenho muita vontade de morar em Vitória, exatamente no centrão mesmo. É um dos meus planos. Vitória continua bonita.


29.08.2007


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