Entrevistado: Maria Miranda (mãe do pescador Damião Miranda Ferreira, da Praia de Itapuã) Grupo ao qual pertence: Praia de Itapoã Entr...

Entrevistada: Maria Miranda



Entrevistado: Maria Miranda (mãe do pescador Damião Miranda Ferreira, da Praia de Itapuã)
Grupo ao qual pertence: Praia de Itapoã
Entrevistador: Maria Clara Medeiros Santos Neves
Data da entrevista: 15/10/2013.

Local / data de nascimento: Itapoã, Vila Velha, ES, 22 de abril de 1928
Nome do pai: Manoel Miranda
Nome da mãe: Teresa

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Eu não sei dizer mais a minha idade, porque esqueci. Até em 1955, quando eu votei, eu sabia alguma coisa, daí eu esqueci tudo. Eu sei que meu pai tirou direitinho meu documento, depois ele foi pescar no mar, eu não sei se ele levou para o mar ou se deixou em casa com a mulher que escondeu [o documento] A mulher dele não era nossa mãe, a nossa mãe era Teresa. Quando ela o deixou [a mãe], ele arrumou uma tal de Margarida. Ela tinha muitos filhos que foram morar conosco, ele foi morar com ela.

[A senhora tinha outros irmãos, filhos da D. Teresa?]

Meus irmãos eram José Miranda, que morreu, Ermínio, Permílio e eu. Nós éramos quatro irmãos. O Dico, o mais novo, não era filho dos nossos pais. E eles se acabaram todos, todos já morreram e morreu minha mãe. Nós chamávamos de mãe, mas era avó, porque foi ela que nos criou. […] Mamãe era avó que nós chamávamos e com ela ninguém queria ir atrás, porque o negócio era diferente. Depois que nossa avó faleceu meu pai nos levou para ficar com ele. Ele foi morar lá na rua atrás do cemitério, na Rua da Abissínia, em Vila Velha. Ele comprou uma casa e foi morar lá, mas nós não quisemos ficar com ele por causa da outra mulher.

[Quando vocês foram morar com ele?]

Isso foi depois de grande, eu me lembro que tinha 12 anos de idade e meus irmãos eram mais novos do que eu. Zé Miranda foi morar na Prainha, com um pessoal que eles chamavam de Leão. O Ermínio, ele deu para a madrinha.

Aí viemos para cá de novo e ficamos todos juntos, com minha avó. Depois que minha avó morreu ficou tudo para um canto e outro e ficaram sem rumo, até eu fiquei procurando rumo, todos perdidos.  Aqui nessa praia nós moramos em um terreno que era da minha mãe, depois que fizeram uma partilha de um negócio deles é que foram morar em Vila Velha, na Rua da Abissínia […] Nós viemos para a companhia da nossa avó de novo e depois todos morreram. Da minha irmandade só eu fiquei, meus irmãos já se foram todos.

[Seu pai era pescador?]

Meu pai era pescador e morreu afogado lá naquela ponta de pedra que tem ali fora, perto da ilha. Ele virou na canoa, ele, Zé Miranda e Ermínio, todos os dois pequenos. Pegou a canoa para pescar e era tempo de manjuba e com muito vento no mês de julho, com muita ventania. Ele já era um homem velho, tinha 74 anos. De algumas coisas eu me lembro bem, ele tinha 74 anos, o vento veio, virou a canoa, disseram os dois filhos ainda pequenos, mas eles falaram que foi ali naquela ponta daquela ilha ali fora. Dizem: que ele gritava muito – me acode, me acode Nossa Senhora da Penha […] ele não tinha mais força e as crianças pequenas ficaram em cima da canoa […] ali naquela ponta daquela ilha, passaram lá por fora da ilha e voltaram e o vento tocou para a barra […] 8h da noite, só os dois.

Dizem que lá onde afundou […] da barra a onda veio e virou a canoa em cima, não tinha corda e não tinha remo, não tinha nada para amarrá-los. Aí saíram um monte de pescadores e foram procurar em algumas praias. Foram para Barra, para a Praia da Costa, foram não sei para onde e dizem que chegaram lá na praia da Barra acenderam o farol do carro direto para o mar […] que gostava muito deles e tinha um carro, saí para procurar […] dizem que parece que ouviram gritando – me acode. Tinha um tal de […], que também já morreu. […] O Antério, filho do Zeco, todos eles procurando e quando chegou na parte da tarde caíram na água e foram, dizem que aqui perto, e só viram os moleques gritando por eles […] o pai já estava morto, mas dizem que acharam os filhos em cima da canoa […] e quando chegaram lá não acharam mais e só acharam os filhos […] Esse homem nunca […] procurando, a saber, em todas as praias que todo mundo conhecia. Não tinha quem conhecesse todos eles conheciam, todo mundo gostava dele e ninguém nunca soube que ele desse em lugar algum morto, nunca.

[Qual era o nome dele completo?]

O nome dele era Manoel Miranda. A mãe da minha mãe era Juliana […] e meu avô era Afonso […] de Sousa. O meu avô não era pescador, era de roça. Não cheguei a conhecer meus avós por parte de pai, mas dizem que eram gente boa. Meu pai quando era novo não se casou com minha mãe, ele foi morar. Quando ele foi morar com minha mãe ela já tinha dois filhos do primeiro casamento, era estivador de navio, trabalhava no navio […]

[Quando a senhora veio morar aqui em Itapuã?]

Eu não me lembro, mas dizem que foi no mês de abril de 1928. Aqui não tinha nem um caminho, nem praia não tinha, era tudo mato. Tinha um homem que se chamava Luís Freitas, que colocava eles para tirar lenha aí. Era muita. Era […] Serafina, Eugênia, um tal de Luís Pedro, iam todos tirar lenha, tiravam e juntavam, e quando chegava no dia de sábado eles não tiravam. Era uns carregando aqueles paus e tirando de dentro do mato, lascando de manhã à noite, para juntar aquela lenha para ver se não tinha lenha verde para vender, para comprar um bocado de farinha, senão não comia […]

[A senhora lembra se tinha muitas ou poucas pessoas morando aqui?]

Quando nós morávamos aqui não tinha nenhuma família, só tinha aqui era cobra, jiboia e cachorro do mato. […] Era muito troço que tinha aqui no mato. Não tinha ninguém. […] Depois […] tinha um barracão do finado meu pai […] depois, eles repartiram e ficou para as bandas deles lá, que era da minha avó, que eu chamo de mãe. […] Depois, passado muito tempo, eu já estava com quinze anos é que veio […] e quem me deu roupa foi D. Rosa […]

[A senhora fazia rede? Com quem aprendeu?]

Fazia rede, trasmalho e isso foi o sustento dos meus filhos. Aprendi a fazer rede em casa mesmo. Tinha muita partilha […] D. Teresa é a que mais fazia rede mesmo. Eu fazia mais devagar, ela se sentasse aqui agora […] com três, quatro braças. Eu tenho meus dedos todos aleijados de tanto que fazia rede, agora é que não faço mais. […]

Qualquer coisa que tinha era com a benzedeira, que já faleceu.

[A senhora se lembra das cantigas?]

Eu não cantava […] quem gostava muito de cantar era de D. Teresa quando estava fazendo rede, mas eu esqueci. […]


[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelo entrevistado.]


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