Entrevistado: Clarícia dos Santos Entrevistador: Maria Clara Medeiros Santos Neves Data da entrevista: 15/10/2013 Local / data ...

Entrevistado: Clarícia dos Santos




Entrevistado: Clarícia dos Santos
Entrevistador: Maria Clara Medeiros Santos Neves
Data da entrevista: 15/10/2013

Local / data de nascimento: em Linhares, 1960.
Nome do pai: José Luiz Ferreira dos Santos, nascido em Linhares, ES.
Nome da mãe: Carmosina Ferreira dos Santos, nascida em Linhares, ES.
Do lar, casada com Damião Miranda, pescador.

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Meus pais nasceram e foram criados em Linhares e quando aqui chegaram não tinha água nem luz. Saíam daqui e iam lá em Vila Velha buscar vela para queimar à noite, ou querosene. A água, ele [pai] trazia naqueles barris de rolo, botava o vergalhão e ali ele puxava e trazia água para repartir com todo mundo aqui na praia e cada pouquinho que ele dava para todo mundo, ele ficava satisfeito. Depois ele foi trabalhar em uma fábrica de gelo e nessa fábrica de gelo ele trabalhava com muito gelo e, quando ele saía, pegava muita quentura. Ele apanhou um resfriado e faleceu. Deu derrame três vezes e na quarta vez ele partiu.

Uma coisa que me lembro é que quando nós chegamos, não sei em que ano, nós éramos pequenos, foi o pai do Damião que cedeu um barraquinho para nós morarmos. Esse barraquinho ficava na beira da praia mesmo. Aí deu uma enchente e o mar carregou tudo o que nós tínhamos e nós não tínhamos para onde ir. Tinha uma escola que era o São José, no colégio das irmãs, não sei o nome, sei que eram irmãs de caridade. Lá elas deram abrigo para nós, para os nossos pais ficarem com nós lá até o mar melhorar, por causa da ressaca que deu, e depois nós voltamos para cá.

Quando nós voltamos o mar já estava mais manso e meus pais conseguiram um barraquinho melhor e foi ali que eles nos foram criando até quando ele partiu. Minha mãe ficou e meu irmão mais velho, não sei qual a idade dele hoje, ficou no lugar do meu pai. Ele foi ajudando minha mãe a nos criar até cada um procurar seu rumo. Cada um procurou seu rumo, tendo nossas famílias.

Hoje em dia ela mora sozinha lá perto do ponto final do ônibus. Ela está com 85 anos, porque eles nunca tiravam a certidão no dia certo. Nos documentos dela está assim, a gente tem que acreditar. Mas, eu acho que não. Ela não está com 85, para nós ela está com uns 90, por aí assim.

[Como foi depois da morte do seu pai?]

Depois que meu pai faleceu meu irmão assumiu o sustento da família trabalhando na casa de um pessoal que morava lá na Praia da Costa, em frente ao [Edifício] Guruçás. A gente catava pitanga para poder comprar um quilinho de farinha, ia para a maré, debaixo da Terceira Ponte, onde hoje em dia é uma cidade ali, para ali tirar burdigão. Cozinhava e ali a gente vendia e comprava a farinha e o feijão. Só não dava para a gente comprar a carne, mas a gente já tinha o peixe para comer. A gente pescava, a gente puxava a rede.

[Vocês também pescavam?]

Assim eles colocavam a rede e a gente puxava.

Meu irmão foi trabalhar na casa de uma família. Ele, o Damião, meu marido, trabalhou na casa de uma família muitos anos, foi nascido e criado na casa de uma família. E daquele sustento eles mandavam uma cesta para cada família, mandavam carne, mandavam feijão, roupa, cobertores e a gente foi vivendo.

[Você chegou a aprender a fazer rede?]

Não, eu não aprendi a fazer rede. Eu sentava ali na beira para poder fazer, mas aqueles nós que vão dando rapidinho, não entravam na minha cabeça, aí eu não consegui fazer.

E foi ali que eles nos foram criando. O filho dela (da D. Maria Miranda, seu Damião) trabalhou na casa de uma família muitos anos. Ele trabalhava lá e vinha de tarde e ia vender os peixes dele lá pelo lado de Santa Rita, que era manguezal, e Ataíde. Quando ele chegava eram dez horas da noite, uma hora da manhã. E foi assim, tudo criando assim, no tempo deles foram criando assim, as pessoas ajudavam a gente, davam uma cesta, davam uma carne, uma roupa e foram criando.

O Damião e o Juvenal trabalhavam lá na Praia da Costa, na casa da D. Maria José, que já morreu, mas tem uma que é viva até hoje, é D. Carminha, ela está envergando, mas está indo também. Ela também ajudou a criar a gente.

[Como foi sua infância aqui?]

A nossa infância aqui quase não tinha ninguém, eram só meus irmãos. Nós somos em oito, os filhos de D. Maria, os filhos das irmãs dela. Não entrava ninguém estranho, era uma convivência maravilhosa, não tinha briga, não tinha discussão, não tinha droga, era tranquilo.

[E as brincadeiras?]

As nossas brincadeiras eram brincar de pique, tomar banho na praia, às vezes nem tomava muito banho porque os pais não deixavam, porque quando nós chegamos para cá meu irmão mais velho foi tomar banho de mar e quase morreu afogado. Tinha um forrozinho que a gente gostava de ir, mas meus irmãos ficavam vigiando a gente. A gente os cegava.  A gente saía para ir para o forró do Seu Brechó, juntava as meninas e os meninos e a nossa mãe falava – Juvenal vai ver onde as meninas estão! Quando a gente o via, a gente entrava no matagal e se escondia.

Outra também era o baralho. A gente gostava muito de jogar baralho à noite lá na casa da minha mãe e tinha um homem que não gostava. Acho até que Deus já o levou. Uma vez nós estávamos jogando baralho e ele chamou a polícia. Mas eram aqueles do tempo da Marinha, aí vinham aqueles marinheiros, com aquela roupa toda branca, fardados. Quando nós descobrimos que eram eles, todo mundo correu para dentro de casa e ficamos escondidos dentro de casa, mas não deu em nada, porque ele era muito amigo da gente. Só que no outro dia nós o pegamos, porque descobrimos que foi ele, mas não fizemos nada com ele, só brincamos. Era uma brincadeira muito tranquila, não tinha droga, não tinha violência, era calmo.

Você podia andar de noite no meio dos matos. Às vezes, quem fumava a gente conhecia pelo cigarro. A gente andava com uma velinha, era um bequinho, mato dos dois lados daqui até na chegada de Vila Velha, era mato puro, e a gente andava, conhecendo um e outro no escuro. A gente saía à noite, mas não passava a noite na rua porque não tinha como, não tinha divertimento pra gente, o que tinha era só esse butequinho mesmo, a família e jogava baralho de noite, e a gente gostava muito.

[E como você conheceu o seu Damião?]

Nós fomos criados todos juntos desde criança. Quando a gente pegou a idade de 14 para 15 anos, cada um foi arrumando suas namoradas. Eu fui morar com ele (Damião). Quando eu engravidei do meu menino mais velho eu estava com 15 anos. As outras minhas irmãs e a filhas delas já foram arrumando os namorados e fomos fazendo nossas famílias. Cada um foi fazendo a sua família. Eu tenho a minha família, as filhas delas tem as delas.

[Quantos filhos tem D. Maria?]

D. Maria tem sete filhos: Terezinha, Nega, Damião, Betinho, Idalina, Helena, Leila.  Ela tem três filhos falecidos, todas três meninas, a mais velha dela faleceu e a caçula está com 43 anos. D. Maria nasceu em 22 de abril de 1928.


[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelo entrevistado.]


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