Foto de Guilherme Santos Neves, anos 1930. Luiz Guilherme Santos Neves Quando Ivo via a uva viu também o zepelim. Um zepelim era um...

Zepelim

Foto de Guilherme Santos Neves, anos 1930.
Foto de Guilherme Santos Neves, anos 1930.

Luiz Guilherme Santos Neves

Quando Ivo via a uva viu também o zepelim. Um zepelim era um acontecimento raro e inesperado.

Ivo viu o Zepelim e se surpreendeu com sua aparição repentina, sua chegada sem aviso prévio e sem alarde, sem um toque preparatório de clarim, sem exalar sequer um perfume alado e prenunciador, surgindo silente como uma nuvem indissolúvel, quase pedindo vênia para se fazer presente, sendo ele próprio o presente presenteado a Ivo, presenteado à cidade.

Quando Ivo viu o zepelim este estava rente ao Penedo avançando sobre as águas verdes da baía, nave entrando no porto pelo ar em voo letárgico como que impulsionado pela brisa.

Ivo viu o zepelim primeiro de frente, quando ergueu a vista por acaso. De frente, o zepelim ainda não era zepelim, parecia, na verdade, um balão argênteo com sua cestinha de vime. Virou zepelim quando se fez ligeiramente oblíquo e seu corpo de cetáceo se desenhou contra o azul do céu.

Ivo soube então do que se tratava, que pássaro brilhante era aquele diante de seus olhos assombrados, porque já conhecia o zepelim das páginas ilustradas. Eram páginas de uma revista alemã que o pai recebia antes que receber revistas alemãs a domicílio se tornasse um hábito suspeito e perigoso, quando a guerra se derramava pela Europa e África, neves e desertos. Mas os tempos ainda não tinham se tornado belicosos, havia uvas para serem vistas por Ivo e zepelins que flutuavam no ar como torpedos inofensivos.

Mais tarde, Ivo saberia que houve alguém na cidade, de olho atento e dedo presto, que acionou a máquina de tirar retratos para segurar o zepelim sobre a cidade, fixando-lhe a imagem graças aos mistérios dos sais e dos ácidos que o eternizaram na foto que Ivo reveria tantas vezes.

Mais tarde Ivo também saberia que o zepelim não era o pássaro imortal que parecia ser quando Ivo o viu pela primeira e única vez em sua vida, mas um mero artefato voador, frágil e inflamável, que virou fuligem capítulo final de sua existência.

Quando Ivo viu o zepelim o zepelim viu a cidade. Viu que a cidade era pequena e dócil, espremida entre uma rama de mar, que lhe fazia de porto, e as montanhas revestidas de matas, que lhe faziam de selva, e que isto era bom para a cidade. Viu que a cidade praticamente se bastava com a longa avenida que a cortava acompanhando o caminho do mar, e que nessa avenida moviam-se bondes para o coletivo transporte dos seus habitantes, e que isso bastava à cidade e aos seus habitantes. Viu que esses habitantes formavam um povo tranqüilo e que todos pareciam amistosos e cívicos, o que era de fundamental importância na vida de todos. Viu que na cidade havia uma praça central e redonda, assinalada por palmeiras imperiais, e que, pouco antes da praça, havia uma igreja branca tendo na frente duas outras palmeiras imperiais, à qual se chegava através de escadaria, e que logo depois da praça uma catedral de torres pontiagudas e vidros multicoloridos precedia um palácio em forma de convento, servido também por uma escadaria larga e arejada, com estátuas no corrimão. Viu mais o zepelim que havia muitas outras escadarias na cidade, porque a cidade se fizera no morro e viu que, em barcos a remo, catraieiros passavam pessoas de um lado para outro da baía em cujo fundo sobressaíam cinco pontes cunhadas em aço, importadas da pátria do zepelim.

O zepelim viu assim que a cidade se mostrava gentil e fraterna e dela se enamorou à primeira vista colhida do alto, num rasgo de amor conjugal, sem pressentir que, naquele momento de enlevo, sua alma já estava presa na foto da cidade onde ficou gravada para sempre, mesmo depois de se ter dissolvido, frágil e inflamável, seu corpo cetáceo.

[In Santos Neves, Luiz Guilherme, Escrivão da frota, Vitória: Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, 1997.]
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Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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