Entrevistado: Erivelton Zanetti dos Santos, Neneco Grupo ao qual pertence: Praia da Costa Entrevistador: Fernanda de Souza Data da en...

Entrevistado: Erivelton Zanetti dos Santos

12/17/2015 0 Comentários



Entrevistado: Erivelton Zanetti dos Santos, Neneco
Grupo ao qual pertence: Praia da Costa
Entrevistador: Fernanda de Souza
Data da entrevista: 12/03/2014

Local / data de nascimento: Vila Velha, ES, 14/05/1969
Nome do pai: João Jorge dos Santos, pescador
Nome da mãe: Eloísa Zanetti dos Santos, do lar
Casado, dois filhos.

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[Quem te deu esse apelido?]

Esse apelido foi colocado no meu filho quando era pequeno e como eu o trazia aqui [na praia] acabou pegando em mim. Passaram a me chamar de Neneco e não saiu mais.

Para mim é um apelido carinhoso, aqui na praia o pessoal me chama de Neneco, um ou outro me chama de Erivelton. Em pescador apelido pega mesmo.

Atualmente, eu moro no Ibes. Meu pai chamava-se João Jorge dos Santos. Já faleceu e era pescador, e minha mãe era Eloísa Zanetti dos Santos, do lar. Sou separado e estou no segundo casamento.

[Como é identificado o ponto de pesca da Praia da Costa?]

O ponto de referência é a colônia de pescadores que todo mundo conhece. Tem a prainha do Ribeiro, mas lá nem todo mundo conhece. É também uma praia de pescadores só que lá encosta os barcos grandes e vão até eles com barquinhos menores.

[Também se conhece como ponto das castanheiras?]

Não. Aqui se fala ponto dos pescadores. Ali na frente se costuma falar barraquinha dos pescadores por causa das bancas.

[Você tem barco?]

Tenho um barco, e o nome de Neneco. Meu barco fica no Ribeiro e a gente usa para chegar até um barco grande. É um barco comum, atualmente eu estou pescando no barco chamado Nezinho, que é de um amigo meu.

[Quais são os pescadores que pescam com você?]

Geralmente quem pesca comigo é o meu irmão. Geralmente vou pescar sozinho, ele agora está pescando com o filho dele, parceria mesmo, eu e ele.

[Como foi sua infância?]

Eu fiz o 1º grau e praticamente fugi da escola. Eu estudei até a 7ª série. Quando eu saí da escola, eu saí de casa, meu pai queria que eu estudasse, mas eu não queria estudar. Saí de casa com 14 anos de idade.

[Com qual idade você começou a vir para a praia?]

Eu vim quando era pequenininho. Comecei a vir para a praia com meu pai com cinco anos de idade e fui gostando. Comecei a pescar aqui com oito anos de idade, e foi quando eu saí para o mar. Fui uma vez e nunca mais deixei de ir.

[O que você fazia na praia?]

Antes de ir para o mar, ficava correndo pela praia pra lá e para cá. Antigamente, dava muito peixe, muita sardinha. Os pescadores cercavam as sardinhas e a gente ficava atrás pegando os peixinhos e brincando, ia na rede pegava os peixes e soltava, e meu pai brigava comigo – Não solta os peixes! – Tudo era muito farto. Tinha muita fartura de peixe e a gente ficava brincando pra lá e para cá com os peixes, eu e meu irmão mais velho, era legal.

Vendo todos os dias aquilo ali, fui gostando. Um dia meu pai me chamou para pescar. – Você vai pescar comigo hoje. – Ele falava assim: – Vou te ensinar uma vez só a botar o anzol, você olha para aprender, não vou ensinar de novo. Aí é o dom, porque eu olhava e aprendia, aí não teve jeito, não parei mais de pescar.

Só que primeiro tinha fartura, hoje não tem mais, está difícil. Se eu falar para você que sobrevivo só da pesca é mentira, quem falar isso vai passar fome, não tem como. O ser humano está acabando […] quer dizer isso aqui vai crescendo… Rebocadores, navios, essas embarcações grandes que entram aqui… você não pode mais pescar aqui. As traineiras estão acabando com os peixes. Hoje o que mais prejudica e que todo mundo reclama são as traineiras. O que está acabando com tudo são as traineiras.

[Seus avós eram pescadores? Você sabe com quem seu pai aprendeu a pescar?]

Meus avós não eram pescadores. Meu pai aprendeu a pescar com o pai dele, o pai dele era pescador de rio e de lagoa. O meu pai passou a pescar…

Antigamente, apanhava sacos e sacos de peixes, marobá e traíra, peixes de água doce. Aí meu pai começou a pescar, pegou gosto e se tornou pescador. Começou em rio, foi para mangue e depois veio para o mar. Mas meu avô não era pescador por profissão. Ele pescava para ajudar a renda em casa. Dava muito marobá e traíra, era o sustento. Eram peixes de rio, de água doce. Era o sustento que tinha. Meu pai começou a pescar e se tornou pescador mesmo. Aí foi meu irmão mais velho, que é mais velho do que eu dez anos. Depois, eu sendo o mais novo, fui ser pescador, os outros vieram depois.

[Como era a pesca nos anos anteriores e como é hoje?]

Antigamente, nós não tínhamos motores. Os barcos não eram motorizados, eram no remo, no braço. Só que antigamente era mais fácil pegar peixe porque era mais farto de peixe. Pegava-se peixe em todo o lugar. Hoje em dia temos motores, estamos mais equipados, mas a pesca está mais difícil. A fartura que tinha antigamente, hoje não tem mais justamente por causa dessas traineiras que vem acabando.

[Em média quanto vocês pescavam e quanto se pesca hoje?]

Existe peixe de inverno e de verão. Não faltava peixe, hoje falta. O peixe no inverno é mais escasso. Por exemplo: nós pegávamos muita peroá, dava muito baiacu, hoje não tem mais, tem, mas é muito pouco. Quando chegava nessa época, sardinha era demais. Era sardinha que não tinha para quem vender. A gente enchia barcos e mais barcos de sardinha. Hoje em dia é mais difícil, não consegue. Tudo isso, em minha opinião como pescador, é por causa das traineiras. As sardinhas que encostariam aqui, para sustentar as famílias, uma traineira pega lá fora 40, 50t. Essas 40, 50t que encostariam aqui para vários pescadores pegarem, não tem como, um barco só pega tudo.

Realmente, era farto de peixe, hoje é muito disputado. Tem gente que, numa época dessas, vai lá e mata 5, 6kg de peixes. Tem gente que mata 30, 40kg, então em comparação é que primeiro tinha mais fartura de peixe, e o peixe tinha menos valor, e hoje tem menos peixe, e o peixe tem mais valor, é mais valorizado, tem mais preço.

[Qual é o tipo de peixe que dá por época?]

Novembro, dezembro, janeiro, fevereiro até março é época da pescadinha. Pode aparecer no mês de outubro. Janeiro, fevereiro, março, até abril é peixe espada. Nesse meio dá pescada e corvina. Abril, maio e junho é época da tainha. Maio, junho, julho e agosto é época da enchova e nessa época de maio a junho, julho e agosto é época do baiacu, mas também é um peixe que está escasso.

[A pesca é a sua única fonte de renda?]

Eu faço alguns bicos, às vezes, quando não está dando peixe. Se não está dando peixe você tem que se virar, tem que procurar fazer coisa, não pode ficar parado. A gente vive do dia a dia, do que ganha na pesca, se não trabalha, não ganha, se não pegou peixe não ganha.

[O que você faz de bico?]

Não tem tempo ruim, de capinar quintal a carregar cascalho para fazer […] O importante é não ficar sem ganhar dinheiro. Tem filhos para cuidar, sustentar, para dar alimentação, pagar aluguel. Quem mora de aluguel tem que se virar de qualquer jeito. Fixo mesmo é só a pesca.

[Como é sua rotina como pescador?]

O mais tardar que eu e meu irmão acordamos é às 4h da manhã, isso quando está tarde. Geralmente 1, 2h da manhã nós estamos vindo para a praia, todos os dias, principalmente nessa época de verão. No inverno não tem essa necessidade, no inverno nosso horário de vir para a praia é 3:30, 4h da manhã, no verão 0:00, 1h. Quando é lua cheia a gente vem para a praia 23h e pesca a noite toda, quando são 6h da manhã nós estamos chegando do mar com 30, 40kg de peixe na noite de lua cheia. Nessa época de verão que é a época que a gente ganha dinheiro mesmo. Temos que pescar todos os dias.

[O que diferencia o horário no verão e no inverno?]

Para nós pescadores não diferencia em nada.

[Porque no verão se pesca mais cedo e no inverno mais tarde?]

É por causa do tipo de peixe. Existe tipo de peixe ele come no horário mais cedo, de madrugada, no clarear do dia, é o horário do peixe. O pescador sabe, vem vindo 4h vai vindo 3h, 2h, 1h. Cada dia que ele vai pescando ele vai sabendo o horário que o peixe está comendo. O bom pescador tem por obrigação saber.

[O que você faz antes de sair de casa?]

Preparo meu café e trago café, tody, suco, água, refrigerante, farofa, pão e café.  O mar dá muita fome. Acordo, preparo e venho para a praia. Venho de bicicleta todos os dias e gasto vinte minutos. Todos os dias venho de bicicleta.

[Chegando aqui na praia o que faz primeiro?]

A primeira coisa que a gente faz é ajeitar as coisas na embarcação, tipo de linha que vai levar e ver se não está faltando nada, material, garapé, remo e isca. Ajeitou, colocou o barco ali e espera o horário que tem que sair.

[Quais são os instrumentos de pesca que se usa, como se prepara?]

A gente pesca de linha, de mão enrolada em um cano de 10omm. A gente usa um arco que se chama triangulo, onde vão dois anzóis, um em cada ponta, com a diferença de 40cm de um anzol para o outro, mais ou menos. Se batem dois peixes, a gente pega dois peixes de vez, e trabalha com duas linhas, uma em cada lado, do lado esquerdo e do lado direito.

[E quais são os tipos de linhas e anzóis?]

Esse tipo de pescaria, para pescadinha é anzol 20, pode até pescar com 12 também, mas geralmente é anzol 20. Se for para pescar espada tem que ser com aço porque ela corta. Se você não colocar aço ela corta com os dentes.

[O que você costuma usar como isca?]

Geralmente nós pescamos com tainha, que é a melhor isca, porque serve para qualquer tipo de peixe. Sardinha também serve, camarão, se for camarão daqui da região do lameirão, que o peixe come, serve. Se for outro camarão de fora, não serve. Nós pescamos mais com tainha porque é uma isca dura e firme e é mais difícil do peixe roubar. A sardinha já é mais fácil, mas sardinha também é isca da pescadinha. A sardinha serve para todos os peixes.

A isca nós compramos, às vezes pega, costumamos pegar. Às vezes, de madrugada, ela costuma passar na beira da praia, aí se pega. Mas 90% nós compramos.

[Tem algum peixe que é mais fácil de pegar no anzol ou mais difícil?]

Geralmente peixe grande dá mais trabalho. Peixe grande é mais rápido, esperto e voraz. O peixe maior tem mais fome, é mais violento. O peixe tem manha para comer. Às vezes, ele não quer comer determinada isca, quer outro tipo de isca. A água, quando está parada, ele costuma não comer, pega na isca e solta. Depende muito de como a água está correndo, tem essas manhas.

[Você saí para pescar todos os dias?]

Saio para pescar todos os dias. Geralmente, a gente evita de sair em tempo de chuva, porque não se vê terra, não se identifica. Nós vamos aos pesqueiros marcando pela terra. Agora está mais fácil porque tem GPS e então você não se perde, antes não tinha. Mas de preferência a gente pesca muito é marcando pelas terras e se está chovendo a gente fica sem visão. Quando se pega chuva lá fora você não tem para onde correr e, como diz o ditado: Quem está na chuva é para se molhar! Sair daqui debaixo de chuva, a gente não sai.

[Há quanto tempo você pesca aqui nesse ponto da Praia da Costa?]

Aproximadamente 36 anos e sempre pesquei aqui. Meu pai também pescava aqui.

[Quais são as lembranças que você tem desse ponto de pesca ou de outros?]

A lembrança daqui é o trampolim. As pessoas subiam a escada e pulavam lá de cima e muita gente morria. Pulavam lá de cima. Ali tem duas pedras, e não passavam no meio das pedras, batiam a cabeça e morriam. Eu já vi vários acidentes. As pessoas que se acidentaram ali não eram conhecidas, eram pessoas que não conheciam, ficavam presas. É inesquecível.

[Você já sofreu algum acidente em seu trabalho?]

Já, um peixe comeu meu dedo (o indicador esquerdo). Esse acidente tem três anos e meio. Acidentes acontecem você não prevê. Eu estava pescando e tinha pegado bastante baiacu e estava segurando ele (baiacu) e tirando o anzol. Ele escorregou, mas não escorregou para baixo, ele escorregou da minha mão para cima. Ele deu tipo um bote e em tudo que ele fez ele pegou meu dedo e travou. Em dez segundos ele arrancou meu dedo. Eu estava pescando com meu sobrinho. Aí eu arranquei minha camisa e quando ele travou eu falei: – perdi meu dedo. Só esperei ele arrancar. Tirei a camisa, enrolei no pulso, apertei e travei. Aquilo foi paralisando tudo, foi adormecendo, saía sangue igual água, como bica, jorrava. Tirei a camisa, enrolei aqui e travei. Vim embora para ir ao hospital, mas não teve jeito de implantar o dedo.

[Como você ficou depois?]

Na verdade fiquei deprimido uns dias, fiquei procurando achar porque aconteceu comigo, porque eu pesco desde pequeno, porque eu vacilei, em que eu errei. Tentei achar explicação. Se fosse essa mão direita diria que tinha sido um vacilo, que tinha tirado o anzol e enfiado na boca do peixe. Fiquei sem pescar 45 dias, porque tinha que me recuperar, mas em nenhum momento pensei em parar de pescar. Foi acidente. Assim que estava bom, que fui liberado para pescar e tirei os pontos, voltei a pescar. Foram sete ou oito pontos. Mesmo não podendo pescar, fui assim mesmo.

[Esse acidente mudou alguma coisa?]

Sim, porque tive que aprender a mexer com esse outro dedo.  Esse dedo é muito importante para bater o anzol, segura aqui, a linha, para cortar isca, é tudo aqui. Então eu tive que me adaptar com esse […] [O acidente foi com o indicador esquerdo]. Sou direito na mão e esquerdo no pé, então faz muita falta. Às vezes esqueço, às vezes vou pegar alguma coisa e não dá. Tive que aprender a fazer tudo com esse dedo aqui, principalmente cortar isca, empatar anzol e material de pesca, faz falta, mas tem que se adaptar, não tem jeito, tem que se acostumar.

[O que mais te marcou na vida de pescador?]

A pescaria em si, só de você estar aqui e ver essa maravilha que é o mar já é uma coisa gratificante. A gente que tem a visão que pode enxergar, fico pensando quem não tem visão e que não pode enxergar isso.

Isso é uma coisa que não sei explicar. Sou pescador e faço o que eu gosto, eu amo pescar e só sei pescar. Vou morrer pescador, não vai ter jeito e não vou mudar nunca.  Não aconselho a ninguém a ser pescador, mas isso vem de berço, de família, é o dom. Muitas vezes a pessoa começa a pescar quando está mais velha, agora, se você não aprender de novo dificilmente aprenderá de velho.

Existem pescadores e pescadores. Existem pescadores que pescam porque veem os outros pescarem e tem pescadores que pescam porque sabem pescar. Conhecem, têm o dom, sabem onde tem a lama, sabem onde é sola, onde é cascalho. Esse é o pescador. Ele tem que arriar uma chumbada no chão e distinguir – aqui é lama, aqui é sola, aqui é cascalho, aqui vai dar o peixe tal.  Tem pescadores que vão pescar e veem os outros matar peixe, que acompanham. Sabem que aquele cara que vai ali como ele tem mais conhecimento, ele sabe que vai dar o peixe tal, então ele sai seguindo ele. Nós chamamos de pescador largado, pesca porque vê os outros pescarem.

Para mim, o que eu vou levar é o aprendizado. Pesca a gente não esquece.

[Você pretende pescar por mais quanto tempo?]

Até quando Deus deixar, porque quanto mais velho você vai ficando, mais você vai se apaixonando por isso aqui. Hoje eu não me vejo parar de pescar por dinheiro nenhum.

É como falei: é difícil você sustentar família, pagar as coisas com o dinheiro da pesca, só que é coisa prazerosa. Eu gosto disso aqui, eu amo isso aqui.


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