A fila do Teatro Glória ia até lá embaixo e ali estavam os ternos brancos, engomados na tinturaria de Chang Ye, muito próprios para o Sábad...

Crônica de guerra

11/25/2015 , , , 0 Comentários


A fila do Teatro Glória ia até lá embaixo e ali estavam os ternos brancos, engomados na tinturaria de Chang Ye, muito próprios para o Sábado, para o cinema que levava a Dama das Camélias, com Greta Garbo. Na fila, os bigodes aparados diante de espelhos lapidados e engastados em guarda-roupas estilo Luís XV, as gravatas com os laços triângulos recém-lançados. Tudo para se encontrar com a noiva e assistir à sessão única das 20 horas — Hoje — sem esquecer-se de comprar a revista O Cruzeiro que chegava na banca de jornais defronte, pouco antes do começo e era muito boa para ler na fila ou na sala de espera. Na rua, de vez em quando, passavam aqueles carros modernos, os jipes, cheios de americanos que usavam roupa shantung, estilo esporte. Oito da noite, em frente ao Teatro Glória, em pleno coração da cidade, diante dos ternos SS 120 engomados, dos bigodes finamente lavrados e das gravatas de laço triângulo, saltavam esses bárbaros alourados, com a barba por fazer e sem gravata. Mas eles tinham jipes, eram americanos, aqueles que estavam lá brigando e que traziam muito dinheiro no bolso. Na Praia, alugavam casas por dez vezes o preço normal, pagavam fortunas às empregadas e comiam galinha todos os dias. Então, a fila olhava mas não tinha coragem de dizer não. Mergulhava na leitura de O Cruzeiro e ignorava. Melhor ver Greta Garbo e voltar tranqüilamente no ônibus das 10 da noite, o último, que demandava às lonjuras da Praia Comprida.

Durante a viagem começava a pensar nos gringos, no jipe e tal. Na noite profunda e calma aparecia o fantasma do por quê. Naturalmente tais dúvidas nada tinham com a inabalável certeza de que os alemães eram o mal e nós éramos o bem. O que se poderia esperar no futuro? Havia aqueles empregos nas casas comerciais, depois do ginásio. Tecidos? Armarinhos? Secos e molhados? Mas percebia que isto já não era muito. Podia ter sido naqueles tempos do Cruz & Sobrinho, da Casa Verde (Você se lembra? Começou varrendo a loja e agora é sócio). Bem, a meta máxima todo mundo sabia: ser escriturário do Banco do Brasil. Mas não era uma meta facilmente alcançável. Afinal, havia sempre aquele obstáculo de saber-se com precisão se uma taxa de desconto aplicada numa duplicata à taxa de 0,003% ao mês, sacada contra e por aí além e que não podia entrar nas cogitações de qualquer um. Para piorar as coisas, a esta altura todo mundo sabia que uma cabana e nosso amor era ótimo para samba-canção mas não funcionava na vida real. De que maneira então sustentar conseqüentemente aquela paixão envolvida em perfume de manacá, hortênsias e gerânios na janela? Como dizia mesmo o poema? “Entre o passado e o porvir aqueles peixes de prata não me deixavam dormir.” Ah, a mulher amada olhando a merencórea luz da lua numa sacada de balaústres torneados e que tentava desencantar pelas serestas que ecoavam nas madrugadas frias. Mas e então? Então era pensar nos submarinos que, na calada da noite, ancoravam na Ponta Formosa, na enseada da Praia do Canto, para abastecer-se. É bem verdade que havia um posto do Terceiro Batalhão na ilha do Boi, com alguns soldados e um bote para fazer a patrulha daquele trecho de águas do Atlântico Sul. Mas receávamos que, de repente, aparecesse aquele periscópio rasgando as águas pelos lados de Tubarão. O melhor mesmo era pegar o alemão e quebrá-lo. E isto foi feito. O alemão que morava na pequena floresta, em cima da Ponta Formosa, e hasteava (testemunhas oculares juravam terem visto) a bandeira com a cruz suástica numa pedra defronte sua casa. Especialmente em dias de feriado e à noite. O alemão sempre tinha sido um médico caridoso? É, mas e aquele negócio de comprar conservas em grande quantidade e carne-seca aos fardos? Para quê? Claro que era para abastecer os submarinos. Por isso, estava certo que apanhasse, que entrasse no quebra-quebra. O bom da guerra é isto. A falta de dúvidas. No tempo de paz as coisas são muito mais complicadas. Na guerra, não. Tudo simples. Há os amigos, os inimigos e basta. Melhor ainda é que aquela gana secreta de destruir tudo passa a ser algo bastante meritório desde que a violência caia em cima dos inimigos. É muito repousante. Na porta do café do Almeidinha, na praça Oito, pela manhã, juntavam-se outra vez os de terno e gravata para discutir os progressos dos Aliados nos vários fronts. Estrategistas de lápis e papel na mão, mapas detalhados, explicavam por que o sistema de pinças, que havia funcionado na Polônia e era uma tática fulminante da Wehrmacht, não estava mais dando resultados na frente russa. Tanto que von Paulus…

Um tempo em que havia o mistério do outro lado da baía. O outro lado era constituído pelos distritos de Argolas, Paul, Porto Velho e Capuaba. Sabia-se que por ali trabalhavam engenheiros brasileiros, americanos e ingleses, todos vestidos de shantung (um tecido muito mais distinto que o caroá, largamente utilizado pelos nacionais) e alguns com chapéus de cortiça. Trabalhavam para o esforço de guerra — dizia-se. Os trens chegavam carregados de minério de ferro, vindo de Minas Gerais, que era transportado de caminhão para Vitória. Depois, esse minério iria carregar os porões dos navios ancorados no cais da praça Oito. Enquanto os navios ficavam carregando, as tripulações bebiam até cair nas calçadas defronte aos bares e botecos que ficavam por ali, onde hoje fica o Edifício das Repartições.

O outro lado não fazia parte da cidade. Aqueles engenheiros, técnicos e outras figuras indefiníveis entravam numa perua velha que ia apanhá-los em casa e os transportava diretamente para o outro lado, um lugar crivado de apitos de trens, de lanchas que cruzavam a baía afanosamente, de navios que pareciam tigres velhos com suas camuflagens desbotadas. O pessoal do outro lado jamais vinha até o café do Almeidinha para bater papo. Tratava-se de um pessoal muito esquisito.

A guerra como remédio contra o tédio. O futebol dos desesperados. Os motivos econômicos? A fome? A inflação e a ambição? A vontade de poder? Tais coisas podem dar um bom coquetel teórico mas na atmosfera de 42/45 isso era difícil de perceber.

Mr. Shell só pôde ser decifrado muito tempo depois. Mr. Shell, um engenheiro de minas norte-americano, natural do Maine, que inspecionava jazidas de cristal de rocha nos municípios de Santa Teresa, Itaguaçu, por aí. Cristal que ia servir para a fabricação de aparelhos eletrônicos e óticos, essenciais para o arsenal da democracia. Mr. Shell sentava na mesa e enquanto mastigava inumeráveis biscoitos cream-crackers ficava anotando números num caderno preto com um lápis bem fininho. Os olhos de Mr. Shell se amendoavam exageradamente através de grossas lentes de uns óculos de aros de ouro e observavam a pedreira próxima durante muito tempo. Em que Mr. Shell pensava? Um cavalo para trabalhar, diziam todos. Trepava naquele jipe enlameado e entrava em tudo quanto é grota de fim de mundo. Suava muito e estava sempre passando um lenço azul na testa.

Num dia de ensaio geral de black-out, enquanto a cidade estava toda escura e um avião teco-teco ia avisando pelo rádio os pontos onde havia luzes acesas — apaguem as luzes, apaguem as luzes. Este é um exercício de defesa aérea — encontrei Mr. Shell fumando na janela e lhe perguntei se aquilo estava mesmo parecido com uma noite de guerra. Mr. Shell me olhou bem sério e, naquele seu português todo embrulhado, me explicou que não podia saber porque nunca havia estado num lugar onde tivesse havido guerra. Não tinha a menor idéia. Talvez para me consolar, completou dizendo que achava que era assim mesmo. Estava parecido sim. E não disse mais nada. Ou melhor, começou a falar no Maine. Mas aquilo não interessava porque a declaração de Mr. Shell era uma bomba. No íntimo, tinha quase a certeza de que Mr. Shell era um herói de tremendas batalhas e que tinha brigado como o diabo. Cheguei a perguntar a meu tio se Mr. Shell não estava blefando, mas meu tio disse que não. Pelo que sabia, ele estava dizendo a verdade. Depois disso, comecei a ver em Mr. Shell apenas um sujeito com mania de comer cream-crackers e muito chateado porque estava longe de casa, de sua família, cujo retrato trazia numa carteira de dinheiro. Só isso. Um homem triste e para quem o fascinante jogo da guerra não podia rivalizar com uma boa pescaria nos ribeirões do Maine.

“Você precisa comprar bônus de guerra”, gritava o cartaz onde aparecia um soldado apontando com um dedo indicador. Um cartaz pregado em todos os botequins, escolas, vales e quebradas. “En la vereda tropical, la noche calida de quietud”… e lá vão pela sala deslizante graças à raspa de vela jogada no soalho antes de começar o baile. À medida que deslizam, a luz dos spot-lights bate nos cabelos repartidos de lado e fixados com grossas camadas de brilhantina Colgate. Na vereda tropical, palmeiras e um vento soprando enquanto o sol de fogo cai dentro do mar.

Em 1942/45 explodiam nomes como Tarawa, Ilha Wake, Guadalcanal, Batan e outros. Mas a existência desses nomes estava condicionada às “Atualidades Paramount”, complemento apresentado antes do filme principal. Sombras sobre a tela falando de heroísmo e morte. Na realidade, apenas um digestivo programa dominical, duramente cavado através de tostões arrecadados durante a semana. Porque na semana, o que havia, de fato, era um outro mundo mágico que nascia debaixo da ponte da Vila Rubim e ia até o Parque Moscoso. Dentro desse mundo, a selva úmida do mercado com suas hortaliças molhadas e vicejantes e as canoas descendo do rio Santa Maria carregadas de lenha e de sacos de cereais, movidas por remadores que cantavam alguma coisa que jamais soube do que se tratava. Era no clube? Ou não? Uma dúvida que também jamais foi possível esclarecer. Mas o que estava no meio da curva da rua perpendicular a uma escadaria, cujo nome se perde na fumaça azulada produzida pela cozinha que funcionava sem parar, o que lá estava era bastante real. Um casarão amarelo e comprido onde nas noites de sábado muitos personagens mágicos dançavam. Aliás, não apenas dançavam como também fornicavam. Quanto a isto não havia a menor dúvida, eis que pelas frestas largas das janelas laterais ao salão de baile podia-se constatar o fato. E o fato era um casal se abraçando e beijando na penumbra de uma luz roxa. Imensos lábios vermelhos de uma bonita mulher de vestido estampado com flores amarelas e que era feito de modo a revelar pernas muito bem e não somente pernas muito bem mas bem. Não. Impossível dizer, porque aquilo estava completamente fora de qualquer coisa que pudesse ser dita. Longe de Tarawa, longe de Sebastopol, um casal se amava enquanto um trombone desenhava um blues na noite engolfada por um desejo gigantesco, maior e mais alto do que aqueles prédios que se perdiam na neblina pousada no morro fronteiro. Ilhado em sua pouca idade, fervendo de inquietação, continuava a observar aquelas mulheres super-adornadas de colares, sapatos altos e bocas ultra-encarnadas, entrando e saindo pela porta do clube ou do que fosse. Não podia esquecer-se de todas aquelas possibilidades que lhe escorriam das mãos como água, logo elas que estavam ao alcance dos seus braços. Como podia ser aquilo? Partir e brigar na rua. Sabia que se tratava de uma perfeita imbecilidade essa de ficar trocando murros com os outros moleques enquanto tantas outras coisas importantes aconteciam. Mas o que podia fazer? Era um tempo de Arqueiro Verde, Victor Jory e outros heróis da tela e então era preciso que houvesse a “Turma do Quadro” e a “Turma da Rua de Baixo”, inimigas de morte. Da mesma maneira como existiam o Eixo e os Aliados, os bandidos e o Arqueiro Verde. Vagamente percebia o ridículo da situação. Mas os companheiros atiçavam e embora quase sempre o evitasse, já que brigar nunca tinha sido realmente o seu forte, brigava por necessidade. Mas nunca suportou. Sendo inevitável, apanhava e batia. Para nada. La sangre.

Uma realidade suja no Bar Lopes, ali embaixo na esquina, no prédio de cimento armado, cinzento e penumbroso. Suja? A memória falha, embora fique a certeza de que algo muito desagradável aconteceu ali perto. Os fregueses? Talvez, em parte. Soldados de polícia, bêbados armando uma briga feia onde despontavam os cassetetes. Copos voando. Barulho de vidro quebrado. Mas é difícil estabelecer agora uma ligação entre esse bar e a sensação desagradável, muito forte. Há uma vasta pedra no meio do caminho. A lembrança do tiro que saiu daquele bar e foi bater no marco da janela onde dormia. Inútil porque me escapa o principal. Há prostitutas bebendo cachaça, um mendigo deitado na calçada e o vendedor de milho assado soprando aquele fogo pela noite a dentro. O bar fica próximo do Clube Stá Cruel donde vem o barulho de tambores que abafam o som longínquo de um pistom. Mergulhado na selva tropical, espreito com meus pobres olhos os inimigos que deslizam nas sombras. Um animal na toca e que não ousa colocar nem a cabeça de fora, porque senão lá vem o grito pavoroso: “Alemão, quinta-coluna!!!” Explicar que não sou alemão nem nada? Que aqueles meus cabelos louros, embora possam efetivamente causar confusão, não são de nenhum alemão desgraçado? Explicar que meu pai, lá em Campinho, coleciona a revista Netuno e todos estamos torcendo pelos Aliados?

Mas um bicho não pode ficar na toca o tempo todo. Como todo bicho, precisa sair para buscar alimento e beber água e, no meu caso, a obrigação de apanhar o terno branco de meu tio no Chang Ye. Então, os outros bichos, na selva tropical, “en la vereda tropical”, me cercam. São cinco ou seis que me tapam a passagem, a mim que estou com o terno branco nos braços, embrulhado num papel manilha verde. “Alemão quinta-coluna!!!” – dizem eles. Porém há um mínimo de honra na jungle porque agora apenas um deles se destaca do grupo e vem para perto do centro onde estou rodeado pelos outros. Querem dizer que o insulto pertence ao grupo mas o grupo não é covarde para atacar todo junto. Tenho vontade de pedir por que estão me insultando, por quê? Tinha a certeza de que não havia nunca insultado a nenhum deles, etc. Ou que não era nada disso, porque eu nem mesmo era alemão, embora parecesse, etc. A prova era que meu pai colecionava a revista Netuno, onde desfilavam os soldados indianos, aqueles com um pano enrolado na cabeça e que tinham um nome muito complicado. Mas já me parecia bastante claro que ninguém estava interessado em explicações. E isto porque, garotos como eu, tinham descoberto o fascinante jogo da guerra. O inimigo é o mal e é preciso extirpar seja a que preço for. Se os grandes faziam o jogo, não podiam estragar a brincadeira com muitas explicações. As explicações podiam estragar tudo. Ninguém lhes tiraria aquela oportunidade de lutar pela democracia. E ali estava o inimigo, um alemão desgraçado com um terno branco embrulhado num papel manilha verde e mostrando visíveis sinais de medo. A vitória do bem sobre o mal começava a se desenhar. O que havia se destacado do grupo, um menino esguio e ágil e que parecia alto como uma torre, chegou-se para mais perto e deu-me um empurrão que me desequilibrou e quase me fez cair. Era agora ou nunca. Sei perfeitamente a origem de uma revolta gigantesca contra a injustiça. Sei perfeitamente. É alguma coisa que nasce um pouco acima do estômago e vem subindo devagar mas com uma marcha inexorável. E essa coisa é um negócio de poder indestrutível. É um escudo de ferro misturado com lanças de aço, sei lá, uma coisa muito terrível. Pedi licença para passar com o terno, que depositei em cima do muro de pedra que ficava ao lado, voltei para dentro do círculo onde o outro me esperava com os punhos no ar. Tudo aconteceu rapidamente. Ao mesmo tempo em que ele me acertava um murro em cima do peito, que começou a doer e arder muito, acertei-lhe um soco em cima de seu olho direito, que abriu imediatamente uma brecha de onde passou a escorrer muito sangue. O outro começou a gritar como um desesperado, o resto da turma se dispersou e eu, apavorado, apanhei o terno de cima do muro e fui correndo para casa, para minha toca. Joguei o terno rapidamente sobre uma cama e fui sentar-me na mesa onde meus tios jantavam. Vejo com nitidez a posta de peixe frito que minha avó colocou no meu prato enquanto eu tremia. Perguntaram duas coisas: por que estava tremendo e por que aqueles gritos vindos da rua. Disse que estava tremendo de frio e quanto aos gritos não sabia o que era. Um grande medo de abrir outra frente dentro de minha própria toca. Ninguém desconfiou e então comecei a sentir uma estranha sensação de poder, enquanto engolia o peixe frito com arroz. Já tinha visto até em filme, mas nunca podia imaginar que era tão fácil. Olhava para meus braços e mãos como se fosse pela primeira vez, quase não podendo acreditar no que haviam feito. Um sentimento de poder nascido de um sentimento de injustiça, embora os outros estivessem convencidos de que fora apenas uma derrota da democracia, uma vitória do mal, da injustiça, portanto. Ali, eu pensava mais tarde, estava a matéria-prima da guerra. Alguma coisa agarrada no próprio coração do homem.

[Transcrito de Crônicas de Roberto Mazzini, SPDC/Ufes, 1995.]

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Ivan Anacleto Lorenzoni Borgo é cronista e nasceu em Castelo, ES, em 21 de fevereiro de 1929. Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Espírito Santo (Ufes), com especialização em Economia pelo Conselho Nacional de Economia em convênio com o MEC. Foi professor da Ufes de 1961 a 1989 e diretor regional do Senai/ES de 1969 a 1990. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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