No governo de Rubim, pela representação do povo de estar um pescador a vender peixe podre, fê-lo ir a palácio com cie, ordenou que por um co...

Artigo 15

1/01/2016 0 Comentários

No governo de Rubim, pela representação do povo de estar um pescador a vender peixe podre, fê-lo ir a palácio com cie, ordenou que por um cordel se o dependurasse ao pescoço e, por um bando com rufos de tambores, mandou-o percorrer as ruas desta cidade!

Por denúncia de um negociante contra uma pobre mulher que, para dar peso ao novelo de fio, dobava-o[ 1 ] sobre uma pedra, mandou o mesmo governador que se [lhe] pendurasse ao pescoço e apregoasse a fraude em bando, ao som de tambores. Começaram então os negociantes, por ordem superior, a usar de passador[ 2 ] para verificar a fraude!

Ah! Rubim! se existisses hoje para certos sujeitinhos, não seríamos tão logrados!

* * *

O vestuário daquele tempo era simples e modesto. Tinha até ares de beatice nas mulheres e de janotismo[ 3 ] nos homens. Usava-se saia de cabaia,[ 4 ]seda com ramagens frouxas; vestidos doirados e prateados, com flores de tecidos de fios daquele metal.

Compunha a cabeça das moças um gorro de veludo, com tomados de um lado, pendente uma borla de ouro. Os vestidos de quatro panos as traziam presas, como se fossem dentro de sacos.

As velhas usavam, nos passeios, de coifas,[ 5 ] à semelhança de uma fronha de travesseiro. Uma extremidade se introduzia na cabeça e a outra pendia sobre as espáduas, tendo presos laços de fita; em todo o comprimento era cheia de preguinhas. Por sobre o vestido punham o clássico capote de barregana.[ 6 ] Releva notar que as coifas eram de seda de cor.

Caiu o seu uso e sucederam-lhe os caguchos, formados pelos próprios cabelos, nos quais se colocava um enorme pente de palmo e meio a dois de comprimento. Eram de casco de tartaruga, exportação do Rio Doce.

Seguiram-se ao depois para as moças as chapelinhas e os vestidos com macaquinhas. Estas eram de cores, e acompanhava a saia de chaliu,[ 7 ] fazenda do chic. Para as velhas veio o uso de um chapéu preto, enorme, com plumas da mesma cor, caídas para o lado, e logo variou pela moda das mantilhas, que afinal os excluiu. Consistiam estas em uma capa, aureolada de renda preta, que cobria as velhas da cabeça aos pés. Era um manto sobre uma túnica, que apenas deixava ver a ponta do nariz. Sobpunham na cabeça um lencinho branco, rendado, que lhes dava ares de freiras...

* * *

Os velhos eram uns jarretas,[ 8 ] vestidos ao gosto daquela época. Usavam de ordinário, sendo pessoas qualificadas, de uma comprida sobrecasaca que descia até os artelhos, no entroncamento dos pés com as canelas, com gola alta ou baixa. Levavam, quando o passeio era curto e livre, um boné de couro de onça, com grandes abas, cuja circunferência representava uma rodada de carro! Se a excursão era longa, compunham-se melhor, levando um chapéu de uma copa que se estreitava junto à aba e se alargava disformemente na parte superior. O pelo era bastíssimo e crescido, de modo que, ao sopro do vento, produzia ondulações, como em um jacapezal![ 9 ] Vi-os nos velhos Gaspar, Alencastre, Capitão-gordo, Manoel Tomás e o velho Luciano, nos dias duples[ 10 ] de segunda classe, porque nos de primeira, a coisa era outra... primava por excelência!

Então aprumavam-se os velhos de outro modo! Casaca que arrematava por caudas de periquito, pássaro que tem aí as penas mui delgadinhas; colete cujo peito era bem decotado, para sobressair o da camisa, cheio de babadinhos, tioteados,[ 11 ] com três grandes botões na esteira, que era toda bordada; as mangas um pouco curtas, para mostrar os babadinhos daquele mesmo gosto e mesmíssima forma.

Aqueles botões eram de engaste de ouro com finíssimas pedras e até custosos diamantes. O colarinho da camisa era preso em suas casas por dois grandes botões de ouro, de fino quilate, e os punhos pelo mesmo modo. Calções curtos, meias de seda, a peso[ 12 ] sapatinhos de entrada baixa, fivela de ouro ou prata, chapéu armado, eis o meu velho a se requebrar todo gamenho!

Em um bolsinho, aberto ali na frente do cós da calça, à esquerda, estava o relógio, de cilindro, grande amêijoa reguladora, de cujo anel pendiam umas cadeias grossas de ouro, da qual saía uma outra menor com diversas bijuterias: mãozinhas de ouro, caramujos encastoados, figas de ouro, signo de Salomão, dentes de aranha-caranguejo, cordeirinhos, moedinhas de ouro, corações de ouro, e outras referidas no velho método...

As maiores e mais ricas vi eu ainda no David de Benedito, João Crisóstomo, Souto, Vieira Rios, Sebastião d’Araçatiba, capitão-mor Francisco Pinto e capitão-mor Siqueira.

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NOTAS

[ 1 ] Enovelava-o.
[ 2 ] Pregador, argola ou alça.
[ 3 ] Apuro exagerado no trajar.
[ 4 ] Tecido de seda muito leve.
[ 5 ] Redes ou toucas em que as mulheres envolvem os cabelos.
[ 6 ] Tecido de lã durável.
[ 7 ] Quem sabe um erro tipográfico? Chaly era um tecido de lã e seda usado para vestidos e coletes.
[ 8 ] Pessoas que se vestem mal, ou à antiga.
[ 9 ] No original está jaçapezal, forma que não se encontrou nos dicionários. Jacapé está registrada como erva da família das gramíneas.
[ 10 ] Comuns.
[ 11 ] Dobrados em forma de tubos.
[ 12 ] Inteiriças.

Pe. Francisco Antunes de Siqueira nasceu em 1832, em Vitória, ES, e faleceu na mesma cidade, em 1897. Autor de: A Província do Espírito Santo (Poemeto)Esboço Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense,  Memórias do passado: A Vitória através de meio século. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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