Cada qual tem seu Vesúvio, ...

Poemas do livro inédito Os ossos da baleia



                                                               Cada qual tem seu Vesúvio,
                                                                                   seu desterro,
                                                         e uma gleba nas nuvens…


Poema justo

Para Reinaldo Santos Neves



Não fechar a frase, não.
Deixar a palavra ao relento.

Miguel Marvilla


Raspar as sobras
da imagem – nata,
gordura –
o escorregadio da margem.
O liso da casca.
A paisagem.
Da palavra – o inesperado;
a calda – rasgos e fendas.
Na vastidão – passagem.

Rever imendas.
Acumular entulhos –
vazios.

Cobrir de aragem.

Recolher do baixio
memórias
aboios
arrelias.

Desviar das têmporas
o estampido –
tiro –
peleja de louco.

Repousar no estio.
Aconchego – relento.
Remover farpas –
asperezas – ao vento.

Lambuzar com visgo –
isca – voragem.

Revolver o leitor
no espaço-tempo.
Disparar a contagem.

No continente dos olhos
despertar do torpor…
A linguagem.



Entranhas

A mínima distância
já é um desencontro.

(Vestia seu corpo
com as rendas da íris…)

Restam noites de dilatadas pupilas
a vasculhar indícios do derradeiro gozo.

No horizonte dos lençóis,
a sombra da silhueta persiste.

Como persistem os miasmas
dos pés enlaçados.

Só miragem na depressão do leito
e um entorno de sombras devassas.


Penhor

Dezessete anos…
Essa distância
não se mede pelo quanto de terra
que cobre teus restos,
teus sonhos…

Tua sombra não tem o gosto
que meu paladar deseja.
Não lambi o granito preto
de teu túmulo,

mas sinto o gosto de cera,
que não me satisfaz – pois não
é teu gosto.
Por isso não te visito.
Meus filhos não te visitam.
Se eu morresse hoje
e decidisse pelas cinzas,
ficarias perdido na última
alameda, à esquerda da figueira.


Nem teu relógio de ouro me serve.
Fosse de couro a pulseira,
eu a lamberia
e ficaria refestelado
com o sal de teu suor.

Massa

Para Felipe Stefani


Para uns,
ruínas – degredo.
Para outros,
planície Divina,
colinas de nuvens.
Banido pela consciência,
permaneço – altivo.
Massa amorfa
entre os dejetos
do Universo.


Encosta do Mundo

Para Hilton Valeriano


Na encosta do mundo
um acaso de pedras
precipita-se
sobre um mar inaudito.

Nela, as ondas batem
desfazendo precipícios.

Existisse o homem ali,
retornaria aos mitos
ou se lançaria ao mar.

Mas findaram-se
os séculos das navegações,
e pereceram,
à força do fogo de canhões,
as últimas cidadelas.

Na encosta do mundo
o que se perde
não se conta como tempo.

A encosta do mundo
se preserva em uma dimensão
refutada pelo homem.


Um facho de luz sobre a sombra

O que se dispersa além dos olhos
diz do vacilo de não se  ter sorvido o tempo.

Estarei na ultima idade.
Quando ruir a biblioteca
não restará mais nada.
Sem nenhum escrúpulo
estarei a mijar nas calças
todas as cervejas
que pensei esquecidas.
Aprenderei que não só a memória
mas também a bexiga dos velhos
despejam seus guardados…
E, como ancião,
terei em meus ouvidos
um ruído agudo
a dizer da morte …
(Esse crepúsculo atravessado na garganta.)
Mas minha memória recente,
sempre desatenta,
privilegiará as flautas de antanho,
olvidando a impertinência
dos últimos segundos.
Saberei que retive com primor
uma certa dignidade burguesa,
execrada nos versos.
Em minha face retalhada
será definitivo
o rendado da ironia.
Recearei de alguns saberes, sem dúvida.
Mas um cristão tardio
espero não ser.
Lembrar: não fechar o ciclo
previsível de tantos homens.
Não me permitir,
ao menos, essa contradição.



70 metros *

Na perspectiva da ponte
O pássaro solitário não volta.

Bom sentar aqui…
Gera um desvio do olhar,
um torcicolo súbito
diante da emanação do absurdo.
Ver do alto a evolução das águas:
sem o murmúrio
do bocejo das ondas,
sem o grito ruidoso do
rasgar do mar.

Imagino os que trafegam às minhas costas …
Nas gaiolas de metal,
guardam as intenções dos gestos.
Que assim fiquem – distantes!
Cada despedida vale pela nudez dos corpos;
o íntimo dos olhos.
E o momento não pede tal intimidade…

(A Penha ergue-se sobre todas as coisas…)

Minha mãe guardou meus cachos de anjo,
cortados,
abençoados…
Mas os anjos são lívidos
demais para serem humanos…

(A eternidade é uma metáfora que já não me ilude.)

Lá embaixo,
no Oceano de pedra,
reside o fim da angustia essencial,
desmantela-se a Lei suprema.

(Que homem ruidoso medrou minha carne?)

Sou a coisa dispersa.
A busca do indefinido.
Muito me interessam os fósseis,
extensos campos de poemas fósseis,
desimpregnados de nomes…
As palavras curtas;
o anzol justo na boca da morte.
Nesse beiral, ancoram-se cruzes,
Destroem-se firmamentos.
Sacia-se a fome de ossos
dos Oceanos.

Uma grande composição nua de gestos.
Eis a porção relativa da insignificância humana.

Mas, por ora,
enxugue as lágrimas leitor.
Não se trata da vida do poeta.
Por mais que insista
a vida é mais irônica
ainda que as palavras.


*70 metros é a altitude do vão central da Terceira Ponte que liga a cidade de Vitória à Vila Velha.


Jorge Elias Neto (1964) é capixaba, cardiologista e poeta residente em Vitória – ES. Tem vários livros publicados é colaborador em vários blogs e revistas literárias.
(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Estação Capixaba

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