Entrevistado: Silvio Roberto Scapin, apelido  Xexéu, 51 anos de idade Grupo ao qual pertence: Praia do Ribeiro, Vila Velha Entrevistad...

Entrevistados: Sílvio Roberto Scapin e Antônio Marcos



Entrevistado: Silvio Roberto Scapin, apelido  Xexéu, 51 anos de idade
Grupo ao qual pertence: Praia do Ribeiro, Vila Velha
Entrevistador: Fernanda de Souza
Data da entrevista: 10/03/2014.

Local / data de nascimento: 1963
Nome do pai: Haroldo Scapin, artesão e pedreiro
Nome da mãe: Wapleth Borgguinon Scapin, autônoma
Separado, 4 filhos.

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[Com quantos anos o senhor começou a pescar?]

Eu comecei a pescar com 15 anos de idade. Antes de começar a pescar eu estudava, mas matava muita aula e ia para o Convento, lá para as bandas de […]. Eu estudei ate o 2º ano do ensino médio e faltava um ano para terminar o 2º grau. Estudei no Godofredo Schneider, na Prainha de Vila Velha.

[O senhor tem irmãos?]

Um já faleceu, mas tenho três irmãs vivas.

[O que o senhor fazia antes de se envolver com a pesca?]

Antes de começar a trabalhar com a pesca já fazia algumas coisas para ganhar dinheiro, como catar jornal para vender.

[Como o senhor teve contato com a pesca?]

Eu morava com meus pais (minha família), e tive um atrito com minha irmã e me afastei de casa. Saí de casa e vim morar aqui na praia do Ribeiro, no Hotel Santa Luzia. Eu tinha 15, 16 anos de idade e fiquei por aqui mesmo. Na época o hotel era ali e a praia era pertinho, então eu ficava por aqui. Gostei do mar e da pesca, nunca gostei de bandidagem nem de drogas. Aqui, encontrei alguns pescadores e comecei a me interessar pela pesca.

[Qual a sua idade?]

Vou fazer 52 anos.

[Como o senhor aprendeu a pescar?]

Eu vim pescar por conta própria. Eu não tinha barco, mas fazia a boa companhia, ou seja, acompanhava os outros pescadores. Na pescaria um tem que ajudar o outro porque no mar não tem tanto recurso como em terra. Ia pescar com os outros pescadores e fui aprendendo.

Tanto no mar quanto em terra um precisa do outro. Em terra, se você passa mal pega um carro e vai embora. E no mar?  Houve um caso aqui que nós estávamos pescando na ilha e um camarada pisou no […] e atravessou um galho no pé e varou [furou]. Foi o Carlinhos, e eu o coloquei para terra. […] Depois aconteceu com o Ailton, que escorregou na pedra, no limo, e quebrou o braço. Como é que ele podia remar? Eu o trouxe para terra. É importante que o pescador nunca vá pescar sozinho porque se acontecer algum acidente, um ajuda o outro.

[O senhor já sofreu algum acidente?]

Graças a Deus eu nunca sofri nenhum acidente no mar, mas sempre ajudei àqueles que precisam tanto no mar quanto em terra.

[O sempre pescou aqui na praia do Ribeiro?]

Toda vida pesquei aqui. Já fui a outros pontos, mas às vezes são ambientes que não fazem o meu jeito, então eu continuo aqui, prefiro aqui.

[Tem mais alguém na sua família que tenha algum contato com a pesca?]

Não, meus filhos não querem essa vida.

[E seus pais? Qual era a profissão do seu pai?]

Meu pai fazia balaústre, um tipo coluna trabalhada. Na prainha, na esquina próxima a Igreja do Rosário, tem uma casa que meu pai fez o balaústre. Minha mãe trabalhava com meu avô, era autônoma. Trabalhava com vendas, no mercado.

[Como era a pesca antigamente e como é hoje?]

Hoje reduziu muito. O que acabou com os nossos peixes foram esses prédios, essas casas que jogam desinfetante, esgoto, sabão em pó e produtos venenosos para o mar. É isso que está acabando com tudo.

[Antigamente que tipos de peixes o senhor costumava pescar?]

Antes tinha muita fartura. Pescava-se peroá, baiacu, realito e garoupa. Nem siri aqui tem mais, tinha de tudo aqui.

[Qual era a quantidade de peixes que se pescava antigamente?]

Naquela época tinha muita fartura de peixe, não tinha produtos venenosos que se jogam ao mar como hoje. Hoje está quase a zero, não tem mais como antigamente. O que ainda tem são algumas pescadinhas, mas muito fraco. Se quiser pegar um peixe tem que ir bem longe, em alto-mar, eu não vou mais a alto mar porque não vale a pena ir pescar longe, fico por aqui mesmo, pegando sururu.

[Quando foi a última vez que o senhor pescou peixe?]

A última vez que pesquei foi o ano passado, e pesquei baiacu, mas foi fraco, eu e o Wilson.

[Foi muito?]

Foi fraco. Depende do tamanho do baiacu, às vezes pegava dois baiacus grandes que davam 7, 8kg e às vezes não pegava nenhum.

[Quais eram os seus instrumentos de pesca? Como é a sua pesca, de anzol ou rede?]

Eu pesco com anzol, nunca pesquei com rede.

[Como é a preparação da pesca do anzol?]

Depende da pescaria. Tem pescaria que empata o anzol com nylon e pescaria que empata com arame.  O nylon se usa para pescar peixe que não tora [quer dizer, que não corta] o peixe corta o nylon. Para pescar o baiacu tem que ser no cabo de aço porque ele corta tudo, não pode ser nylon.

[O que o senhor pesca hoje em dia?]

Hoje só tenho pescado sururu.

[Como é a pesca do sururu?]

A pesca do sururu é muito trabalhosa: tem que ir à pedra, tem que carregar os sacos nas costas. Às vezes vamos no barco a remo e às vezes, no barco a motor. Cozinhar, descascar, ensacolar e depois vender. É trabalhosa demais, é pior do que trabalhar como pedreiro.

[Atualmente a pesca é a sua única fonte de renda?]

Graças a Deus é a minha única fonte de renda. Não sou aposentado e vivo da pesca. Sou um camarada muito correto e honesto.

[Qual é a sua rotina como pescador?]

Eu acordo às 3, 4h da madrugada e não durmo mais. Antes de sair de casa cuido da minha cachorra e dou alimento para ela, pego minha bicicleta e venho, porque às 5:30, 6h o dia já está clareando. Da minha casa até aqui na praia gasto em torno de quinze minutos.

[Qual a primeira coisa que o senhor faz quando chega à praia?]

Chego e fico aguardando o dia clarear um pouco e se não tiver ninguém para ir comigo vou sozinho. Pego o barquinho e vou sozinho.

[Tem algum dia que o senhor não vem?]

Quando está chovendo eu não venho. Mas eu sei direitinho o horário da maré. Tem muito pescador que me pergunta se a maré está enchendo ou vazando. – Tá pensando o que? – Você não é pescador?  – Ah, porque eu preciso olhar no calendário.

Eu não preciso de calendário, eu sei só de olhar a maré, por experiência. Agora a maré está vazando.  São muitos anos. Estamos na quarto crescente e indo para a lua cheia. Agora à tarde e amanhã de madrugada a maré vai estar na baixa-mar.

[Quando o senhor vai a maré está enchendo ou vazando?]

Eu gosto quando a maré […]. São 6 horas de vazante e 6 horas de enchente. Por volta das 0:30h ela está vazando. Daqui lá no meio é muito longe e eu vou remando. […] Eu saio às 6h e vou devagarzinho e quando chego lá está vazia e tiro o sururu.

[Quanto tempo o senhor leva daqui até o ponto de pesca?]

Depende, porque tem a calmaria e o vento. Meu barco é de remo e para eu ir levo 20 minutos na calmaria e 40 minutos quanto está ventando. Lá eu fico pescando (tirando sururu), mais ou menos umahora.

[Descreva o processo da pesca do sururu? Quais são os instrumentos que tem que levar?]

A cavadeira, corda, salva vidas [colete], remo e a garateia, que é uma âncora. A âncora é aquela que se usa em navio, aqui nós chamamos de garateia. Levamos água potável para o consumo, a roupa do corpo, porque a pedra é muito quente, o tênis e a sacaria [sacos para colocar o sururu], tem que levar todos os pertences.

[Como vocês escolhem o local? Já tem um ponto fixo?]

É sempre na mesma ilha, mas depende muito do local na ilha. Não depende de onde tem mais ou menos, mas sim do volume, do conteúdo que ele tem dentro da casca [do sururu].

[E como o senhor reconhece?]

Eu quebro e vejo, tem uns mais gordos e outros mais magros. Às vezes você anda dez metros e acha alguns que tem mais casca do que conteúdo. Existem lugares que tem uns melhores, com menos casca e mais conteúdo.

[Onde fica essa ilha que vocês vão?]

Vamos pela praia do Ribeiro e atravessamos o canal, é próxima à Ilha do Boi.

[E onde fica o sururu?]

O sururu fica perto da água [que fica lavando ele, o sururu] e com a cavadeira vamos tirando, ensacando e colocando na batera para vir embora.

[Qual a quantidade que vocês pegam?]

Não dá muito, dá o suficiente para trabalhar, em torno de uns 10, 15, 12kg.

[Como vocês trazem?]

Trazemos em sacos, não colocamos em caixa de isopor porque a água do mar conserva até chegar à praia, quando chegamos colocamos à sombra para não pegar sol. Se pegar sol… Enquanto vem de lá para cá não tem problema, porque é rápido e a água do mar conserva. Quando chegamos à praia descarregamos do barco, colocamos na sombra e jogamos água salgada para limpar.

O sururu nessa época até o mês de abril e maio ele fica muito gordo, não tem mais água nele. Tem que colocar para cozinhar com água. Quando chegamos à praia preparamos o fogo, com lenha. Cozinho com um pouco de água salgada para ferver e ele mesmo já abre. Descartamos a casca, colocamos na sacolinha e pesamos.

[Como é feita a venda?]

Vendemos em Vila Velha e um pouco vendemos aqui mesmo.

[Vocês vendem no atacado ou a varejo?]

Eu prefiro vender no varejo porque o pessoal dá mais valor. As pessoas vêm aqui na praia do Ribeiro para comprar e quando não vem vendo em casa para os vizinhos.

[Vocês pescam sururu todos os dias?]

Agora não porque a maré não está boa, não está abaixando, tem uma semana que está assim. A maré tem que estar baixa para pegar o sururu nas pedras.

[Quais são os meses do sururu?]

Do final de dezembro até março. Esse ano atrasou muito devido às tempestades de novembro e dezembro, o mar ficou muito agitado. A água doce não incomoda o sururu, a água doce não tempera a água e ele engorda.  O que emagrece sururu é o mar bravo […].

[E nos outros meses o que vocês fazem?]

Nos outros meses vou pescar peixe ou compro para revender. O sururu geralmente é de setembro a abril. São oito meses mais ou menos de sururu, começando em setembro e terminado em abril. Esse ano atrasou muito devido às tempestades, a maré ficou muito cheia e não deu para pegar, o mar ficou muito violento, agitado e atrasou o sururu.

[Seu Antônio qual é o seu nome completo?]

Antônio Marcos.

[Qual a sua idade?]

Tenho 67 anos.

[Como o senhor conheceu o seu Xexéu?]

Eu o conheci aqui na praia do Ribeiro, conversando, batendo papo e ficamos amigos. Comecei a pescar com ele antes de me acidentar.

[Há quantos anos o senhor está aqui?]

Tem mais de dez anos que estou aqui.

[Qual foi o seu primeiro contato com a pesca? Com que idade?]

Aos 45 anos tive meu primeiro contato com a pesca. Antes eu trabalhava em construção civil, eu era encanador, hoje eu sou aposentado.

[O senhor começou na pesca com o Xexéu?]

Eu comecei na pesca com o Xexéu, eu não tenho barco e sou ajudante do Xexéu.

[Qual a lembrança que o senhor tem da vida de pescador?]

Isso aqui é um lazer muito bom para a gente, nós ficamos aqui conversando, batendo papo, fritando e comendo peixe.

[O senhor vem todos os dias?]

Venho para a praia todos os dias, mesmo quando não vamos pegar sururu. Quando não vamos pescar, ficamos aqui batendo papo, fazendo hora para ir para casa almoçar.

[O que o senhor aprendeu com a pesca?]

Como salvar uma pessoa que caiu na água e está se afogando, aprendi tudo isso no mar. Já salvei muita gente.

[Até quando o senhor pretende pescar?]

Até quando Deus quiser, enquanto tiver vida, porque disposição eu tenho.


[Entrevista exclusiva para o site Estação Capixaba. Reprodução autorizada pelos entrevistados.]

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