Pescador da Praia da Costa, Vila Velha, ES Entrevistador: Fernanda de Souza Data da entrevista: 10/03/2014 Local / data de nasciment...

Entrevistado: Aldivo Alves de Sousa



Pescador da Praia da Costa, Vila Velha, ES
Entrevistador: Fernanda de Souza
Data da entrevista: 10/03/2014

Local / data de nascimento: Santa Maria do Suaçuí, MG / 25/09/1956
Nome do pai: Alexandre Alves de Souza, lavrador
Nome da mãe: Ana Alves Ferreira, lavradora
Estado civil: Casado com três filhos

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[Conta como foi sua infância e adolescência?]

Eu morava no interior, na roça, e minha infância era fazer roçada, capinar, apanhar café e carregar sacas de café nas costas. Essa foi a minha infância. Depois eu vim para a cidade, e vai fazer 25 anos que eu vim para cá.

[Qual era o seu divertimento?]

O divertimento era só jogar bola e bolinha de gude, era só aos domingos. Durante a semana era trabalhando.

[Com quantos anos começou a trabalhar na roça?]

Comecei a trabalhar na roça com sete anos. Eu capinava, apanhava café, carregava sacas de café nas costas e lavava o café.

[Você estudou?]

Estudei até a 4ª série.

[Onde você nasceu?]

Nasci em Santa Maria de Suaçuí de Minas, e lá fiquei até os seis anos de idade. Depois vim para Colatina. Em Colatina fiquei até os 38 anos de idade trabalhando na roça, quando vim para Vila Velha.

[Seus pais trabalhavam com pesca?]

Não. Eles trabalhavam na roça, capinavam, apanhavam café. A roça não era nossa. Nós trabalhávamos como meeiros, dividindo o café. Também plantávamos feijão e arroz.

[Como você teve contato com a pesca?]

Foi quando eu mudei para Vila Velha. Não tinha outra coisa para fazer. Se eu fosse trabalhar eu iria ganhar muito pouquinho, aí eu comecei a pescar.

[Com quantos anos você começou a pescar?]

Isso foi há uns 15 anos, eu estava com 42 anos de idade.

[Quem te ensinou a pescar?]

Eu aprendi sozinho e ajudando outros. Depois comprei meu barco a motor e as minhas coisas. A primeira pessoa que me ensinou a remar foi o gaúcho, o Gaé, e foi aqui na Praia da Costa. Fiquei uns quatro anos como ajudante e depois comprei meu barco.

[Como era a pesca antigamente?]

Era muito melhor, hoje está ruim porque tem muito pouco peixe.

[Quais eram os tipos de peixe que se pescava antigamente?]

Era pescadinha, bagre, baiacu e tirava sururu também. Até hoje tiramos sururu. Em quantidade também era muito melhor do que hoje.

[Faça uma comparação como era antigamente e hoje em dia]

Hoje está péssimo. É muito pouco peixe. Hoje nesse período só pegamos pescadinha e assim mesmo pouca. Eu pego por dia, mais ou menos, 10, 15, 20kg. Antigamente pegava 50, 60kg.

[Em que época dá pescadinha?]

Ela começa em novembro, dezembro, janeiro e fevereiro. Agora em março ela acaba. Nos outros meses pescamos baiacu, que começa no mês de maio, junho, julho e agosto. Depois, volta a pescadinha de novo, se ela voltar né? Basicamente é baiacu, pescadinha e o sururu.

[Atualmente a pesca é a sua única fonte de renda?]

Sim, eu só trabalho com a pesca e vivo da pesca.

[Como é a sua rotina como pescador?]

Eu acordo às 3:30h da manhã todo santo dia. Tomo meu café e venho para a praia. Preparo e trago um lanchinho com biscoito e suco.

[Como você vem para a praia?]

Venho de carro, mas às vezes eu venho de bicicleta. De bicicleta gasto quinze minutos, e de carro gasto uns oito minutos. É bem pertinho.

[A que horas chega aqui na praia?]

Costumo chegar à praia por volta das 4:30h da manhã e carrego minhas coisas para o barco. Coloco gasolina no tanque e vou embora pescar.

[Você pesca todos os dias?]

Venho pescar todos os dias, exceto aos domingos.

[Tem algum motivo que faça você não ir pescar?]

Só se tiver vento sul, aí eu não vou. Se o mar estiver alto, com ondas altas, nós não vamos. Ninguém vai. É muito perigoso, pois o mar fica muito agitado.

[Você sabe dessas condições de sair para pescar antes de sair de casa ou quando você chega à praia?]

Eu sei antes: acordo e olho o tempo. Mas eu venho de qualquer forma, mesmo que eu não vá pescar eu venho para ficar batendo papo com os amigos.

[Como você faz sua preparação para sair com seu barco?]

Tenho que colocar a garatéia, que é uma âncora, o remo, uma almofadinha para sentar, anzóis e iscas.

[Fale sobre os anzóis?]

Eu levo muitos anzóis. São dois tipos de linhas, de 100 e 60. Eu levo uns 200 m de linha de cada uma. O material de pesca eu compro na Casa Marlim. Os anzóis são grandes de nº 9 e de nº 10. Uns são galvanizados e outros são de ferro.

[Tem diferença de anzóis para cada tipo de peixe?]

Sim, para pescadinha usamos o de nº 9 e nº 10. Para os outros peixes são outros tipos de anzóis.

[Qual isca você usa?]

Geralmente uso tainha. Mas eu não compro aqui na praia, compro em outro lugar.

[Quanto tempo o senhor leva daqui até ao seu ponto de pesca?]

Levo uns trinta minutos. Vou de barco a motor e fico mais ou menos umas seis horas. Cheguei lá eram 6h e saí de lá agora.

[Ao chegar o que o senhor faz?]

Carrego o peixe para cima (para a praia), também puxo o barco para cima, descarrego todas as coisas, porque não se pode deixar nada dentro do barco senão o pessoal carrega, e começo a limpar os peixes. Geralmente levo mais ou menos uma hora para limpar os peixes.

[O senhor pesca sozinho ou tem ajudante?]

Geralmente, vou sozinho. Hoje eu fui sozinho. Eu e Deus.

[E para limpar, tem ajudante?]

Geralmente também limpo sozinho. Hoje, [ele] estava aqui, então está me ajudando a limpar.

[Onde o senhor vende o peixe?]

Vendo aqui na praia, mas sempre levo para casa e vendo para meus vizinhos.

[Há quanto tempo o senhor pesca aqui na Praia da Costa?]

Há uns 15 anos, e sempre pesquei aqui.

[Quais são as lembranças do senhor daqui do ponto de pesca da Praia da Costa?]

Eu já passei muito sufoco dentro desse mar. Quase já tombou um barco comigo e quase fui para o fundo. Não sofri nenhum acidente no mar, mas quase capotei.

[O senhor conhece outros pescadores?]

Conheço quase todos os pescadores de Itapoã, da Praia da Costa e do Ribeiro.

[O que o senhor acha que mudou o que ficou diferente?]

Quase tudo. Mudou a paisagem, os prédios. Antigamente não tinha esses rebocadores que apareceram. Mudou muito e mudou para pior, porque eu acho que a presença dos rebocadores espanta os peixes.


[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelo entrevistado.]


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