Colunas de povo, ansioso pelos primeiros quadros da festa, se levantavam e postavam-se nas ruas e nas praças. Cruzavam-se os fogos do ar, pu...

Artigo 5

1/01/2016 0 Comentários

Colunas de povo, ansioso pelos primeiros quadros da festa, se levantavam e postavam-se nas ruas e nas praças. Cruzavam-se os fogos do ar, publicando a intensidade do fervor festival.

Uma grande nuvem, formada de fina cambraia, cujas pregas e tomadostomados[ 1 ] fingiam a sua ondulação no seio dos espaços, conduzia duas figuras em forma de anjos, submetidos a uma grinalda de flores, cobertos de capacete dos antigos guerreiros, com plumas escarlates no alto do vértice, marchando ao som de um dobrado feito por tambores que eles mesmos tocavam. Adiante caminhavam dois clarins executando o toque de alvorada, dirigidos uns e outros por um tambor-mor armado de um enorme bastão com engaste de bronze, o qual fazia os diversos sinais para mutação e suspensão dos toques.

Era imponente este séquito, precônio[ 2 ] da tradicional festa de São Miguel, o arcanjo, que terminou as lutas dos espíritos celestes que disputavam entre o governo do empíreo![ 3 ] Percorriam as ruas principais, recebendo as ovações dos apaixonados das festas. Recolhidos todos ao quartel-general, dava-se uma interrupção dos festejos até 11 horas do dia.

Dessa hora em diante tudo estava em uma evolução completa!...

Fervet opus; redolentque thymo fragrantia mella.[ 4 ]

O tinir dos guizos, o rinchar e trotear dos cavalos, os apupos dos moleques, o rataplã dos tambores, o estridor das bombas ardentes, o choro das crianças, as risadas estridentes faziam uma confusão indescritível. Era tal a veemência e a mossa[ 5 ] das impressões, que, dias depois, os tímpanos repetiam esses sons confusos despertando-nos do sono, ainda o mais profundo!

O marulho das ondas, desencontradas, batendo nas cavidades dos cachopos, escoando por suas sinuosidades, não repercutia com tanta força!

Ao meio-dia, em ordem de marcha, todos os máscaras se achavam reunidos à porta do capitão de São Miguel. Em duas alas, a dois de fundo, prosseguia o séquito, fechando-o as principais figuras e personagens, que eram o porta-estandarte com o brasão das virgens, os três sargentos com casacas bordadas, calça branca com galão de ouro fino, armados de lanças que atravessavam pães-de-ló e talhadas de cidrão, símbolos do opíparo jantar e variada sobremesa que tinha de ofertar aos seus soldados o bravo capitão, chefe dos festejos mascarados.

Um bando em versos apregoava a genealogia e os feitos do herói do dia, as virtudes das Virgens Bretanhesas, e anunciava circunstanciadamente o programa de toda a festividade profana e religiosa. Às quatro horas da tarde, quando a fresca viração mitigava os ardores do sol e acalmava o ardor dos ginetes, que espumavam, trincando as bridas, raivosos por tão ofegante lidar, reuniam ali, na frente da assembleia,[ 6 ] os mais velozes andadores e marcheiros a disputar o prêmio de seus triunfos velocípedes.

Ao som de música, vivas e palmas eram acolhidos os lidadores que mais se distinguiam na carreira feita em parelhas, dirigidas por árbitros que regulavam as apostas. Seguia-se a coroação do mastro, em cuja grimpa se colocava uma bandeira de cetim branco, com o emblema da virgindade e do martírio, coroa de rosas e setas que as tinham vitimado na África entre hordas de selvagens nômades. Em seguida um coro de máscaras representando meninos coristas entoava uma jaculatória,[ 7 ] a qual precedia um sermão, pregado por um máscara, vestido de clérigo, num púlpito adaptado para esse fim.

Lembra-me ainda do jocoso texto que serviu de base para o último sermão. Nele se aludia à supressão da festa por uma lei provincial, formulada pelo padre doutor Bermude, que assim cortou os abusos que se iam agravando.

Ei-lo em sua íntegra:

Ecce afamatus bicuiba, qui, passatis duobus annis, jam quasi moribundus, quia mm sperabat vivere, videns fulgorem et resplandorem festivum, surgit de lethargo, in quo jacebat, ad sustentandum super suum caput magnum pondus vexilli virginalis.[ 8 ] (São Matias cap. 9,999. v.o $.)

O povo, revoltado por esse ridículo, preparou-se com limões e laranjas podres e fez um tiroteio tão basto sobre o orador que o forçou a deixar o púlpito, para nunca mais voltar! O povo sabe bem vingar esses ultrajes!... Soberano temível, é preciso respeitá-lo. Dizem que fora cabeça dessa represália o padre Subtil, nosso patrício, vigário dos Reis Magos, que julgou inconveniente confundir-se o sagrado com o profano. Acho que tinha muita razão.

_____________________________

NOTAS

[ 1 ] Dobras.
[ 2 ] Apregoador, anunciador.
[ 3 ] O céu.
[ 4 ] Trabalha-se intensamente; o mel recende à fragrância do rosmaninho.
[ 5 ] Marca, abalo.
[ 6 ] O edifício da Assembleia Provincial situava-se no local do atual fórum de Vitória.
[ 7 ] Oração curta e fervorosa.
[ 8 ] Eis a famosa bicuíba, que, passados dois anos, já quase moribunda, porque não esperava viver, vendo o fulgor e o resplendor das festividades surge da letargia em que jazia para sustentar sobre sua grande cabeça o peso da bandeira virginal.

Pe. Francisco Antunes de Siqueira nasceu em 1832, em Vitória, ES, e faleceu na mesma cidade, em 1897. Autor de: A Província do Espírito Santo (Poemeto)Esboço Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense,  Memórias do passado: A Vitória através de meio século. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Estação Capixaba

Estação Capixaba é o site voltado para a cultura, história e geografia do Espírito Santo e que busca resgatar, produzir, sistematizar, preservar e divulgar informações nessas áreas, sejam elas de autores locais ou não.

0 comentários :