“Todo o Universo é penetrado por signos,  se é que não se compõe apenas de signos.” (Charles Sanders Peirce) “E = hf” (Max Planck...

Ondículas

“Todo o Universo é penetrado por signos, 
se é que não se compõe apenas de signos.”
(Charles Sanders Peirce)

“E = hf”
(Max Planck)

Ondas do mar
lambendo os nossos corpos...
Se forem de sons,
ondas podem dizer “Oi”
à galáxia de neurônios
de cada ouvinte
ou fazer com que eles escutem
a música das esferas
como também estridências
das mais infernais.
Mas onde ficam as de possibilidades
que faz algumas décadas
físicos chamam ondas quânticas
às vezes implicando
com as estranhas implicações
achadas nas suas entranhas
mais matemáticas do que concretas?
Onde elas se fincam
nestes versos
e na realidade do mundo?

Sim: ondas às vezes espraiadas
que se comportam absurdamente
como partículas ou corpúsculos
sendo ainda verdadeira
a inversão gramatiquântica
deste sexteto!

Ondas ditas
de possibilidade
ou – segundo um São Peirce
ianque e grego
ressuscitado agora –: “Yes,
eis mais um
dos nossos Ícones”.

Elas são
os signos estatísticos
do que serão
quando forem corpúsculos
logo que medidas:
corpúsculos
ou partículas (particorpúsculos)
em ao menos 4%
da partitura do universo –
e por que não corpusartículas
nos mesmos incertos 4%
que o cosmo nos deu de presente
por algum tempo?
(Existe
ou é um dado já antigo
o neologismo-quase-chiste
“ondículas”.
Joguemos um pouco mais
com estas coisinhas tão sérias!)

Ah, as partículas
que formam corpos com aparência
compacta
para os capítulos de O livro da libido
ou A obra em rubro de páginas
quase sempre abertas
com mãos ávidas, desabridas...
Não. Problemas demais
neste ponto sexy.
Melhor
o quebra-cabeça quântico do sexteto
em que já pusemos os olhos:
em princípio sem eros à vista,
ele terá também
as suas sementes semióticas.
Partículas, portanto:
de Partenons
como dos meus dedos
digitantes.
Partículas: se delas
as ondas quânticas são signos
em que o espírito semiótico de Peirce
hoje veria o milagre dos Ícones,
elas mesmas são Índices
(ou partes
agora evidentes) das ondas
de antes.
(Porém partes
com ou sem aspas?
Agora: ficamos
completamente às tontas,
sem resposta.)

Chance A de 70% de probabilidades
de um corpúsculo aqui,
B de prováveis 20%
do mesmo corpúsculo
bem ali,
C de restantes 10% provavelmente
por acolá,
70%, 30%, 20%, setentrinvin...
ou contagem ABC
quase sempre idêntica
se formos repetindo sem erro
o experimento
de bisbilhotar onde se acha a micro
partícula,
realizado de modo mais minucioso
que o de computar quantos anjos cabem
numa cabeça de alfinete –
e assim
surge logo uma Semioquântica.
Esta
mais do que como pinguinhos de bica
se comporta
feito represa aberta
que afinal formará os leitos
para os nados, os afogamentos
de todas as nossas
muitíssimo concretas
ânsias.

Sim, meus caros, eu sei:
outro símbolo
que poderia ter cabimento aqui
seria o das nossas
sem dúvida mais simpáticas
âncoras.
Nenhuma asfixia,
queimação nenhuma agora,
se elas forem de fato
a coisa eleita.

Ou outras
(nova série de hidroimagens):
noves
ou ∞s fora,
a dubiedade onda-partícula,
embora nada óbvia,
deve ser vista como algo tão fácil
e divertido
como uma partida de bilhar
Planck x Newton
sobre um mar agitado, sem sequer
pranchas de surfe
sob os seus quatro pés geniais –
se é que fui obscuro
mais do que o suficiente
para findar.


NOTA (ASSUMIDAMENTE) CRÍTICA:

Olen Lup Selfenrod
(físico nuclear e especialista em epistemologia quântica)


Atendendo ao pedido do romancista Reinaldo Santos para dar um parecer sobre o texto acima (que, afinal, envolve problemática científica), com a concordância de quem o assinou, redigi o que segue.

O autor dos versos (muito) livres de “Ondículas” é o que se denomina, na gíria, um “espertinho”. Vejamos. Ele busca fazer graça (ainda que poética, admito) com o conceito de dualidade onda-partícula, o qual, na Física (ou Mecânica) Quântica, serve para lidarmos com as propriedades ondulatórias e corpusculares tanto da luz quanto da matéria, depois que, em 1900, Max Planck descobriu o quantum de ação e muitas pedras rolaram com a Escola de Copenhague. É inaceitável que se busque filosofar sobre a Mecânica dos quanta (pl. de quantum) sem um trabalho intenso com o seu formalismo matemático. Por quê? Tal formalismo não é somente um recurso para cálculos sofisticados, não: ele é já um condutor de ideias, induzindo-nos a percorrer uma determinada viela intelectual, não outras. Este anátema é válido ainda para um caso, como o presente, em que se trata de um tópico da Física atômica e subatômica em versos, mesmo que não me julgue competente no campo da lírica, mormente a moderna – ou pós, lá sei...

Tentando entender, com bona fide, o que o poeta LM busca afirmar sobre a dualidade onda-partícula da FQ (infelizmente sem um debate, ainda que versificado, sobre o seu rationale!), parece-me que ele pensa nas trilhas do modo seguinte.

1) Quando a matéria e a luz se comportam como partículas (ou corpúsculos), elas não se apresentam com caráter ondulatório, ao passo que, assim que se comportam de maneira ondulatória, elas não se apresentam como partículas (o que Niels Bohr chamou Princípio da Complementaridade, infelizmente invocando o Tao!)*. Ora, isto é tão insofismável quanto a raiz quadrada de -1!... Há até uma equação famosa para a matéria quanticamente considerada: a da função de onda, de Erwin Schrödinger, que serve para as “ondas de matéria” (expressão um tantinho “barroca”, admito).

2) Em algumas das muitíssimas páginas que escreveu, o desvairado norte-americano Charles Sanders Peirce (jocosamente tratado como “São Peirce / ianque”, em “Ondículas”) deixou-nos as noções de ícone, índice e símbolo, modalidades do signo definidas a partir das relações deste com o objeto que ele represente. Ícone será o signo que substitua um objeto por revelar alguma semelhança, certa similaridade (ainda que não “retratística”) com este: por exemplo, o desenho de um aparelho de TV ou ainda estatísticas de algo, como as faixas de telespectadores deste ou daquele canal do sistema televisivo ao longo de um mês; índice, o signo que se baseia em alguma conexão mínima, dinâmica, efetiva com o objeto que ele represente: por exemplo, uma peça de aparelho de TV, em relação ao aparelho inteiro; símbolo, o signo que se ligue ao seu objeto por convenção, costume, arbitrariedade, hábito (adquirido ou nato): por exemplo, a marca Samsung. Tudo isto grosso modo, claro.

3) Ou muito me engano ou o autor de “Ondículas” imagina que a luz e a matéria, quando consideradas em estado de onda pelos meus colegas físicos, sejam ícones de possibilidades das partículas que serão logo detectadas, quando esta ou aquela onda vier a ser observada (medida). (Ondas quânticas são ondas de possibilidade. Algo estranho, mas verdadeiro, às vezes deveras estressante.) A observação provoca o que, em nosso jargão de Física, denominamos um colapso da função de onda. Eis outro modo de descrever isto: “uma onda de probabilidade [...] muda de uma forma bem distribuída para uma forma pontiaguda” (GREENE, O tecido do cosmo. São Paulo: Cia. das Letras, 2005, p. 622). Também poético, não? Leiamos agora o físico-sacerdote John Polkinghorne: “Se um elétron estava em um estado com propriedade dispersa ‘aqui’, ‘lá’ e talvez ‘em todo o lugar’, quando sua posição foi medida e constatou-se que, nessa ocasião, estava ‘aqui’, então a distribuição de probabilidade teve que subitamente mudar, ficando concentrada unicamente na posição realmente medida – ‘aqui’” (Física quântica. Rio Grande do sul: 2011, L&PM, p. 39). Amém!... Creio que o temerário versejador de “Ondículas” acredite que, se a onda de possibilidade do elétron (ou do fóton, etc.) sofrer um “colapso”, ou seja, se as suas possibilidades A (equivalendo a uma porcentagem hipotética de 70%), B (equivalendo hipoteticamente a 20%) e C (equivalendo por hipótese a 10%), todas superpostas, forem detectadas apenas como A (digamos), quando medidas uma vez, então a “onda de possibilidades A-B-C” (escrevamos assim) é um ícone probabilístico de A, pois ela se assemelha, na sua potencialidade, ao que A é, na detecção. Por seu lado, A, o estado do elétron que efetivamente foi registrado, tornando-se objeto de tal registro, é um índice em forma de partícula detectada do que a onda foi: uma “parcela” (se se quiser falar assim) da onda em questão. (Faça-se 1000 vezes a experiência de medir o sistema A-B-C. Resultados aproximados: irá obter-se cerca de 700 casos de A, 200 de B e 100 de C...)

Pena que o raciocínio do criador da composição que, criticamente, comento não denuncie ter a mínima ciência do formalismo próprio da Mecânica Quântica, insisto. Aliás, ele tampouco explicitou para os seus leitores o conteúdo das noções peircianas de ícone e índice que irrompem nos seus versos... (Quanto às “hidroimagens” do final do poema, hesito entre o seu despropósito e – ao menos para alguns – a sua engenhosidade.)


P.S.: O autor não se deu também aos trabalhos de esclarecer para o seu público dois pontos: 1. que a fórmula E = hf, de Max Planck, colocada como epígrafe, indica ser E a energia, f a frequência de radiação e h a constante de Planck (um número ínfimo, postulado pelo sábio alemão, que se mostrou como que a “alavanca” da imensa revolução teórico-prática da Física Quântica); 2. que “os 4%  / da partitura do universo”, a que se refere no seu poema, dizem respeito aos cerca de 4% da matéria conhecida do cosmo (os restantes perto de 96% são ícones da nossa profana ignorância, infelizmente, desde os dias do zangado Fritz Zwicky tratados como “matéria escura” e, décadas depois, acrescidos pela “energia escura” de Michael Turner & cia.). – O. L. S.

* Há o que um ex-aluno meu estudou como “Fenômenos intermediários entre ondas e partículas”, mas isto não invalida o Princípio da Complementaridade, tão só o matiza (cf. PESSOA Jr., Osvaldo. Conceitos de física quântica. São Paulo: Livraria da Física, p. 112-113, 2 vols.). E basta!...

[publicado originalmente no site em 2004]

Lino Machado é poeta e professor universitário. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Estação Capixaba

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