Do canto do escritório da Central Brasileira, assisti, dias atrás, demolir a fachada de velha ruína. O portal ainda ostentava a placa amare...

A rua do Sacramento


Do canto do escritório da Central Brasileira, assisti, dias atrás, demolir a fachada de velha ruína. O portal ainda ostentava a placa amarela com letras pretas onde se lia: "Rua do Sacramento". Sim, não obstante o abandono, a placa lá estava perfeita, como no dia em que fora pregada por Reis Vidal. O doutor Américo Monjardim, quando governou a cidade pela primeira vez, por proposta minha, diretor de Engenharia Municipal, mandou emplacar as ruas e renumerá-las pelo sistema decimal, corrigindo lacunas que afetavam aos proprietários e estafetas dos Correios e Telégrafos. Notável melhoria, de pouca despesa e grande utilidade pública. O empreiteiro foi o jornalista Reis Vidal.

A memória, arquivo extraordinário, me retrogradou aos dias em que eu frequentava as aulas do sempre lembrado educador Amâncio Pereira, grande mestre da meninada capixaba, cujo nome se inscreve na lista dos homens eméritos do magistério público de nossa terra.

A escola situava-se na rua Dionísio Rosendo, antepenúltima casa antes do sobrado esquina com a ladeira da Matriz, lado de cima, de onde se avistava o mar. A rua Dionísio Rosendo unia a do Sacramento com a ladeira Maria Ortiz. Era estreita, quase reta e suas casas de dois andares, com sacadas guarnecidas de gradis feitos em Portugal. Florida e com muitas fruteiras nos quintais. Por isso, talvez, chamou-se de Rua das Flores, nome que figura nos Códices do século XVIII. No sobrado, dos melhores, da esquina com a ladeira da Matriz, morou, diziam os antigos, Domingos Martins, nosso mártir da Revolução Pernambucana, punido no Campo da Pólvora, em São Salvador, em 1817.

Não atino porque essa famosa Rua das Flores tomou o nome do velho político da era monárquica: Coronel Dionysio Alvaro Rosendo, verdadeira grafia de sua assinatura. A vida deste macróbio legislador foi plaina. Sempre deputado provincial de 1835 a 1876. Por duas vezes, como vice, assumiu a governadoria da Província, substituía o conselheiro José Fernandes da Costa Pereira, quando feito ministro, em 1869, e, ao doutor Antônio Dias Paes Leme transferido para a Corte. Não se lhe registrou outro feito importante.

Mas a Rua do Sacramento era o logradouro que ligava o mar à cidade alta pelos fundos da Matriz, Catedral agora. Dela nasciam as ruas Duque de Caxias e Dionísio Rosendo. Seu lado esquerdo está representado pelo quarteirão da Companhia Central Brasileira.

Carlos Botti foi negociante e importador no começo da ladeira. Manuel Braz explorava bazar e Antônio Sousa foi o primeiro banqueiro do jogo que se quer hoje regulamentar. A zona alta se conspurcou pela proximidade do quartel do 38º Batalhão de Infantaria quando desalojado do Convento do Carmo. Vieram as mariposas e, raparigas e soldados azedam qualquer ambiente. A tropa aquartelava junto ao atual edifício da Central, entrando pela rua Duque de Caxias. Resta vestígio do antigo logradouro: a viela entre o edifício Martinho de Freitas e a agência do Banco Bandeirantes. Ali atracavam canoas.


[DERENZI, Luiz Serafim. A rua do Sacramento. Sem referências. Reprodução autorizada pela família Avancini Derenzi.]


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Luiz Serafim Derenzi nasceu em Vitória a 20/3/1898 e faleceu no Rio a 29/4/1977. Formado em Engenharia Civil, participou de muitos projetos importantes nessa área em nosso Estado e fora dele. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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