Rio, 19 de junho de 1956. Meu caro Feitosa: Continuo sob a impressão do espanto que me tem causado a copiosa messe de cartas recebidas d...

A Edgar Feitosa (Rio de Janeiro, 19/6/1956)

Rio, 19 de junho de 1956.

Meu caro Feitosa:

Continuo sob a impressão do espanto que me tem causado a copiosa messe de cartas recebidas de todos os pontos do Estado. Não sei bem a que atribuir essa manifestação coletiva e constante, dirigida a um homem que, céptico pelo trato da vida e pela amarga experiência das posições, se encontra sozinho, à margem dos acontecimentos políticos. À falta de outra explicação e por não reconhecer em mim mesmo motivos que justifiquem esses generosos pronunciamentos, inclino-me a julgá-los como os primeiros sinais de repúdio ao desregrado comportamento dos atuais governantes do nosso Estado. Sempre pensei que, num regime democrático digno desse nome, o principal objetivo do governo fosse seguir e interpretar os anseios coletivos do povo. Por isso me entreguei, sem descanso, às obras e realizações construtivas, atento à vocação de labor e de progresso da coletividade espírito-santense. Não tinha lazeres para cortejar a popularidade, nem, tampouco, gosto e disposição para frequentar festanças e gafieiras. Conhecendo, perfeitamente, a austera severidade do meio social em que formei o meu espírito, muito menos poderia enxovalhar o mandato recebido do povo com a prática despudorada de atos inconfessáveis. Enquanto governava, embora afastado da convivência da multidão e sem buscar os seus aplausos e afagos, procurava afinar o meu espírito pelos mais nobres sentimentos do povo. Era prisioneiro dos meus deveres e responsabilidades, e, olhado à distância, teria de sofrer a deformação natural da perspectiva. O isolamento em que vivia, decorrente das preocupações e trabalho, daria a falsa impressão de pretensiosa superioridade. E a fisionomia severa, refletindo as mortificações do Poder, seria interpretada como sinal evidente de afetação e vaidade. Não fui assim, meu querido amigo, nem poderia ter sido, um governante popular. Governo é coisa séria que diz respeito direto com o bem-estar e o destino da coletividade. Não se pode exercê-lo sem compenetração e sobriedade, discrição e respeito, severa compostura e alta dignidade. É provação penosa e não episódio alegre de regalias e prazeres. Ato de penitência em vez de uma patusca estação de gozo e diversões. Mesmo o povo, sem o sentir, parece compreender essa verdade. Por isso, talvez, já dê os primeiros sinais de sua impaciência e repressão contra os mandatários da época. E busque exaltar o pobre governante de ontem para melhor reprimir e censurar os poderosos de hoje. De qualquer forma muito me sensibilizam tais manifestações, quase que diria póstumas. De certo modo amenizam as lembranças amargas de uma experiência que jamais repetiria, tão profundas foram as cicatrizes que dela me ficaram. A minha última carta é reflexo fiel desse sentimento. Soube que o bom amigo ficara ressentido com os seus termos, talvez pela maneira um tanto brusca com que solicitei o cancelamento da remessa dos jornais da terra. Mas neles não se continha nenhum agravo pessoal, nem o menor resquício de censura ou ressentimento à sua leal e preciosa amizade.

Agradecendo a gentileza dos saborosos bombons e do café enviados, aproveito o ensejo para transmitir-lhe, e a todos os amigos da Ilha, o meu grande e cordial abraço.

[In Cartas selecionadas - Jones dos Santos Neves. Vitória: Cultural-ES, 1988.]

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Jones dos Santos Neves graduou-se em Farmácia no Rio de Janeiro e, de volta a Vitória, casou-se, em 1925, com Alda Hithchings Magalhães, tornando-se sócio da firma G. Roubach & Cia, juntamente com Arnaldo Magalhães, seu sogro, e Gastão Roubach. A convite de interventor João Punaro Bley, em 1938 funda e dirige, juntamente com Mário Aristides Freire, o Banco de Crédito Agrícola (depois Banestes), tendo depois disso seu nome indicado juntamente com o de outros dois, para a sucessão na interventoria. Foi então escolhido por Getúlio Vargas como novo interventor, cargo em que permaneceu de 1943 a 1945. Em 1954 retomou seu trabalho no banco, chegando à presidência, sendo, em 1950, eleito  governador do estado. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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