Vitória, 9 de outubro de 1963. Kaçuquinha querida Depois que recebi a sua carinhosa cartinha última, de 23 do mês passado, muita água ro...

A Therezinha Santos Neves Leal (Vitória, 09/10/1963)

Vitória, 9 de outubro de 1963.

Kaçuquinha querida

Depois que recebi a sua carinhosa cartinha última, de 23 do mês passado, muita água rolou por baixo da ponte. Inclusive o estado de sítio que quase aconteceu no Brasil. Mesmo por aqui, nesta pacata província que Vasco Fernandes Coutinho costumava chamar de "meu vilão farto", chegaram notícias alarmantes do país em pé de guerra. Mas a coisa virou lenda, como a batalha de Itararé — a maior da nossa história — que afinal não houve. Parece que os fatos se encarregam, por enquanto, de comprovar os meus comentários sobre o papel da distância na conservação da tranqüilidade pátria. A distância e o medo. Este também é um elemento tranquilizador. Uma espécie de Equanil nos momentos de apreensão nacional. Quando tudo fica preto e chega o momento de acender o estopim da bomba, o diabo ronca nas tripas dos incendiários, que dão no pé e se borram todos... Confesso, contudo, que também não estou gostando da situação. Por mais que queiramos ser otimistas, todos sentimos a iminência de graves acontecimentos. Sobretudo pelo sofrimento das massas e pela falta de autenticidade dos governos. Principalmente aqui onde pontifica um governo que é a própria encarnação da insensibilidade e da ausência. Vivemos no vazio. Hibernamos, como os esquimós. Enquanto perdura a era paleontológica do Chiquinho, que vai transformando todos os capixabas em tristes e desventurados fósseis... Nem reagem mais, quando o homem, no célebre encontro de Bananal, firma um acordo com Minas, entregando-lhe, de mão beijada, cerca de 3.000 km2 de nosso território! A ingrata questão de limites, que tanto nos fez sofrer, por quase um século, termina assim, nas mãos desse governador de araque, em cínica e debochada expressão bananalesca! E nada acontece.

Mas falemos de nós, que não paga a pena gastar vela com tão ruim defunto. A vidoca continua no mesmo. O trabalho no escritório rende e a velhinha às voltas com um bando de alunas, ensinando decapê. Começamos a casa no dia 13, sexta-feira, sem dar bola para a superstição. E vai bem. Já terminamos os alicerces e começa a subir a alvenaria. Tenho esperanças de que, em dezembro, pelo Natal, esteja com o telhado levantado. É o célebre ritmo CIEC. Enquanto isto, me divirto comprando materiais e novidades em cerâmica, fogões, pias, etc.. Até um tal de purificador Nautilus ("usado nos submarinos atômicos"), para purificar o ar e atuar na cozinha como exaustor, estou inclinado a encomendar. Cada dia levo uma novidade para casa e a velhinha já começa a ficar apavorada... O tutu vai sumindo, mas já comprei grande parte do material, defendendo-me das altas. Travo, assim, uma batalha contra o tempo e contra a desvalorização da moeda. Veremos se chegarei na frente, se a revolução não estala antes e se os cruzeiros não acabam. Estou ansioso para ver-me morando em casa própria, mesmo porque não sei que tempo me sobrará ainda para usufruí-la.

Muitos afetos para o Alex e a Eliana. Diga ao Maurício que continuo interessado no Código das Bandeiras. O engenheiro que me prometera aqui roeu a corda. Continuo a ver navios, sem poder traduzir-lhe as bandeiras semafóricas.

Afetuosas lembranças para o Maurício e o Guerra e para V., filhota querida, o beijo saudoso do


[In Cartas selecionadas - Jones dos Santos Neves. Vitória: Cultural-ES, 1988.]

Jones dos Santos Neves graduou-se em Farmácia no Rio de Janeiro e, de volta a Vitória, casou-se, em 1925, com Alda Hithchings Magalhães, tornando-se sócio da firma G. Roubach & Cia, juntamente com Arnaldo Magalhães, seu sogro, e Gastão Roubach. A convite de interventor João Punaro Bley, em 1938 funda e dirige, juntamente com Mário Aristides Freire, o Banco de Crédito Agrícola (depois Banestes), tendo depois disso seu nome indicado juntamente com o de outros dois, para a sucessão na interventoria. Foi então escolhido por Getúlio Vargas como novo interventor, cargo em que permaneceu de 1943 a 1945. Em 1954 retomou seu trabalho no banco, chegando à presidência, sendo, em 1950, eleito  governador do estado. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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