Outra distração, menos fatigante e incômoda, e mais delicada, entretinha o povo que afluía àquele lugar pitoresco. Levantavam também um te...

Artigo 19

1/01/2016 0 Comentários

Outra distração, menos fatigante e incômoda, e mais delicada, entretinha o povo que afluía àquele lugar pitoresco.

Levantavam também um teatrinho (era uma febre ou mania?) e punham em cena a farsa — Vicente marujo — na qual se ridiculariza de um modo grosseiro a confissão sacramental.

Falam três personagens: Vicente, Joana, sua amásia, e um padre. Preparava- se o Vicente para a confissão, e ali dava expansão à sua sátira, motejando ate do mistério da Trindade!

O Dr. Godói, chefe da polícia, magistrado íntegro e sumamente religioso, tendo notícia desse arrojo petulante, para ali seguiu, como espectador, levando consigo algumas praças. Deram-lhe logo um assento distinto, e honraram-se com sua presença! No meio da confissão, caiu-lhes de surpresa e fez recolher à cadeia os três atores, caracterizados como se achavam... No dia seguinte fê-los comparecer à sua presença, passou-lhes um tremendo pito ou caroço, e entregou- os, como se achavam, às apupadas dos moleques... Que energia!

O mesmo praticou ali no Rosário, quando apareceu, entre a maruja, um outro padre, como seu capelão!

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Talvez ainda não seja extemporâneo unir mais um elo à longa cadeia dos episódios — nas Memórias do passado, referindo uma festa que revela o espírito filosófico-histórico das eras que se ocultaram nas dobras do ocaso dos povos.

A história tem uma moral filosófica, que é, por assim dizer, o fio pelo qual se desdobra o complicado tecido da meada dos sucessos que acompanham as revoluções do gênero humano. Se aquela nos faz, como dizem Ducreux e César Cantù, contemporâneos de todos os tempos e patriotas de todos os países; esta explica pela crítica e hermenêutica o cálculo pensado, ou impensado, de seus acontecimentos.

Duas colunas, uma de nuvem ao claro de suas ideias, e outra de fogo ao escuro de suas trevas, de seus mitos, de seus emblemas, de seus hieróglifos e mistérios. Aos dias de história fácil é divulgar e destacar seus assuntos: às noites porém é preciso um prisma de grande alcance para tomá-los sob os legítimos pontos de vista.

O historiador tem necessidade absoluta de instrumentos próprios, como o matemático, para sondar e investigar todos os fenômenos que alteram a marcha dos acontecimentos, explicando-os por axiomas morais que são a base de sua solução.
Como as fases ou crises, que aumentam e diminuem a luz sideral, os fatos, que pertencem ao domínio da história, imprimem no caráter dos povos o seu retrocesso ou a sua marcha avançada no estádio de suas gloriosas conquistas.

As nações têm sua aurora radiante de luz e seu ocaso precursor de trevas! Tudo está sujeito a essa alternativa que se reproduz constantemente, sem que ninguém possa pôr peias à ordem que uma mão oculta dirige!

* * *

Em 1872 presenciei na vila da Barra de São Mateus[ 1 ] uma cerimônia sacro- profana que relembrava as lutas entre os cristãos e mouros em honra de São Sebastião, o invicto mártir do cristianismo nos lutuosos dias do imperador Diocleciano.

No dia 19 de janeiro, à porta da matriz, em frente do andor do santo, colocam- se dois batalhões, fardados de modo diverso, com seus respectivos estandartes, tendo impressos os emblemas de suas crenças.

Trocam-se diferentes embaixadas por emissários de um e de outro partido, nos quais cada um faz valer a verdade de sua religião. Depois de um convite formal para um combate que deve definir o seu valor, os cristãos, ao som de tambores, marcham para a frente da imagem do santo, amolando suas lanças e espadas, c, ajoelhando, juram defender o seu culto e com ele o do cristianismo.

Daí em diante abre-se uma luta horrível e encarniçada. Durante o trânsito da procissão há perigosos encontros e um vivo tiroteio de armas de fogo, com pólvora seca, e vários duelos entre os principais personagens. O resultado é, ao recolher-se a procissão, apoderarem-se os mouros da imagem, levando-a em triunfo para seu castelo, levantado primorosamente na praça principal.

Guardam-na durante a noite, por vigilantes sentinelas, e festejam com galhardia e soberba pompa o seu glorioso triunfo.

No dia seguinte, 20 de janeiro, dão os cristãos um novo assalto e retomam o seu santo; pelo que, convencidos os mouros da poderosa intercessão do mártir, submetem-se à fé cristã e são batizados, aspergindo-os o pároco com água benta, para simbolizar essa cerimônia que os inicia nos mistérios da fé cristã.

Em seguida, faz-se a procissão com o Sacramento, ao estrondo de fogos artificiais e vivas entusiásticos.

Esse espetáculo é imponente e comovedor!

Davam-se às vezes nesses conflitos ocorrências desagradáveis, porquanto alguns partidários, possuídos de paixão, atacavam deveras uns aos outros, dando lugar a ferimentos. Rojavam alguns pelo chão, envoltos no pó e contundiam-se!

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NOTAS

[ 1 ] Atual Conceição da Barra.

Pe. Francisco Antunes de Siqueira nasceu em 1832, em Vitória, ES, e faleceu na mesma cidade, em 1897. Autor de: A Província do Espírito Santo (Poemeto)Esboço Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense,  Memórias do passado: A Vitória através de meio século. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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