Entrevistado: Ezenildo da Vitória Gomes, Meloso Grupo ao qual pertence: Coqueiral de Itaparica, Vila Velha Entrevistador: Fernanda de ...

Entrevistado: Ezenildo da Vitória Gomes



Entrevistado: Ezenildo da Vitória Gomes, Meloso
Grupo ao qual pertence: Coqueiral de Itaparica, Vila Velha
Entrevistador: Fernanda de Souza
Data da entrevista: 13/03/2014

Local / data de nascimento: Vila Velha, 05/09/1971
Nome do pai: Ezequiel Gomes da Silva
Nome da mãe: Rosalina da Vitória Gomes
Casado, 4 filhos.

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[Como foi sua infância e sua adolescência?]

Na minha infância trabalhei muito, mas não era de pescador. Eu trabalhava vendendo picolé e ajudando meus pais na feira. Antigamente era muito difícil, mas hoje é mais fácil. Na adolescência a situação começou a melhorar um pouquinho, o progresso começou a chegar e melhorou bastante.

[Você se lembra das brincadeiras?]

Nós fazíamos aqueles carrinhos de lata e brincávamos na rua, mas quase não tinha tempo de brincar.

[Quem fazia os carrinhos e com que tipo de material era feito?]

Nós mesmos, usávamos lata de óleo, umas latas quadradas, e as rodinhas nós fazíamos com a borracha das sandálias, que cortávamos e pregávamos com arame. Fazíamos também carrinhos de garrafa de Qboa, enchíamos de areia, passávamos o arame e íamos brincar na rua.

[Com que idade você começou a trabalhar?]

Comecei a trabalhar com sete anos de idade. Trabalhava na feira ajudando os outros à noite. Durante o dia vendia picolé, também vendia cuscuz que minha mãe fazia, e às vezes fazia entrega de roupa que minha mãe lavava para fora.

[Com quantos anos você teve contato com a pesca?]

Quando tive contato com a pesca eu já estava com 22 anos. Antes eu trabalhava como eletricista. Quando comecei estava com 17 anos, trabalhei 9 anos como eletricista de baixa tensão, depois eu saí porque o patrão sumiu e nos deixou abandonado, eu saí também porque era muito concorrido. Às vezes eu pegava um servicinho de R$ 100,00 que valia R$ 150,0, chegava outro camarada com outro orçamento e pedia R$ 60,00, então fui desgostando. Depois disso fui trabalhar em material de construção. Comprei uma carroça e um burro e fui trabalhar em material de construção. Quando fizeram o asfalto de Santa Mônica os vizinhos começaram a achar ruim, por causa do animal que defecava na rua. Vendi a carroça e fiquei só trabalhando no material de construção. Quando o material de construção quebrou comprei um barquinho e outra carroça de sociedade com um rapaz.

Arrumei um barquinho e botei na praia. Durante a semana trabalhava de carroceiro e todo final de semana depois […] Em seguida tive que vender (o animal) pelo mesmo motivo, havia muita reclamação e não tinha pasto. Foi quando coloquei o barco na praia e comecei a sair para pescar e a pegar uns peixes, e foi assim que achei que era o certo para eu conseguir ter uma família e mantê-la com a pesca, mas agora estou quase desistindo porque está escasso. Tem muita poluição, muitas dragas tirando lama e jogando no local em que a gente pesca. Existem lugares que antigamente era pedra e hoje você não acha mais pedra, só acha lama podre. […] essas dragagens que eles fazem aí. Eu creio que seja isso.

[Você estudou?]

Estudei até a 4ª série.

[E como eletricista, você fez algum curso?]

Aprendi fazendo, com a mão na massa.

[Seus pais praticavam a pesca?]

Não, meu pai pescava no final de semana, por lazer. Quando eu era criança eu ia com ele. Nós pescávamos até no morro da Barra, íamos pescar baiacu. Acho que foi por isso que eu comecei a pescar. A minha mãe só trabalhava em casa e lavava roupa para fora.

[E quando você teve contato profissional com a pesca?]

Eu já estava com 22 anos.

[Quem te ensinou a pescar?]

Quem me ensinou a pescar foi um senhor de Itapuã chamado Mizinho, eu aprendi com ele.

[Você começou a pescar como ajudante? Como foi isso?]

Eu comecei como ajudante. Fui à praia ajudar o pessoal a puxar rede, ele [Mizinho] me deu um monte de peixes, no outro dia eu o ajudei a embarcar a rede. Nessa época eu vendia picolé. Nesse dia, eu tinha trabalhado a semana toda e no final de semana não tinha nada para fazer e fui para a praia para ver se arrumava um dinheirinho a mais. Quando eu terminei o picolé ele estava puxando a rede e eu fui ajudar. Ele chegou até a mim e disse: – O rapaz venha amanhã, vou colocar seu nome aqui porque na hora que for vender o peixe eu te dou um dinheiro.

No dia seguinte de manhã cedo fui lá de novo. Nós já tínhamos pegado peixe no sábado, no domingo voltei e ele me deu uns R$ 60,00 pela ajuda que eu dei. Aí todos os dias eu ia para lá. Às vezes não tinha nada para fazer durante o final de semana, eu ia. Já nem vendia mais picolé, ficava lá direto. Quando dava muito peixe ele me dava, até que chegou um dia e ele me perguntou: – Você não quer aprender a remar? – Ah! Quero. – Então, vamos comigo mirar uma rede. Eu fui com ele mirar rede, e fiquei pescando com ele por dez anos.

[Ele (Mizinho) pesca na praia de Itapuã?]

Ele sempre pescou na Praia de Itapuã, eu o conheci lá.

[E como você comprou seu barco?]

Aí eu achei que lá (em Itapuã), tinha muita gente, muita correria pra lá e pra cá, e como aqui tinha pouca gente eu resolvi vir para cá. Eu também queria ter uma rede de arrasto como ele, eu me espelhei nele. Ele […], mas é um pescador que entende da pesca. Comprei um barquinho e trouxe para cá. Aqui sou eu sozinho. Pego meu peixe na boa, não precisa de correria.

[Há quanto tempo você veio para o ponto de Coqueiral de Itaparica?]

Aqui, têm uns onze anos que estou aqui.

[Como era aqui quando você chegou?]

Quando cheguei aqui já tinha alguns pescadores: Neném, Big Field, Mazinho, Cacau, o Zé Luiz que já faleceu. Já tinham uns oito pescadores aqui, eu já os conhecia.

Quando cheguei eu não tinha barco, tinha um velho, mas nem servia para pescar, tanto que eu pescava com um barco de um amigo. A mãe dele era minha madrinha. Ele fez um barco e deixou comigo e disse – no final de semana, quando eu quiser ir à ilha, você me leva, pode ficar com o barco.

Eu pescava todos os dias. Certo dia um sobrinho dele passou aqui e me viu com duas caixas de pescadinha na banca limpando e viu que eu estava com o barco dele (do amigo). Foi lá e contou para ele. No outro dia à noite ele veio e levou o barco embora. Foi quando pedi a minha irmã (Ciara) para me ajudar a comprar um barco para eu pagar depois. Ela me ajudou, e comprei uma batera, meu cunhado comprou umas redes de trasmalho junto comigo e fui pescando. Eles me ajudaram e me deram uma força, hoje, tenho três embarcações, graças a Deus, e tenho mais de 50 redes.

[As redes você compra ou você faz?]

Eu compro e monto, mas também sei fazer.

[E porque você prefere comprar?]

Porque geralmente a malha que a gente quer não tem para vender. Às vezes quero uma malha 100, uma malha grande e não tem, aí tem que fazer.

[E onde você compra?]

Geralmente eu compro na Casa Marlim, em Vila Velha.

[Como era a pesca antigamente?]

Há cinco anos era muita fartura. Uma hora dessas a praia estava cheia de pescadores jogando rede de arrasto, pegando manjuba e sardinha, era muito mesmo. Agora, não tem mais nada, acabou tudo, nem se vê um peixe pulando.

[Quais eram os peixes que se pescava aqui antigamente?]

Antigamente de rede de arrasto se pegava muito galo, manjuba, sardinha, chicharro e às vezes vinha muito xaréu. Tem dez anos que não vejo um cardume de xaréu.

[E em quantidade, como era antigamente?]

Ah, Você não conseguia tirar a rede da água, tinha que tirar o peixe dentro d’água no puçá ou de redinha. Eram três, quatro toneladas numa só pancada.

[E hoje, como está a pesca?]

Hoje, quando aparece um cardume de peixe, pega-se uns 400kg de peixes perdidos. Às vezes vêm peixes misturados no meio de um cardume, isso não acontecia antes. Com sardinha vem galo, chicharro e espada no meio. Antigamente, o cardume era de um peixe só.

[Quais são os peixes que mais se pesca hoje?]

Hoje é a pescadinha que graças a Deus ainda não sumiu.

[A sardinha tem uma época definida ou é o ano todo?]

A sardinha dá o ano o todo, mas quando ela dá durante todo o ano nós não temos condições de pescá-la, porque ela dá lá fora e o mar fica bravo, aí não se consegue sair por causa das ondas. Agora quem pesca para o lado da prainha, porque lá tem píer, e o barco ancorado, eles têm como ir lá e pescar a pescadinha.

[Qual é a época da pescadinha aqui?]

Todo o verão, nos outros meses o mar fica bravo e não tem como sair.

[E o sururu?]

Também é no verão, porque passou do verão ele entra no defeso e nós não podemos pescar.

[Você também trabalha com sururu?]

Sim, também trabalho com sururu.

[Como você define os dias que vai pescar e os dias que vai pegar sururu?]

O sururu é pela maré e pela lua, porque se a lua não estiver boa o sururu não está gordo, ou a maré está muito alta ou muito baixa. Sururu é lua. Peixe não, peixe tem que ir todo dia. Nós não sabemos o dia que vai dar peixe, então o pescador tem que estar lá todos os dias.

[Atualmente, a pesca é a sua única fonte de renda?]

A minha única fonte de renda é a pesca, eu vivo da pesca.

[Como é a sua rotina como pescador?]

Geralmente, em acordo às 4h da manhã, tomo banho, faço café e saio. Chego à praia às 5h, pego meu material, coloco no barco e saio. Às 11h já estou em terra, isso quando vou pescar. Quando vou pegar sururu, quando a maré dá bem cedinho, às 8:30, 9h já estou em terra.

[Quando você volta do mar (na pesca), o que você faz quando chega em terra?]

A primeira coisa que eu faço é colocar o peixe na banca, limpar, pesar e colocar na sacola, embalar os peixes e guardar no freezer. Quando os clientes chegam já estão prontos. Às vezes, dependendo da quantidade de peixe, vende-se tudo na hora, aqui mesmo. Quando sobra levo para casa e guardo, no outro dia é a mesma coisa.

[E quando é com o sururu?]

Também é a mesma coisa: vai limpando e vendendo, se sobrar, levo para casa.

[A que horas você costuma voltar para casa?]

No verão sempre retorno à noite, depois da 0:00h, 0:20h. No inverno, às 12h, todo mundo já foi embora, o barracão fica ao Deus dará.

[E quando chega em casa, o que faz?]

Olho as crianças, tomo um banho e vou bater um rango, porque beira de praia dá muita fome.

[Que horário que você costuma ir dormir?]

Por volta das 20:30h, 0:20h já estou dormindo.

[Tem algum dia que você não vem para a praia?]

Venho todos os dias, só não venho quando o mar está bravo e se não tiver rede para remendar. Quando o mar está bravo e chovendo fico aqui debaixo da tapagem, remendando uma rede para quando o mar amansar ir trabalhar.

[Você tem algum dia de folga ou alguma data especial?]

Não, é muito difícil. Geralmente eu fico mais em casa na semana da Paixão (Semana Santa), não gosto de pescar na sexta-feira da Paixão porque é dia de ficar em casa com a família, de ficar tranquilo.

[Com que sua esposa trabalha?]

Ela tem um salão de beleza.

[O que ela acha da sua rotina de trabalho?]

Ela acha que é perigoso. Eu já acho que é perigoso aqui em terra, no mar é uma paz. Ela reclama que fica sozinha com as crianças, mas não tem jeito tenho que ir trabalhar.

[Ela já se interessou a vir trabalhar com você na pesca?]

Não.

[E seus filhos já tiveram algum contato com a pesca?]

Só meu filho de 12 anos, que de vez em quando ele vai comigo e quer pescar, mas tem que estudar. O que eu não fiz eu quero que ele faça: estudar.

[Você o incentiva a seguir o caminho da pesca?]

Se não fosse essa pesca predatória que está acabando com tudo, com essas dragagens estourando pedras no fundo do mar e acabando com os peixes, eu o incentivaria, mas do jeito que está é difícil sobreviver da pesca. Ninguém ajuda ninguém, só querem tirar para eles. Só quem tem vantagens aí fora são esses barcos pesqueiros grandes, nós, com nossos barquinhos pequenos, não estamos aí fora porque não temos uma carteira de arrasto […] Se a gente for ali pertinho eles querem nos rebocar e não nos deixam pescar. Esses barcos não. Vão ali, areiam a traineira e pegam toneladas de peixes fora da época de pescar. Para eles não dá nada, só dá para nós que somos pequenos.

[Quais são seus instrumentos de pesca?]

Geralmente eu pesco com rede de linha de fundo, transmalho de fundo, trasmalho boieiro e de caída.

[Como é o processo de pesca da linha de fundo?]

A linha é um triângulo com dois anzóis: a gente arreia e ela bate no fundo e se puxa no braço, e o peixe tem que beliscar ali. É um triângulo com dois anzóis, a linha de cima que se puxa e a de baixo tem duas linhas com dois anzóis, com o chumbo. A gente sente o peixe beliscar. Às vezes, eu pesco com três, um de cada lado, e um com a boia atrás, uma tona, como se chama.

[Que tipo de peixe se pega com esse instrumento?]

Com esse instrumento se pega qualquer peixe que estiver no fundo, pescada ou pescadinha. Às vezes, quando se pesca na beira de pedra, pode-se pegar um badejo ou uma garoupinha, mas é muito difícil, porque aqui nessa região não existe mais badejo nem garoupa.

[Como é o trasmalho de fundo?]

Trasmalho de fundo ou rede de espera ele tem mais chumbo e menos boia. Você vai jogando e ele vai para o fundo. Todos os dias pela manhã nós vamos lá e o levantamos, em dois, um pega no chumbo e outro pega na boia. Coloca-se uma garateia dentro da batera, que é a vigia, para marcar, é uma âncora com uma corda e com uma boia em cima. Coloca-se dentro do barco, vai mirando, tirando peixe e colocando a rede dentro do barco. No fim, quando termina a rede, tem a outra garateia com outra boia. Aí pega, joga a garateia com a boia dentro d’água, coloca a rede no mesmo lugar e vem embora.

[E o trasmalho boieiro?]

O trasmalho boieiro também é uma rede de espera. Tem mais boia e menos chumbo. As boias ficam submersas. Quando se chega para mirar, se pega no chumbo e vai mirando de cima do barco. Não precisa colocar dentro do barco, fica fixo dentro d’água.

[E o arrastão?]

O arrastão é uma rede de cercar cardume. Geralmente têm que ter no mínimo uns dez homens para começar. O cardume de peixe vem e nós saímos com o barco, jogamos a corda na beira da praia, saímos com o barco, vemos a posição do peixe e mandamos o pessoal ir puxando a corda. Arreia-se o galão e vai-se remando e jogando a rede.  Vai-se cercando o peixe. Depois que cercou, colocam-se dois ou três experientes de um lado e de outro para ir controlando a rede, porque ela tem que ir certinha, senão ela atravessa, agarra ou o peixe passa, vem controlando até chegar à beira da praia. Quando chega à beira da praia, se tiver muito peixe, aqueles mais experientes é que trabalham o peixe, senão perde tudo, o mar toma tudo, o que o mar deu ele toma.

Geralmente o peixe é mansinho, mas quando chega à beira da praia fica bravo: começa a crescer onda e é a hora que tem que saber trabalhar direitinho para não deixar o mar furioso. Tem que trabalhar certo e respeitar.

[Como você sabe se o cardume está passando?]

Quando é manjuba ela faz um roxo e a água fica diferente, faz um roxo e vem pulando, piscando, ela vem mostrando o rabinho. Quando é chicharro ela entra no meio da comidinha e faz aquele escarcéu dentro d’água. O galo também vem fazendo escarcéu, pulando e virando. É fácil definir o peixe.

[A rede de arrasto só é utilizada quando vocês estão em terra?]

Só quando estamos em terra. Se avistar o cardume, larga tudo e corre para cima dele, é assim que funciona. Geralmente nem dá tempo de entrar na água, às vezes aparecem e somem logo. Às vezes, quando ele fica aparecendo e sumindo nós saímos com o barco e ficamos boiados, ficamos procurando a posição. Muitas vezes eles boiam muito perto e não dá condições de cercar, aí, tem que esperar eles boiarem de novo. Isso acontece muito onde tem comidinha, que são uns peixinhos pequeninhos que gostam de comer.

[Depois que você compra a rede o que tem que fazer?]

O trasmalho compra-se o pano da malha que se quer, compra-se as cordas, o chumbo, as boias e o nylon de entralha e agulha. Aí se começa a montar a rede. Eu começo pela boia e faço o chumbo. Compram-se só as malhas.

[E o que tem que fazer?]

Enche-se a agulha com nylon e faz-se uma paletinha. Para se fazer uma boa rede e bem definida tem que ter medida para não ficar torta. A mesma medida que tem na entrada da boia tem que ter no chumbo, senão ela fica torta no fundo e não caça, tem que ficar na medida certinha, por isso, tem que fazer a paletinha para fazer a medida.

[Quanto tempo dura uma rede?]

Se a pessoa tiver cuidado, a pessoa morre e ela fica aí.

[Tem diferença do jeito de preparar a rede de fundo da rede de arrasto?]

Geralmente a rede de fundo, o entralho dela é igual. Já a rede de arrasto é diferente. O ponto é diferente. Na rede de fundo, como é muito pequena, eu gosto de entralhar três por três para crescer mais o entralho e para fazer mais rápido. A rede de fundo com a malha maior eu gosto de entralhar de duas em duas, porque a malha já é grande e tem que terminar rápido.

[O que é entralhar?]

É pegar e fazer as […] para montar a rede, para a rede ficar agarrada na corda. Geralmente estica-se a corda e de acordo como a corda está esticando, a rede vai ficar.

[Há quanto tempo você pesca nesse ponto da praia de Itaparica?]

Há onze anos. Antes, eu pescava em Itapuã, onde pesquei por dez anos.

[Até quando você pretende pescar?]

Até quando papai do céu achar que eu devo. Se eu conseguir me aposentar, vou me aposentar e continuar pescando. Enquanto meus braços aguentarem puxar cordas de redes, vou continuar pescando.

[Por que você pesca?]

Eu gosto de pescar, mas também tem o lado financeiro. Eu pesco porque eu gosto.

[Se você tivesse uma proposta para ter o mesmo rendimento financeiro que você tem com a pesca você largaria a pesca?]

Não, não consigo viver sem a pesca, já estou acostumado. Aqui, na mesma hora que você está trabalhando, você está se divertindo junto com a natureza.

[Fale das suas lembranças do ponto de Coqueiral de Itaparica e da praia de Itapuã]

O que me lembro é da grande quantidade de cardumes que davam. Era muito cardume de manjuba. Hoje não se vê um cardume, isso dá muita tristeza. Tenho uma rede que está parada há dois anos, que não coloco para cercar um cardume de peixe. Geralmente, quando aparece cardume de peixe, aparece assombrado, dá e some, não aparece mais. A boa lembrança é dos peixes, que sumiram. Ruim é que não tem mais peixes.

[Qual a sua memória, o que você leva da sua experiência de pescador?]

O que eu aprendi de mais importante na pesca foi remendar rede, porque eu gosto. Mas eu não quero que meus filhos trabalhem de pescadores, é uma vida sofrida, mas é boa, eu gosto. Gosto de acordar cedo.

[O que a pesca te ensinou?]

As pessoas serem humildes. Tem muitos que não são. Às vezes você pega um peixinho e se você não mata o peixe o outro camarada fica rindo de você. Se você chega com o peixe, ficam de cara fechada. Eu sou diferente: se eu vir o camarada com uma caixa de peixe, se eu puder eu vou ajudar a limpar o peixe dele e, se precisar, até vendo, eu sou humilde com todo mundo.

Se eu estivesse trabalhando lá fora eu não seria a pessoa que sou. Hoje sou tranquilo. Quando eu pego para remendar uma rede, fico até de noite, até terminar. No outro dia pego outra. Gosto de ver a rede pronta e tudo certinho.


[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelo entrevistado.]


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