Entrevistado: Fábio Firme Grupo ao qual pertence: Barra do Jucu Entrevistador: Fernanda de Souza Data da entrevista: 28/03/2014. Lo...

Entrevistado: Fábio Firme



Entrevistado: Fábio Firme
Grupo ao qual pertence: Barra do Jucu
Entrevistador: Fernanda de Souza
Data da entrevista: 28/03/2014.

Local / data de nascimento: Vitória, ES,1957.

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[Como foram sua infância e adolescência?]

Minha infância foi com meus avós. Eles eram fazendeiros aqui (na Barra), e em Viana. Durante a semana eu estudava, e ajudava o meu pai nas lojas. Ele era comerciante na Vila Rubim, e nos feriados e finais de semana ia para a fazenda do meu avô. Ficava contando nos dedos os dias que faltavam para os feriados para ir para a fazenda. Era muito divertido, pois reuniam os primos, primas e tinha muitos animais para montaria. Fazíamos fogueira e roda de violão próximo ao casarão. Brincávamos de escorregar nas palhas de coco ou em tábuas molhadas, e descíamos o morro. Era uma aventura além de se quebrar braço, e se ralar todo. Quando não estava na fazenda estava em outro terreno do meu avô, em Caçaroca. Nós saímos de Santo Antônio de canoa remando, passávamos pelas 5 pontes, entrávamos em um rio onde hoje é o prédio da Polícia Federal e íamos pelo rio Marinho. Na época não era poluído e os peixes pulavam dentro d’água. O meu avô batia com a vara na beira do junco, e os peixes pulavam para dentro da canoa. Meu avô dizia: meu filho você quer ver peixe à noite? E eu dizia: Vô, vamos pescar à noite? E saíamos eu, e ele para pescar à noite. Ele colocava o lampião na canoa, vestia o colete em mim, e ia remando, adernando a canoa e batendo nos matos. Com a claridade aquilo ficava branco dentro da canoa, chamava-se sairu. Pegávamos baldes e enchíamos cestos de 100 a 200k. Então, durante a semana eu estudava. Quando morei em Vitória estudava no Salesiano, e depois vim estudar em Vila Velha no Marista. Estudei até o 2º grau, completo. Fiz vestibular para engenharia, mas abandonei o estudo. Comecei a trabalhar, e também trabalhava com meu pai. Desde cedo gostei de trabalhar, e de ter meu dinheiro. Tinha vida boa, tinha carro e tudo mais. Sempre trabalhei e corri atrás. Mas, sempre tive essa vida aqui. Não tenho o que reclamar. Estou bem graças a Deus.

[Seus pais e avós tiveram contato com a pesca?]

Meu avô materno, sim. Ele pescava muito camarão e robalo aqui no rio. Eles chamavam [o rio] de Caçaroca, hoje está tudo poluído. A Braspérola e a Real Café poluíram tudo. A água era cristalina. Havia um lugar chamado a “boca da vala”, que era muito fundo e tinha uma passagem que era uma ponte. Passava-se por ela e balançava. Nós olhávamos lá em baixo, mais ou menos a uns 15 m de altura, e víamos os robalos. Batíamos a linha e eles mordiam a isca. Era um lugar muito fundo e dava muito peixe. Meus avôs viviam disso. Viviam da pesca e dos laranjais. Naquela época vendia-se muita cana, ele tinha muito gado. Meu avô chamava-se Mariano Varejão Filho.

O meu avô era português. Tinha os cabelos brancos e olhos azuis, na fazenda tem a fotografia dele. Minha avó foi pega a laço, chamava-se mãe Cíntia, ela era índia. Meu avô era muito trabalhador e inteligente. Era um homem de visão. O Morro do Moreno foi dele, depois vendeu. Tinha fazendas em Viana e no Rio Marinho. Tinha muita terra e era muito trabalhador. Nas fazendas tinha muita hortaliça e tinha muita gente. Eles vendiam muito para o mercado e assim foram desenvolvendo um comércio. Uns ficaram no interior, e outros vieram para a cidade e se dedicaram ao comércio. Eram em nove irmãos, duas mulheres e sete homens. Hoje só tenho uma tia viva, com 93 anos de idade, que por sinal é muito linda.

A história dos meus pais é muito grande e bonita.

Tem uma passagem muito interessante que é o seguinte: as meninas de Caçaroca eram muito bonitas. Na época havia uns bailes aqui (na Barra do Jucu), e em Caçaroca. Então, os parentes dos meus pais vinham de Caçaroca para fazer os bailes aqui (na Barra do Jucu), e vinham pelo rio Jucu de canoa remando. Depois, eles subiam até Caçaroca com as meninas, e pegavam os cavalos para retornarem para as fazendas. [...] O pessoal daqui da Barra conta como era antigamente. O meu pai tocava muito, e minha mãe adorava cantar.

[Com quem e com que idade você aprendeu a pescar?]

Eu aprendi com meu avô. Eu o via pescar e achava interessante, lembro-me como se fosse hoje, levei uma surra da minha mãe. Peguei um puçá, arranquei o arco, juntei as malhas em cima, amarrei um cordão e embaixo amarrei umas pedras. Saí pela beira da maré jogando aquele troço. Quando minha mãe me achou eu estava todo cheio de lama e por isso levei uma surra debaixo do chuveiro. [...]. Mesmo assim fui aprendendo. Depois, meu pai comprou uma tarrafa, fui jogar tarrafa e pescando. Eu gosto muito de estar no mar e no rio, mexendo com peixes, tratar de badejos de 20, 25k, [...].

Eu acho que é genético, esse lance de pescaria é herança do meu avô materno. Pela parte do meu avô paterno é mais criação de gado e fazendas. Eu também gosto de animais, tanto que meus primos [por parte de pai] trabalham com gado e plantações. [...].

[Como era a pesca antigamente e hoje?]

Isso aqui era a coisa mais linda do mundo em termos de fartura de peixe. Na época da enchova, quando se colocava um trasmalho aqui, logo em seguida quando se levantava dava uma quebra. A quebra é quando se coloca o transmalho, tudo retinho nas boias, e quando se levanta dá umas quebras. Pegavam-se muitas enchovas, robalos de 15 a 20k, mero, caranha, e sarda. Era fora do comum a quantidade que se pegava.

Ali, na maré, depois da ponte, se mergulhava para pegar camarão. Quando se mergulhava e passava-se a mão no cabelo, parecia que não tinha cabelos devido à lanolina da água. Era uma água preta, mas pura lanolina. Colocavam-se as mãos nas locas e pegavam-se aqueles grandes camarões. Hoje em dia é tudo poluído. Em relação a hoje posso dizer que diminuiu 70%. Acabou tudo. Está tudo poluído. O peixe ainda vem devido ao curso, vem na [?], mas não é aquele peixe que fica aqui, rodando. Quando ele entra e sente alguma coisa, ele abre fora, não fica passeando. Aqui dava muito mero. O mero parava aqui e morava, isso quando não tinha poluição. Você ia lá e matava o peixe. O rio ainda tem peixes, mas está muito poluído. Há 30 anos isso aqui era uma fortaleza de peixes. Chegava-se no riacho, pegava-se o peixe, e amarava-se no pau. Eram cinco ou seis viagens pela manhã, às 10:00h, que é hora das miradas por aqui, e às 16:00h.

O peixe não tinha o valor que tem hoje e era de todos os tipos com muita fartura. Hoje quem ainda vive da pesca aqui é porque é trabalhador, porque é muito complicado viver só da pesca. Às vezes se pesca e outras não, fica a desejar. Não se pode contar só com a pesca, naquela época podia-se contar. Colocava-se o trasmalho e pegava-se peixes em todos os horários pela manhã e pela parte da tarde.

Aqui tem um peixe chamado guaibira, o baiacu. Daqui da cerca, quando se passava, só se via guaibira, que é um excelente peixe, como o bacalhau. Seja assado ou frito, como moqueca ou desfiado na torta. Eu e o Marcelo pegamos em janeiro 600kg de guaibira em uma pescada. Na época dela até deu mais ou menos, mas, antigamente era o ano todo, com muita fartura. O xaréu e o sururu da Barra são os mais gostosos, porque o rio desemboca em cima da ilha. [...] ele é filtrador, bate muito e até chegar lá ameniza a poluição.

Mas tem poluição, tem esse esgoto que desce aí, que vem da região cinco, desemboca todo aqui. Essa poluição cai toda no rio.  E o que vem de Araçás? É muita coisa. Isso fez com que ficasse poluído. É certo que para o mar, o que não for agradável, ele coloca para fora, mas a água ela vai poluindo. Foi uma queda de 70% ou mais da quantidade de peixes que davam por aqui.

[Você acha que foi só a poluição que causou a queda na quantidade de peixes ou tem outros fatores?]

Não foi só a poluição. A poluição a que me refiro é em relação à nossa costa. Outro fator são as traineiras, que estão detonando tudo, e as perfurações da Petrobrás. A dragagem que fizeram na baía de Vitória foi jogada aqui. As dragas vinham no baixinho e por trás dos navios, abriam as comportas e jogavam. A lama foi batendo nas pedras e foi subindo. Os buracos estão cheios de lama da baía de Vitória. Aquilo é poluição da baía de Vitória. O mar tanto joga as correntes para fora quanto joga para dentro. Os pinguins chegam aqui porque são caminhos, correntes de águas que vão e vem. Da mesma forma é a poluição, vai para fora e vem para a costa, aí acaba. Cadê as nossas peroás? Com essas perfurações que fizeram, os “chupas cabras” e as explosões elas nunca mais voltam. A Petrobrás está fazendo e acontecendo e as traineiras estão acabando com tudo. Se o pescador artesanal estiver ali fora pescando e a Capitania passar, vão em cima do pescador. Se o pescador não estiver documentado eles multam e rebocam a embarcação, mas o pescador tem filhos para criar, e aí?

E os grandões? E os barcos que saem da Cibrazen, na Praia do Suá? Saem na 2ª feira, e retornam na 6ª feira com 60, 70 toneladas de peixe. Já saem daqui com o sonar ligado e sabem onde está o cardume de peixe a 30km. Quando estão vindo do mar para descarregar em terra já saem no caminho sabendo a quantos graus ao sul, leste, norte e já vão em cima. E quando chegam lá jogam aquelas redes monstruosas. Já sabem a profundidade, onde tem pedras ou não. Então as traineiras, a poluição e a Petrobrás [...], eles não fazem nada por ninguém. As traineiras estão acabando com tudo. A manjuba e a sardinha, que davam demais em Itapuã, esse ano deu pouca coisa. Tudo isso devido à Petrobras e às traineiras. E eles nada fazem. O pessoal que está pescando a pescadinha agora está se virando nisso aí, e quando acabar a pescadinha?

Antigamente se saía aqui e, com uma hora de mar adentro, se matava de uma a três caixas de peroás todos os dias. Hoje não se acha nem uma. Se não tivessem essas pescadinhas aí os pescadores iriam passar perrengue, vão ter que encarrar um trabalho como ajudante de pedreiro para não passar perrengue, não tem jeito. Aqui mesmo tem várias perfurações e as explosões no fundo do mar que acabam com tudo. A Petrobrás, as traineiras e a poluição se juntaram, e foi à gota d’água. E cada vez vai ficar pior, ninguém vai fazer nada para ajudar. Na nossa costa, de Regência para cá, pelo que tenho de conhecimento, todo mundo tem reclamado. É só poluição e nada mais.

Se o pescador tiver um barco a motor e ficar lá fora dois dias ele ainda arruma alguma coisa. Aqueles que trabalham com batera aqui na costa, Deus me livre! E quando se coloca a rede o mar vem e leva tudo embora e aí?

Se não se tiver um capital de giro, fica-se a desejar. É complicado, só vai piorando, e eles não fazem nada. Estão vendo o que está estampado, mas não fazem nada pelo pescador artesanal. Temos o CEAPS que criou o defeso, que é de quatro meses. Eu acho que o defeso do sururu deveria de ser pelo menos de seis meses porque o pessoal está atacando muito as pedras. Eu tirava dez sacos, não tiro mais. Tem vários barcos que tiram por dia 40, 50 sacos. As pedras não resistem, então o defeso de quatro meses, de setembro a dezembro – ele fecha em 1º de setembro e abre em 1º de dezembro –, eu acho um prazo muito curto, deveria ser de pelo menos seis meses para poder dar tempo, mas não fazem isso porque têm que pagar. O certo deveria ser um ano, porque o sururu [...] Se você for ver as pedras onde ele está [o sururu] está tudo preto e pequeninho, está um pouco atrasado. Se fossem dados seis meses ele ficaria melhor.

[Atualmente a pesca é a sua única fonte de renda?]

Sim.

[Dá para viver só da pesca ou tem que complementar com outra coisa?]

Tenho que complementar com outras atividades. Se gasta muito e a gente tem que dar nossos pulos.

[Viver da pesca hoje é complicado?]

Para o pescador artesanal, sim.

[Como é sua rotina como pescador?]

Acordo às 04:30h da manhã, pego os peixes e vou vender. Chego em casa às 21:30h, isso é quase todos os dias.

[Você tem ponto fixo?]

Não, onde tem barco descarregando eu vou. Escolho os melhores peixes, compro, pago mais caro e exijo a qualidade. Se tenho qualidade, tenho preço. Eu optei só pela pesca, que eu não largo, e faço porque eu gosto, e tirar o sururu. Aqui só quem tira sururu sou eu e o Marcelo [...]

O mergulhador liga para mim, porque eu pago o melhor preço e pago em cash. Chegou, paguei. O pescador que vem do mar cansado [...] o peixe vem direto para minha mão. É até engraçado porque o pescador já separa o peixe para mim porque ele sabe que pago em dinheiro. A minha clientela é grande porque tenho um bom peixe. É caro, não vendo barato, sou careiro, mas tenho qualidade.

[Relate as etapas do seu trabalho?]

No dia que chega a barca eu vou comprar o peixe para revender. Separo, peso, trato, encero, ensacolo e empacoto, isso quando não tenho freguês. Tem fregueses que pegam inteiro, outros pegam sem tratar, outros exigem que corte o peixe, outros querem ou não com a cabeça. Vendo muito para restaurante e entrego em domicílio.

Eu só vivo de sunga, aqui eles dizem que quando estou de bermuda não estou legal. A sunga é o meu dia a dia. No meu condomínio não ando de sunga porque não é permitido, mas no meu dia a dia é sem camisa e de sunga de praia, pode estar chovendo ou fazendo sol, com vento sul ou norte, fico assim direto, não tem jeito.

[Você não tem uma rotina muito definida, de fazer a mesma coisa todos os dias, como é isso?]

Tenho uma rotina diversificada e é raro eu fazer dois dias a mesma coisa. Às vezes estou no camarão, no peixe ou no sururu. Agora estou no sururu mas, se chegar peixe, estarei no peixe e no sururu. Às vezes vou para o barco, outras, vou comprar peixe. Eu só compro peixe vivo, às vezes chego e vejo que não serve. Sou muito enjoado, fico no máximo dois ou três dias na mesma rotina, senão acabo estressando.

[Como é a preparação da rede? Desde a compra até colocar no mar, o que tem que ser feito?]

Antigamente a rede era feita de barbante, de tucum, de onde se retiravam os fios. Era um tipo de nylon muito reforçado. Hoje não se faz mais, hoje compramos as redes prontas. Tem pessoas que fazem, mas é muito tempo para se preparar, dependendo do tamanho e da malha, então é mais fácil se comprar o pano de 70, de 80 com determinada malha. Compra-se o pano, estica-se e só entralha as boias na corda e o chumbo, e a rede está pronta.

Antigamente levava-se de um a dois meses para se fazer uma rede. A tarrafa é feita à mão, mas também é feita na máquina. O pessoal opta por aquela que é feita à mão porque fica mais perfeita e ela se abre toda, o que não acontece quando é feita na máquina, porque afunila. As redes que são feitas na máquina têm um detalhe: dependendo dos peixes, quando batem na malha, correm e furam a malha. Quando a rede é feita à mão a malha não corre. Quanto mais grosso o nylon mais a malha aperta. [...] se puxa e ela volta para o lugar. De acordo como o peixe bate, ele fica ou não, às vezes nem fura, a malha corre e o peixe passa pelo buraco. Por um lado ficou mais barato e é mais rápido. Outro problema é que os fazedores de redes foram morrendo ou não querem mais fazer porque já estão idosos e não têm mais aquela força para apertar o nó. Hoje compramos a rede, amarramos em uma árvore, pegamos malha por malha, amarramos por cima e por baixo, colocamos um peso de 100kg em baixo.  Ferve-se uma água, coloca-se uma escada e joga-se a água quente no olho. Se vê que cede um tanto do nylon aí, se fecha o nó e se aperta. O peso, quando a água quente bate, ele estica, daí se fazer esse processo.

[Quais são os tipos de redes e qual a diferença de uma para outra?]

No caso a pescadinha tem que ser uma malha fina e menor, um nylon 35, 40. Para um peixe maior, um nylon 60. Para a enchova um nylon 90 ou 100. Cada peixe tem uma malha, um nylon. Quanto maior o peixe, maior tem que ser a resistência do nylon e mesmo assim fura. Naquele tempo tinha um nylon bom, do tipo nilon. Hoje não tem mais o nilon, o que tem é tudo falsificado.

Para a costa o trasmalho é mais baixo e para fora o trasmalho é mais alto. Tem trasmalho de 100 malhas de altura, de 30, 40m de altura, depende muito da qualidade do peixe.

Naquela época tinha um nylon que se chamava de rede traiçoeira e foi proibida. Era um nylon resistente, o peixe batia e não furava, embolava mas não furava. Devido a este tipo de nylon dessa rede traiçoeira diziam que se estava matando muita lagosta. Na realidade ela tinha um tempo de vida maior, então acharam melhor acabar com essa rede. Aí passaram a pagar certa importância para as pessoas entregarem esse tipo de rede. Muitas entregaram, aproximadamente 80%. Dizem que ela mata muito mais do que a de nylon comum, mas não é. O nylon comum mata mais do que essa rede, só que essa rede de nylon tipo seda é mais resistente do que o nylon que se usa frequentemente. Cada peixe tem uma bitola de malha: a pescadinha, a sarda e a enchova. Se você colocar um nylon de 50 para enchova ela fura, a não ser se ela agarrar. Se colocar um nylon de 100 ela vai bater e vai ficar.

[Como são as redes de fundo e de espera?]

As redes de fundo são duas garateias. Entralha-se boia e chumbo e a altura é que se deseja. Lá fora se larga uma boia com a garateia, com ferro pesado, com bastante marra, e se estica a favor da água, coloca-se uma boia em cima e uma em baixo. Se largar muito fora se marca pelos morros. Vai, puxa pela boia, recolhe a rede, mira e larga novamente.

A de espera também se arma, só que ela é boieira. Se mira todos os dias e deixa lá. No verão são três miradas: pela manhã cedo, às 10:00h, e à tarde. Geralmente na rede de fundo se faz o seguinte: mirou pela manhã e à tarde, se não deu peixe eles miram pela manhã. Aí o peixe dá e não se mirou à tarde, quando chega pela manhã o peixe está todo estragado.

Eu digo o seguinte: se colocou a rede lá tem que mirar pela manhã e à tarde. Se não deu pela manhã não vai dar pela parte da tarde? A rede está lá e ela está caçando, aí o peixe dá, mas se perde o peixe, já aconteceu muito isso.

A rede boieira também. A rede boieira é alta e tem a possibilidade de apanhar o peixe. Se colocar a rede de sete metros em um lugar de profundidade de sete metros ela fica da face até em baixo e a possibilidade de se pegar o peixe é grande.

A rede de fundo, não. Se tiver três metros ela vai pegar o peixe que estiver na profundidade de três metros, o peixe que passa por cima não pega. As redes de fundo podem ser de nylon 100, e podem ser malha grande ou pequena, fica a critério de cada pessoa. Mas nas redes de fundo se usa mais um nylon mais fino, que é para peixes menores. Todos os pescadores que usam rede de fundo usam um nylon mais grosso, quanto mais rede melhor.

[Você tem redes?]

Sim, elas estão em terra devido ao tempo. Eu sou muito cuidadoso com minhas redes: são todas branquinhas e guardadas certinhas porque são caras. Tenho redes de 5, 6 anos que você não diz que tem todo esse tempo, isso é devido ao cuidado.

[Em que ponto você coloca suas redes?]

Coloco aqui na barra ou lá por fora. Quando eu coloco, miro todos os dias pela manhã e pela tarde.

[Você também pratica a rede de arrasto?]

Já pesquei muito, já matei muito peixe aqui, eu remava muito e colocava muita rede, mas depois fui cansando e não trabalhei mais com rede de arrasto. Era eu e Helinho que pescávamos e dava muito peixe. Aqui [na Barra] há 35 anos dava lance de se matar de três a cinco mil quilos de peixes, isso quando tinha peixe. [...] Hoje é lá uma vez ou outra que isso acontece, só por milagre, o peixe não vem porque está poluído, passa por fora, o peixe vem e quando chega passa por fora, pega a corrente e vai embora.

Outro fator que também contribuiu para a escassez de peixes foi a Tubarão, porque acabou muito com a nossa corrente de água, uma vez que o peixe vem na corrente da água. Ainda tem corrente, mas não é tanto como tinha. São vários fatores que se juntaram e atrapalharam.

[Você tem praticado a pesca de linha de fundo?]

Não, porque não tem mais peixe, o que está se pegando é a pescadinha, que está tendo agora. Mata-se de 30 a 100kg de pescadinha e depois se coloca a linha e não se pega nada. Vai-se pela manhã, fica-se até das 5:00h às 10:00h, e quando olha para a caixa está vazia. E o pescador que tem filhos para alimentar? O cara pira. Você não pode ir lá fora com um motor de 5.5, se for pode pegar uma tempestade e não voltar, e aí?

[Descreva a prática da linha de fundo?]

Se faz um arco, do tipo de um bodoque, e no meio dele dá uma voltinha, coloca-se a chumbada e divide. Faz-se um tipo de anelzinho e amarra-se a linha com três anzóis. Qualquer toque que der o chumbo balanceia e aí você sente, bate no fundo e você recala com as duas braças. Aquela linha fica chumbada e qualquer toque que o peixe der você pega. O arco é para se ter um tato do peixe, às vezes o peixe é tão sabido que quando você puxa ele já comeu a isca.

[Que tipo de isca você usa?]

Quando eu vou pescar eu gosto de levar uma sardinha, um camarão ou uma tainha, eu gosto de levar vários tipos de iscas, eu gosto de ter opção. Tem pescador que não leva nada [...].

[Como é feita a retirada do sururu e quais são os perigos?]

É um processo muito perigoso. Eu retiro nos lugares mais perigosos, aonde ninguém vai, onde bate. Se você cair em cima de uma pedra daquela pode ir direto para o hospital porque é só craca e corta muito. Além disso, tem que ter muito preparo físico porque se retira no grapuá e é duro. Eu sou rápido: em uma hora e meia eu tiro a minha cota de dez sacos, eu não gosto de tirar mais, é trabalhoso e cansativo. É como se fala: é um dinheiro que é ouro, mas deixa-se o couro. [...].

[Onde você começou a pescar?]

Foi em Santo Antônio, no cais do avião, próximo ao Sambão do Povo. Antigamente se chamava cais do avião, ali aterrissavam aviões na água. Eu comecei em Vitória, no cais do avião, próximo a Ilha das Caieiras, em Santo Antônio, onde é hoje a rodoviária, na Ilha do Príncipe, era um michouro [?], isso há 40 anos.

[Quando você veio para Vila Velha?]

Vim quando meus pais compraram uma casa aqui para passarem o verão. Vieram passar o verão e ficaram. Ficávamos aqui e na Praia da Costa.

[Você tem ponto fixo?]

Não tenho ponto fixo, sou igual a cigano: estou lá, estou cá e não paro. Se eu ficar em um lugar parado, fico doido. Fico aqui na Barra, no Ribeiro, na Prainha, Itaparica, Itapuã, Barra Seca, Barra Nova e Conceição da Barra. Não tenho lugar certo.

[Quais são suas lembranças desses pontos de pesca?]

Daqui da Barra me lembro de que quando saía para pescar em uma hora de pescaria voltava com a cesta cheia de peixes: de robalo, tainha e ticupá. Se fosse ao rio com dois, três metros de água, já estava com uma peixada, moqueca de robalo, de ticupá e de caramelo. Era muito peixe. Aqui de frente àquele prédio, que se chamava puleiro, se ia pescar com isca de camarão vivo, se colocava a vara de pescar na areia e se ferrava aqueles robalos de 800g ou de um quilo, ia lá e apanhava, era muita fartura de peixe. Camarão, quando se passava nas pontas da pinguela, de lá se via os camarões pitu passando. Tinha muito caranguejo e siri. Ainda tem caranguejo e siri, mas não como antigamente, hoje está tudo mudado e vai mudar mais para pior.

[Você tem alguma história que você gosta de contar?]

Têm várias com o Marcelo, meus tios e primos. Íamos pescar e matávamos caranhas de 30, 40kg, colocava no pau e trazia.

Uma vez nos fomos pescar eu, o tio do Marcelo e um tio meu que morreu. [...] Eram mais ou menos 17:00h, e matamos três caranhas grandes. O Luís pegou todas as iscas e jogou dentro d’água, quando viemos embora ele escorregou na pedra, e já era da noite, ele caiu, mas não largou o peixe [...]. Ele ficou todo ralado.

Aqui tem muita história. Mas não é história de pescador, são histórias mesmo. Eu e o Marcelo já matamos muito peixe grosso por aí.

Uma vez fui pescar com o Brega do restaurante e matamos uma raia de cento e poucos quilos, era em torno das 10h da noite. Ele disse a raia está grávida e quando ele abriu a barriga da raia ficou desesperado – O que nós fizemos?  E começou a colocar os filhotes dentro d’água. Era um tempo bom e hoje só ficamos nas histórias e nas lembranças.

[Quais são os pontos positivos e negativos da vida de um pescador?]

O bom é quando vamos pescar e que encontramos o peixe, é uma maravilha. Vai-se na ansiedade de se matar um peixe e quando chega vende. Depois toma uma pinga ou uma cerveja. O ponto negativo é quando chega lá fora, não consegue pescar nada e volta com a caixa vazia e ainda ter que colocar a embarcação para cima. Aí ele coça a cabeça, olha para terra e diz: meu Deus do céu, o que eu vou fazer?

Agora, quando o pescador vai e trás a caixa cheia, pega o peixe e vende, no outro dia está com aquela ansiedade de ir pescar novamente. Antigamente, era assim. Hoje em dia o pescador, se não for passar dois três dias lá fora, quando ele volta é só decepção e tristeza. Ele vai mesmo para enganar em casa para dizer que está pescando.

[O que você mais aprendeu na vida de pescador?]

Só pelo fato de se estar no mar, é uma coisa fantástica. A natureza é perfeita. Você está ali parado e vê aquele cardume de peixe. Às vezes dá de cara com um cação grandão. Outras está pescando, trabalhando pra lá e pra cá, e embarca um badejo, uma pescada. São momentos que marcam pelo resto da vida, é muito bonito, só quem vai lá é que sabe. Agora, quando se pega uma rebordosa aí fora, umas tribuzonas, pede-se a Deus para se livrar dos pecados.

[O que são tribuzonas?]

Tribuzonas é tempo, são tempestades. Só peguei uma vez. A tribuzona aí fora é feia: fecha o tempo e o mar bate muito, só se ouve o rádio chamando, o telefone não pega e você naquele [...], não presta. A vida de pescador é muito ingrata, arriscada e não tem peixe. Antigamente era bom.

[Até quando você pretende pescar?]

Eu não paro de pescar nunca, só quando eu morrer. O contato com a natureza é muito bom. Sempre estamos aprendendo alguma coisa e sempre somos surpreendidos com novas coisas. A gente pensa que sabe das coisas.


[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelo entrevistado.]


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