UNIVERSO PESSOAL E INÍCIO DE CARREIRA 1. Descreva sua infância e vida escolar Nasci e me criei em Besançon (França) — na região chamada...

Depoimento de Gilbert Chaudanne ao Neples

UNIVERSO PESSOAL E INÍCIO DE CARREIRA


1. Descreva sua infância e vida escolar

Nasci e me criei em Besançon (França) — na região chamada Franco-Condado, cidade de pensadores e escritores (Victor Hugo, Proudhon, Fourier) — Besançon é antiquíssima, já existia no império romano (Vesutio). Meu bairro era o bairro popular tipo Vila Rubim, com imigrantes (italianos, espanhóis, portugueses, árabes), muitos botequins e uma prostituição moderada. O bairro é medieval, barroco, renascentista e há até as antigas arenas do circo romano onde eu ia jogar futebol. Há também, onipresentes, as fortificações de Vauban (séc. XVII) que marcam o bairro com seu espírito de geometria estrelada. Bairro labirinto com os atalhos debaixo das casas como túneis quase esotéricos, tem o nome regional de “Trage”.

Meu prédio é uma antiga sinagoga e sempre achei que o corredor de entrada tinha algo “oriental”; o bairro era dedicado a Baco-Dioniso; ainda tem a praça “Bacchus” com um chafariz que infelizmente só verte água. — Uma das ruas que cerca meu prédio se chama de “Rue de Vignier”, essa última palavra certamente vindo de “vigne”, porque até o século passado [XIX] eram cultivadas muitas vinhas nesse bairro e em Besançon em geral.

Minha infância foi assim ninada por este doce labirinto, de uma certa maneira “haut en couleur” e cosmopolita. Eu me deslocava no meio de várias culturas (árabe, latina, francesa) sem problema, sendo aceito por todos como criança fácil de conviver.

O contraponto era uma casinha, perto de Besançon, que meus pais tinham numa colina. Lá os jogos continuavam = uma guerra de meninos nos murgers (amontoados de pedras retiradas do solo para cultivar a vinha). Esses murgers continham antigas casas talvez gaulesas e com meu irmão nós tentamos resgatá-las brincando de arqueólogos. Construíamos também “camps”, espécie de casinhas de pedras e folhagem. Tinha um lugar chamado “Bout du monde”, fim do mundo — e eu imaginava uma parede imensa debaixo dos meus pés (como as muralhas de Vauban) — e além nada: o azul do céu em cima, em frente, em baixo. Tudo isso era talvez meu imaginário.

Mas havia a escola. E eu era o aluno modelo, sempre no primeiro ou segundo lugar, muito disciplinado, e a disciplina na França não é mole não. No liceu (até 18 anos) continuei meu caminho glorioso (4 vezes prêmio de excelência em 7 anos) — disciplinado e apaixonado pelas ciências e matemáticas, mas praticando a pintura e o desenho desde os 13 anos de idade e a escrita a partir dos 17. — Uma infância feliz, onírica — sim — uma adolescência desesperada: o surgimento da consciência e a ausência de um apoio adulto — apesar de uma admiração generosa para certos professores.

Aos 12-13 anos eu tinha o que eu chamava de “crises filosóficas”. De repente o mundo cotidiano parecia se abrir, como uma fenda, e me colocava em contato com uma espécie de outro mundo sem que esse fosse um mundo sobrenatural. Era algo como Sartre o descreveu na Nausée. E os adultos viam isto como anormalidade — o que me magoava muito e me levou à revolta.

A universidade foi traumática porque eu estava perdido num rebanho imenso, enquanto no liceu eram turmas pequenas onde tinha um certo aconchego e uma certa crueldade também. Minha revolta foi crescendo, passou por 68 e foi na direção da Índia. Abandonei os estudos e viajei. Fim das escolas —


2. Que lembranças guarda da sua cidade natal e ou das outras cidades onde viveu?

Acho que já respondi à primeira parte da pergunta.

As cidades onde eu vivi: Marselha, Berlim, Vientiane (Laos), Natal, São Luís, Teresina, Lisboa.

Berlim me marcou bastante: em 1971, era a época do Muro da Vergonha e a situação ilhada de Berlim ocidental, essa situação excepcional me agradava justamente porque era excepcional. — Berlim também simbolizava a capital das Brumas metafísicas e germano-nórdicas em oposição ao sul mediterrâneo luminoso. — Cor: cinza e azul da Prússia.

Vientiane: na época da guerra do Vietnam, com suas polícias múltiplas, o Rei, o Triângulo de Ouro ao alcance da mão. A queda da monarquia e uma cidade-jardim, doce, estendida ao lado do Rio Mekong. — Cor verde e mel.

Lisboa: capital da Europa para mim / — um filme de Alain Tanner: “La ville blanche” (a cidade branca) retrata bem Lisboa. Talvez essa presença do labirinto (como o do meu bairro) e sempre fui mais atraído pelos povos do sul da Europa ou da Ásia, América latina, e África que pelos germanos-nórdicos anglo-saxônicos. (Austrália e América do Norte não me interessam): Cor azul e branco.

Natal: uma cidade que era uma etapa da minha busca da cidade absoluta e absolutamente aconchegante. Cor: azul.

São Luís: magnífico poema sujo. Cor marrom e creme.

Teresina: uma aparente ausência de elegância, comparando com São Luís e Natal — porém convivendo mais uma presença de quintal, um rosto escondido. Cor: Teresina é chamada cidade verde, mas para mim ela é bege.


3. Como começou sua atividade literária? Recebeu orientação ou incentivo de professores ou ainda de outras pessoas?

Comecei a escrever aos 17 anos, no verão, depois de ter lido Assim falava Zaratustra. Nunca mostrei para ninguém até minha primeira publicação em 1973, oito anos depois.

Trabalho só, não peço opinião, somente depois que o texto é publicado. No fundo, não duvido do valor do que escrevo.

4. Quais foram suas primeiras leituras e primeiras produções literárias?

Primeiras leituras: Edgar Allan Poe, Nietzsche, Dostoievsky, Conan Doyle, Anatole France.

Primeiras produções literárias: um texto poético-filosófico aos 17 anos lembrando Nietzsche, e depois poemas que podem lembrar Verlaine, Hugo, Mallarmé, apesar denão gostar desses autores e de conhecê-los muito pouco.

O ESCRITOR E SEU OFÍCIO

5. Quais os temas principais abordados em sua obra? Que função predominante atribui à sua literatura?

Os temas: a revolta (hoje desapareceu), a viagem, o Amor, o espírito do lugar, a história. Acho que a literatura não tem função nenhuma, ela é gratuita e está ali como uma pedra ou uma flor. Ela está e isto basta.

6. Quando começa a escrever, o enredo já está definido ou se desenvolve e se altera à medida que vai escrevendo? Delineia os capítulos e planeja toda a estrutura antecipadamente?

Minha maneira de escrever é pulsional: obedece ao meu “inconsciente”, melhor: confio nele e não na minha razão porque essa tem suas razões que não são as da escrita. A obra é sempre epifânica e não é uma construção, um projeto. Às vezes posso ter um projeto mas em geral ele termina sendo traído. Talvez existam outros tipos de temperamentos literários: os machadianos, o escriba, os que relatam e ordenam, o meu temperamento literário é dionisíaco: acredito no delírio. No delírio autêntico.

7. Até que ponto seus personagens se baseiam em pessoas reais, inclusive em você mesmo? Como você escolhe o nome dos personagens?

Eu não crio muitos personagens mas quando há alguns acho que como em Proust eles são a síntese de várias pessoas reais porém com algo a mais que faz que o personagem se torne arquétipo. Ex.: Dom Quixote. O meu eu narrador é um outro eu que talvez nem me pertence.

Os nomes dos personagens (quando tem) são escolhidos instintivamente, o nome surge um dia com uma nitidez incontornável.

8. Do ponto de vista da técnica, quais os escritores que mais admira e de quem sofreu influência?

Artaud, Lautréamont, Augusto dos Anjos, Audífax de Amorim, Marguerite Duras, Amylton de Almeida, Dostoievsky, Camus, Nietzsche, T. S. Eliot, Auden, Wallace Stevens, Hopkins, Rimbaud, Ferlinghetti, Kerouac, Laforgue, Rabelais, Céline.

Quem me reconciliou com a literatura (que eu odiava apesar de escrever) — foi Artaud e Lautréamont porque seus estilos fogem das artimanhas, do coquetismo, do preciosismo e da ausência de generosidade que esteriliza a literatura francesa.

9. De que modo descreveria seu estilo?

Atualmente um estilo neobarroco e às vezes meio cubista, barroco porque não tem medo do chamado mau gosto, das repetições e das cacofonias, cubista porque justapõe frases ou elementos de frases que aparentemente não têm uma relação lógica mas apenas espacial.

10. Faz uso de intertextos, analogias, referências, citações?

Sim, às vezes até inconsciente e às vezes eu reutilizo uma frase, o refrão, ou personagem de um outro livro meu.

11. Faz uso do diálogo interior?

Sim, mas raramente.

12. Faz uso da linguagem popular?

Sim, mas não de uma maneira contínua, ela convive com outros tipos de linguagem como a linguagem erudita, ou línguas estrangeiras.

13. Sente-se mais à vontade numa narrativa na primeira ou na terceira pessoa?

Em geral, na primeira, mas eu admiro os escritores que criam um personagem que termina existindo mais que o autor, como Don Juan ou Dom Quixote; Le Grande Meaulnes.

14. Com que regularidade escreve?

Todo mês, escrevo um ensaio para a revista Você e participo de outras revistas mineiras, piauienses e francesas. Eu posso ter uma periodicidade no tipo ensaio não na poesia ou escrita a caráter poético como A passagem de Marina. — Gosto de escrever cartas: é um bom exercício como a barra para a bailarina.

15. Reescreve seus textos, cortando, acrescentando, alterando?

Em geral não. Há o primeiro “jato”, no máximo depois passo a limpo corrigindo apenas detalhes. Mas às vezes escrevo uns dois ou três textos que não me satisfazem, até chegar no que eu gosto. Mas a maioria das vezes é o primeiro “jato”.

16. Qual é sua relação, como escritor, com a língua portuguesa?

Sendo de língua francesa minha relação talvez é mais complicada. Tenho a impressão de ser um eterno Cabral lingüístico já que eu nunca termino de redescobrir a língua brasileira. Isto é uma espécie de nova inocência que acho fecunda para a escrita já que há de ter essa relação lúdica com a linguagem para poder escrever.

O LEITOR E A LITERATURA

17. Faz concessões ao leitor nos seus textos?

Não.

18. Que acha da função da crítica literária?

Condená-la é um romantismo adolescente.

Fazer sua apologia é uma mumificação perigosa do saber.

Acredito numa crítica que é ao mesmo tempo pensamento e criação. O tipo é Roland Barthes. Cuidado com a superinterpretação que é o delírio das críticas sociológicas ou psicanalíticas ou ideológicas.

19. Qual sua opinião sobre o futuro do romance, da poesia, do teatro?

Para ter futuro teria talvez que ter presente, e a literatura boa é tão pouco lida hoje que não me preocupo com o futuro mas com a situação meio catastrófica que é a de hoje.

20. Que tem a dizer sobre os autores do Espírito Santo?

Eu descobri aqui talentos que vão se projetar nacionalmente e internacionalmente: como Amylton de Almeida, Audífax de Amorim, Reinaldo Santos Neves, Renato Pacheco. Ao que me parece há duas tendências, uma escrita erudita ou neoerudita que é a dos autores citados e outra mais descompromissada com o passado como Flavio Sarlo ou Wilson Coêlho (“a palavra criatura”).

É possível estabelecer uma identidade literária capixaba? Escrevi na revista Você um texto sobre a identidade capixaba. [Vide na seção Textos/Identidade da ESTAÇÃO CAPIXABA] É de fato um estudo sobre um possível imaginário capixaba e era destacado um certo “efeito mosaico”, uma fragmentação devido às várias culturas encontradas no estado. Na literatura parece que a fragmentação é apenas literatura erudita-trabalhada / literatura coloquial-espontânea. O tema da Terra Natal (Canaã, romance das imigrações etc.) existe mas não é isto que cria uma identidade no plano da escrita e do espírito do lugar. Neste último caso me parece que o desencanto de Amylton de Almeida, o ceticismo irônico de Reinaldo Santos Neves, uma certa distanciação apurada nos poemas de Renato Pacheco, poderiam ser uma vertente de sensibilidade literária capixaba atual: distanciação. De uma outra maneira, um certo telurismo de José Irmo Gonring, a busca da casa “habitável” aqui e agora de Roberto Almada, o espontaneísmo de Flavio Sarlo, compõem uma outra vertente da aceitação do aqui e agora. Um sim que se opõe à distanciação dos autores citados no primeiro caso.

Acho que a cidade de Vitória (Carmélia M. de Souza, Amylton de Almeida, Reinaldo Santos Neves) tem um papel talvez à parte e que ela não aparece como cidade neotropicalista ou machadiana mas como cidade existencialista.

21. O que teria a dizer aos escritores iniciantes?

Escreve.

[1996]


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Gilbert Chaudanne é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Estação Capixaba

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