Foi ferido o pastor, e assustadas dispersaram-se as ovelhas. O cônego Antunes de Siqueira, vigário da vara, arcipreste da província eclesi...

Artigo 28

1/01/2016 0 Comentários

Foi ferido o pastor, e assustadas dispersaram-se as ovelhas.

O cônego Antunes de Siqueira, vigário da vara, arcipreste da província eclesiástica e pastor desta freguesia, foi vítima nessa ocasião de sua dedicação pelo rebanho que lhe fora confiado! Coadjutor de Domingos Leal em 1827, vigário em 1832, enfermou gravemente da febre amarela. Aos cuidados, os mais extremosos, de seu velho amigo Goulart, já em convalescença julgou, facilitando, que podia celebrar a missa do sétimo dia por Ligeiro, a quem muito amava.

No dia 30 de dezembro de 1850, o último de sua vida, fez um esforço supremo e ocupou-se a celebrar o santo sacrifício da missa, dizendo, quando o sacristão lhe observou “que era um risco expor-se a essa louca pretensão”: — “Não há tal, Pinto Homem, o amigo se conhece nas ocasiões; esta é uma delas: ainda com sacrifício, o dever impera!...” Paramentou-se e, cheio de vida, seguiu para o altar do arcanjo São Miguel, onde hoje está colocada a imagem das Dores. Goulart, que o ia visitar, segundo os preceitos de médico assistente, não o encontrando em casa, presto partiu para a igreja e, vendo-o ali, no altar, disse-lhe em altas vozes: “É uma loucura, padre; será esta a última missa. Perdi-o para sempre.”

Consumia o vigário Antunes nesse momento o cálice. Aí mesmo, uma fadiga se apoderou dele, uma afrontação mortal! O próprio Goulart corre para ele, quase desfalecido, e, gritando socorro!, auxiliado pelo sacristão e Barreto, que assistia à missa, o conduziram, ajoujado ao peso do corpo, quase inerte, à sacristia, onde o desparamentaram. Levaram-no em braços para a casa onde mora hoje o Laurindo, e em cujo pavimento térreo o Tovar montara a sua tipografia; e aí, desde então, até às 8 horas da noite, lutando com as vascas da morte, recebidos todos os sacramentos pelo Dr. Clímaco e padre Fraga, às 9 horas, sentindo avizinhar-se o momento derradeiro, disse ao povo imenso que invadira a casa e que rodeava-o, e ante o Goulart: “Adeus, bom amigo, adeus, meus filhos, é custoso... vou morrer! Acomodem-me na minha cama pela última vez!” Levaram-no e, deitado, sem contorções algumas, pôs as mãos em atitude de quem ora e exalou o último suspiro!...

Os sinos das igrejas existentes na capital tocavam agonia! Em São Francisco o guardião Valadares, na janela média do coro, fez colocar uma luz, fraca, através de um véu preto, transparente, que se apagou, ao baixar ele à sepultura!

A seu enterramento concorreu o presidente Leal, Nabuco, todas as autoridades e numeroso povo, além de todas as corporações religiosas!

Conseguiu, por sua legítima influência, com esmolas do povo que sempre pronto acudia a seus reclamos, reparar toda a matriz, substituindo por caixilhos uns panos velhos que protegiam as tribunas da nave e capela-mor da igreja. Mandou retocar pinturas, cujos vestígios ainda ali se veem.

As missas conventuais eram assistidas por grande concurso no tempo de seu vicariato. As pessoas gradas aguardavam na sacristia a hora da missa, entretendo- se em palestras religiosas. Em um pequeno púlpito portátil, fazia ele a leitura dos mandamentos dos bispos, suas pastorais, de modo que o sacrifício não era interrompido por proclamas e outros avisos. Só ali, e não em outras igrejas, davam-se avisos ao povo. Matriz quer dizer mãe, e só ela era competente para publicar os mandamentos e ditá-los a seus filhos. Recitavam-se antes da missa os atos da fé, esperança e caridade, para avivar os sentimentos do povo! Hoje nem fé, nem esperança, nem caridade em palavras quanto mais em obras!...

Ó sacra aurifames, quantum pectora mortalia coges!![ 1 ]

O candeeiro da fé!... Este os ratos apagaram chupando-lhe o azeite e engolindo a torcida! Lambiata est torcida, disseram os ratos ao candeeiro! E... puf! puf! está tudo às escuras!

O povo... bem devoto que ele é! Falta quem o dirija...

* * *

Em 1856 passou a província por uma outra dura provança!

O cólera-morbo, hóspede asiático, emigrou para o nosso país e bateu às portas desta cidade! Transportado por um estafeta [do] Santa Leocádia, sem prévia desinfecção da mala que conduzira de Campos, onde essa epidemia assolava, estendeu seu fatal contágio por nossa população. Sucumbiu, após três dias, aquele estafeta, na rua da Lapa[ 2 ] e desde então disseminou-se o mal de um modo assustador! Era tão grande o número dos doentes que não o podiam conter o hospital da Santa Casa, as enfermarias da Capixaba, do Carmo e São Francisco! Consternado, abatido, o povo tocava o auge dadesesperação! As famílias aterradas fugiam para o interior e outras mais resolutas buscavam os templos e juncavam junto aos altares! Ao passarem 8, 12, 16 e até 25 cadáveres, carregados pelos galés, as famílias gritavam das janelas — Misericórdia, meu Deus, socorrei o vosso povo!!!

Valas extensas se abriram junto ao convento, naquela encosta onde se acham os cemitérios de São Benedito, Sacramento e outros, e ali se amontoavam as vítimas desse mal terrível!

Aleixo, Antônio Augusto, Goulart, Leal, Malta, Resendo e Valadares foram os enfermeiros, dedicados no exercício da caridade, os verdadeiros heróis nesta guerra de geral extermínio!

Em janeiro desse mesmo ano invadiu o cólera Carapina, assolando Carapebus, Manguinhos, que ficou despovoado, e Jacaraípe! O vigário Antunes, Aires Tovar, José Francisco, capitão Meireles pai, formaram a comissão para tratar dos doentes. Ali em Carapina, na sede da freguesia, à instância do vigário, montou- se um cemitério, e um sujeito que zombava do cólera foi a primeira vítima, o professor Joaquim Ribeiro Lima! Após ele morreram um preto escravo seu, sua mãe e sobrinho! Fechou-se a casa e a chave foi entregue ao juiz de paz Cirilo Pinto Homem de Azevedo!...

Em Manguinhos o vigário viu com pânico terror, na hora em que benzia o cemitério, sepultarem-se quinze cadáveres!!! Benedito, vulgo Fanha, e sua mulher ficaram insepultos dentro de casa, e foram devorados pelos corvos!

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NOTAS

[ 1 ] Ó sagrada fome de ouro, quantos peitos mortais possuis!
[ 2 ] Atual rua Thiers Veloso.

Pe. Francisco Antunes de Siqueira nasceu em 1832, em Vitória, ES, e faleceu na mesma cidade, em 1897. Autor de: A Província do Espírito Santo (Poemeto)Esboço Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense,  Memórias do passado: A Vitória através de meio século. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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