Vitória, 29 de maio de 1964. Kaçuquinha, querida: Confesso que me encontro agora em plena e gostosa lua-de-mel com a nossa nova casa. De...

A Therezinha Santos Neves Leal (Vitória, 29/5/1964)

Vitória, 29 de maio de 1964.

Kaçuquinha, querida:

Confesso que me encontro agora em plena e gostosa lua-de-mel com a nossa nova casa. Desde o dia 19 do corrente lá passamos a dormir, comer e morar, reiniciando a velhinha em sua labuta de hábil dona de casa. Para quem passou cerca de um ano fora de seus cômodos, embora no aconchego afetivo do lar de seus filhos, isto é um prazer. E, para quem labutou durante quarenta e dois anos para só agora, no crepúsculo da velhice, morar em sua primeira e definitiva casa própria, isto também é uma alegria e um conforto, pelo qual devemos render ardentes graças aos Céus. Nem tudo está acabado e perfeito. Faltam certos retoques que, só com o tempo, poderemos terminar. Também os navios, quando deixam os estaleiros, estão com as suas obras mortas inacabadas, o que, entretanto, não os impede de navegar. Espero, para a semana, ver concluídas e colocadas nos lugares as estantes para os meus livros. Só então me sentirei, realmente, em casa. Tudo o mais parece ter ficado bem, pelo menos para o nosso gosto. Já iniciamos o gramado, à frente da casa, e vamos agora começar a ornamentá-lo. Em compensação e como imaginava, a barba cresceu muito. As contas finais começam a aparecer. Os armários e móveis ficaram mais caros do que eu imaginava, forçando-me a recorrer, novamente, ao crédito. Mas o que importa é que estamos em nosso verdadeiro lar, que, afinal, todas as contas feitas, ainda ficará por menos do que o total da venda do apartamento da Domingos Ferreira. E vale, com o terreno, muito mais. O diabo é que não estava acostumado a dever e isso me dá alguma dor de cabeça. Mas, no fim, tudo dará certo, embora me obrigue agora a dar os meus pulinhos... Também, na conjuntura atual, isso não é privilégio meu, porque muita gente boa está também dando os seus pulinhos. Até o trêfego JK, sem falar nos que já pularam...

Creio que foi Mark Twain quem disse que o sabor do "humor" consiste em tratar com seriedade as coisas cômicas e de modo jocoso as coisas sérias. Esta deve ser a nossa filosofia atual, usando e abusando da primeira parte do conceito, mas ferindo, com cuidado e cautela, a última parte. Pelo menos utilizei o método, quando ouvi pelo rádio a nova estrela de televisão, e me diverti bastante. Foi um dueto interessante porque o artista também se afinava pelo mesmo diapasão...

Enquanto isto, aqui pela velha província de Maria Ortiz, nada acontece. Como fomos sempre um Estado sem acústica, parece que a revolução não repercutiu por aqui. O nosso inefável governador continua a se divertir, fingindo que governa. E vai ficando em paz, ele que é o mais vulnerável de todos os governadores, frente às disposições de austeridade que constituem o clima apregoado pelos altos escalões da República. Há uma acomodação geral nos círculos políticos e João Calmon, que por aqui andou em seus fins de semana habituais, até discursou na Assembléia, falando em confraternização geral na política estadual, como se fosse possível se confraternizar com gente tão espúria ou, como dizia Ruy Barbosa, haver neutralidade entre a lei e o crime.

Muitos afetos aos queridos netos, abraços no Maurício e no Guerra e para V., filhota querida, o saudoso beijo do

[In Cartas selecionadas - Jones dos Santos Neves. Vitória: Cultural-ES, 1988.]

Jones dos Santos Neves graduou-se em Farmácia no Rio de Janeiro e, de volta a Vitória, casou-se, em 1925, com Alda Hithchings Magalhães, tornando-se sócio da firma G. Roubach & Cia, juntamente com Arnaldo Magalhães, seu sogro, e Gastão Roubach. A convite de interventor João Punaro Bley, em 1938 funda e dirige, juntamente com Mário Aristides Freire, o Banco de Crédito Agrícola (depois Banestes), tendo depois disso seu nome indicado juntamente com o de outros dois, para a sucessão na interventoria. Foi então escolhido por Getúlio Vargas como novo interventor, cargo em que permaneceu de 1943 a 1945. Em 1954 retomou seu trabalho no banco, chegando à presidência, sendo, em 1950, eleito  governador do estado. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)


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