Apresentação Tenho sido ouvinte e amante de jazz desde a adolescência. Antes de descobrir o jazz, porém, o que ouvia em casa era música f...

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Apresentação


Tenho sido ouvinte e amante de jazz desde a adolescência. Antes de descobrir o jazz, porém, o que ouvia em casa era música folclórica do Espírito Santo: e não admira, sendo meu pai o folclorista Guilherme Santos Neves.

Mestre Guilherme, como se sabe, vasculhou de cima a baixo e de cabo a rabo esta província na intenção de realizar todo tipo de pesquisa folclórica, inclusive musical ele que, como músico, não passava de excelente assobiador. Foram cerca de 25 anos de pesquisa de campo, de meados dos anos 40 até 1970 mais ou menos. No âmbito do folclore musical, o que ele gravou de cantigas de roda, incelências, romances populares, cânticos de reis e toadas de congo, além da “trilha sonora” completa de dramatizações populares como o Ticumbi e a Marujada, não foi brincadeira. Alguma coisa fixou-se em partitura graças à colaboração de João Ribas da Costa, Maria Penedo, Therezinha de Jesus Freitas Santos Neves e Terezinha Dora Abreu de Carvalho. Parte do material de pesquisa aquele coligido nos fios imantados do velho gravador Webster foi doada à Biblioteca do Congresso de Washington, devido à dificuldade de recuperar no Brasil gravações feitas por um processo então já obsoleto. A outra parte, coletada em fitas cassete, integra acervo folclórico hoje propriedade do Centro Cultural de Estudos e Pesquisas do Espírito Santo.

O contato frequente com esse repertório musical, que ouvia não só diretamente das gravações feitas por meu pai mas também e sobretudo cantado e assobiado por ele, me levou, há uns dez anos atrás, a conceber o projeto de uma leitura jazzística de temas folclóricos do Espírito Santo.

Ora, desde que me entendo por ouvinte e amante do jazz, aprendi duas coisas fundamentais a respeito do assunto: em primeiro lugar, o feijão com arroz do jazz é a improvisação; em segundo lugar, o músico de jazz pode improvisar sobre qualquer tema, de jazz ou não.

O jazz, por natureza, é música de integração, já que, na origem, reúne elementos musicais do europeu (estilos, técnicas e instrumentos) e do negro americano (ritmos e tonalidades), filtrados pelos blues, pelos cantos de trabalho, pela música de igreja. Sincrético por natureza, o jazz presta-se a todo tipo de hibridismo, não só com a música erudita (vide os trabalhos de Jacques Loussier a partir da obra de Bach e as suítes de Claude Bolling para trio de jazz e participação de instrumentistas eruditos) mas com a música folclórica (o saxofonista brasileiro Ivo Perelman, por exemplo, explorou jazzisticamente um punhado de cantigas de roda). Devido a essa maleabilidade, pode-se dizer que o jazz é gênero musical universal por excelência, e não é à toa que está presente em todo o mundo.

Para a realização do projeto desse cd de jazz com temas do folclore do Espírito Santo tive de ir atrás de gente capacitada, visto que, como músico, nunca passei de sofrível assobiador. Luiz Romero de Oliveira, aliás Salsa, foi quem se deixou seduzir de estalo, e o resultado do trabalho dele e de seus cupinchas aí está para todo ouvido ouvir.

O repertório foi escolhido por Salsa com base em material de pesquisa feita por Mestre Guilherme e preservado em fitas de áudio e/ou em material impresso, e abrange toadas de congo, cantigas de roda e canções da Marujada São Paulo.

A Marujada, auto popular de antiquíssima tradição, está hoje extinta.

Segundo Guilherme Santos Neves, “a época áurea da Marujada São Paulo, do morro dos Alagoanos, em Vitória, ES, foi o período de meados da década de 40 até 1963, quando esteve sob a direção e coordenação de Mestre José Pedro Lino, alagoano de nascimento, radicado no Espírito Santo desde 1927”. A dramatização incluía, como uma ópera, textos cantados e recitados, e tinha como cenário um barco denominado Cruzador São Paulo, o qual, informa Mestre Guilherme, “era feito de barro cozido, pintado de cores berrantes, engalanado de bandeirinhas de papel de seda e ornado de guizos. Os participantes da dramatização oficiais, marujos e mouros também se apresentavam devidamente uniformizados”.

Da marujada foram extraídos os temas “Lá se vai o Embaixador”, “O Almirante” e “Santa Catarina”. As toadas de congo incluídas, ambas de origem serrana “(Este congo é de) Manguinhos” e “São Sebastião” , já não se tocam mais hoje, salvo engano. Dentre as cantigas de roda, foram escolhidas “Terezinha de Jesus”, de abrangência nacional, e ainda hoje conhecida, e “O bela Lilia”, cuja presença em todo o Estado, no final dos anos 40, foi registrada por Mestre Guilherme. Quanto a “Sabiá”, trata- se de composição original do próprio Salsa, intrometida de mansinho no repertório de origem folclórica.

Dão-se abaixo as partituras de “Lá se vai o Embaixador” e “Ó bela Lilia”, fixadas, respectivamente, por Terezinha Dora de Carvalho e João Ribas da Costa, para permitir, aos especialistas, identificar as semelhanças e as diferenças entre as linhas melódicas originais e os arranjos feitos para este projeto.

Se posso, por fim, dar uma opinião pessoal, minhas preferências vão para os temas que conservaram uma fisionomia jazzística mais ortodoxa, como “Lá se vai o Embaixador”, “Manguinhos”, “Terezinha de Jesus”, e “São Sebastião”. Não posso negar, porém, que é contagiante o arranjo do tema “O Almirante”, que mereceu dos músicos o apelido de “Frevinho”. Já o arranjo de “O bela Lilia”, comprometido pela presença de uma conga, sem dúvida desagradará a jazzófilos radicais como João Luiz Mazzi ejosé Garibaldi Magalhães. “Sabiá”, a composição do próprio Salsa, é uma balada com alternância de moods. “Santa Catarina”, a única faixa vocal, sem improvisação, mantém maior proximidade com o tema original, e por isso mesmo creio que agradará aos ouvintes menos envolvidos com o jazz, como agradou (e emocionou) a meu irmão Luiz Guilherme. No todo, portanto, creio que este cd demonstra o que queria demonstrar: que os velhos temas do folclore capixaba estão aí, no ar, passíveis de perpetuação nem que seja por meio de uma outra linguagem musical.

Será que Mestre Guilherme aprovaria?

E Mestre Pedro Lino? E os anônimos componentes das bandas de congo que um dia produziram “São Sebastião” e “(Este congo é de) Manguinhos”?

Talvez sim, talvez não. De qualquer forma, Salsa há de concordar que é à memória deles que este cd deve ser dedicado.

Reinaldo Santos Neves
Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo
Departamento de Letras, Ufes.

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