Inexplicavelmente, Digital deu para girar em torno de si mesmo, como Thelonious Monk. A comparação partiu de Pedro, entendido em jazz, blu...

Cada qual com sua loucura ou pioras para o delegado

Inexplicavelmente, Digital deu para girar em torno de si mesmo, como Thelonious Monk.

A comparação partiu de Pedro, entendido em jazz, blues, bebop e fã de Monk. Para Lenilda, porém, o delegado girava como uma baiana biruta.

Mas estamos desfiando o assunto pelo meio e não pelo fio inicial da meada. Recuemos à origem do novelo, quando os sintomas giroscópicos que acometeram o delegado ainda não tinham atingido o seu clímax.



As primeiras voltas


Foi por acaso que Lenilda flagrou a primeira rodada do seu chefe. A faxineira limpava a sala de comando de Digital quando o comandante, ali presente, se ergueu da cadeira e se pôs a girar no sentido dos ponteiros do relógio.

Foram apenas três giros lentos e oscilantes, mas o bastante para deixar Lenilda apreensiva.

“O senhor está procurando alguma coisa?” perguntou a faxineira, embora tivesse percebido que Digital rodopiara de olhos semicerrados, como se mergulhado em transe.

“Procurando o quê?” replicou o delegado de volta à cadeira atrás da mesa como se nada tivesse acontecido. E disparou a porretada, fruto da sua congênita grossura: “Não inventa moda!”

Devido àquele ‘não inventa moda’ é que Lenilda compreendeu que o delegado não se dera conta da rodada que tinha dado.

“Seu Pedrinho, o homem não está bom da bola!,” informou a faxineira  ao amigo escrivão.

“Ele nunca esteve, Lenilda.”

“Agora é diferente. Ele deu três giradas de corpo na minha frente como se fosse cavalo de pai-de-santo e não se lembrou de nada, depois que rodou. Ainda disse para eu não inventar moda, quando ele é que está inventando. Eu é que não vou mais limpar o gabinete com ele lá dentro.”

“Não inventa moda, Lenilda,” repetiu Pedro rindo.

“Está bom, mas depois não vai dizer que não avisei.” E Lenilda deu o caso por encerrado até que Digital rodopiou de novo.

Era um daqueles dias em que a delegacia regurgitava de gente de todos os desquilates, com lotação esgotada inclusive na cela onde havia vinte presos espremidos num espaço que, em condições normais, mal comportava cinco.

Fora das grades também havia detidos por toda a parte, algemados entre si, algemados em cadeiras, algemados em pés de mesa, algemados até em puxadores de porta, pouco faltando para estarem algemados na vassoura das faxinas de Lenilda.

“Hoje é o dia das argolas,” definira Nanico que, como Pedro, se desdobrava para tomar o depoimento daquela ralé humana que parecia egressa dos romances de Victor Hugo.

Foi quando a porta da sala do delegado se escancarou e Digital emergiu dando novas circuladas à la Monk. Estava sem paletó, a camisa de mangas compridas com os punhos abertos caindo sobre o dorso das mãos como um espantalho, a gravata pendurada sobre o ventre em laço folgadão, os suspensórios pendidos sobre a calça larga, os pés metidos em meias sem sapatos.

Qual Thelonious tocando o seu piano, o suor escorria pela face do delegado e pingava da barbicha caprina – e estes eram dois outros pontos de semelhança entre Digital e o músico célebre – as bagas de suor e a barbicha de bode. Minto: havia também os grandes anéis que os dois usavam nos dedos de unhas compridas.

Em meio ao silêncio estupendo que se fez, o delegado deu várias voltas sonambúlicas no centro da sala, sempre no sentido dos ponteiros do relógio. Quando cessou a síndrome giragirante voltou a si e se viu esquadrinhado pelo olhar perplexo do baixo-mundo ao seu redor. Numa cabal demonstração de que tinha retornado à normalidade (ou seja, à sua anormalidade costumeira), abriu o verbo: “O que vocês estão olhando, seus merdas?” Dito o quê, enfurnou-se na toca de comando.

Se na delegacia houve novas giras depois desta, ninguém ficou sabendo. Mas o que todo mundo soube foi de outras volteadas muito mais arrasadoras que o delegado deu fora do local de trabalho.



As segundas voltas


Digital fora inscrito ex-ofício – como todos os seus pares de outras delegacias – para participar de um encontro nacional de delegados para discutirem as péssimas condições da segurança pública no país (no Estado então nem se fala).

A agenda do simpósio se dividiu numa temática variada: crimes contra a infância, crimes contra o patrimônio, crimes contra a fazenda pública, crimes contra o meio ambiente, crimes contra a mulher, crimes contra a minoria negra, crimes contra os homossexuais e as homossexuais, crimes hediondos, crimes de sequestro, crimes eletrônicos e assim por diante (algumas agendas podiam ser reunidas numa só, por questão de coerência temática, mas quase nunca a coerência preside a ação dos delegados,  mesmo nos simpósios de que participam).

Por circunstâncias inexplicáveis, Digital foi escolhido relator (e o pior é que aceitou!) da comissão que tratou dos crimes contra as minorias em situação de vulnerabilidade social – assunto muito em moda nos meios policiais e políticos.

A comissão desenvolveu seus trabalhos regularmente, quer dizer, com dois ou três gatos pingados improvisando arengas com ares doutorais, enquanto Digital, sabe Deus como, safou-se do relatório final aos trancos e barrancos. Talvez o tenha ajudado na relatoria a sua recente participação nas aulas para delegados que foram patrocinadas pela secretaria de segurança sobre os direitos e diferenças dos homossexuais e lésbicas, a cargo de um especialista paulista, mestreem Direitos Humanos, Relação de Gêneros e Diversidade Etnossexual, que passou por Vitória.

O desastre, porém, veio na sessão plenária de encerramento do certame, logo depois que o auditório cantou, de pé e mão no peito, o hino nacional brasileiro. No instante seguinte, entre a leve agitação que permeia o término do canto retumbante e o assentar-se das bundas patrióticas nas cadeiras estofadas, Digital caiu em transe e desandou a rodopiar no auditório como se ainda estivesse embalado pelos acordes auriverdes, ao som do mar e à luz do céu profundo. O mais grave dessa girândola alucinatória foi que, ao contrário das vezes anteriores, ele rodava agora no sentido anti-horário, numa demonstração de que seu estado psíquico se agravara espetacularmente.

Foi a partir dessa ocorrência, para usarmos de jargão policial, que ele teve de ser internado para tratamento de estresse emocional, valendo-se de convênio que o sindicato dos delegados de polícia mantinha com um SPA clínico de alto luxo, em área nobre da cidade com janelas rasgadas para o mar.

Foi também a partir daí que passou a responder, temporariamente, pelo expediente da Chapot Presvot, a delegada Dea Benvenuto, a quem Pedro, o escrivão, chamava simplesmente “deusa”, e Nanico, o outro escrivão, denominava “bem-vinda” – e quereis saber por quê?

Dir-vos-ei a seguir em



As terceiras voltas


E dir-vos-ei por vias (ou voltas) transversas ou travessas, da forma mais devassável que vos possa dizer – a de um voyeur que fisga o banho matinal da delegada naquele momento de solene e lúbrica intimidade em que ela se tornou exposta e deleitável, impregnada de umidade refrescante.

Devassemos, pois, a deusa em plena ducha.

Vemo-la, e louvamos ao diabo o privilégio de vê-la, através do vidro fosco do box do chuveiro, a água morna a escorrer pelo corpo espigado e curvilíneo (um mistério de pecado, esse corpo espigado e curvilíneo!) de quarentona conservada e disponível, numa banhação que se estica sem hora para terminar, os cabelos curtos e castanhos ensopados de xampu espumante, a esponja macia encharcada de sabonete perfumoso (ou direi deleitoso?) que volteia pelas saliências e, sobretudo, pelas não-saliências  do corpo maduro mas firme da divina banhista, a espátula com lixinha preta e áspera sendo esfregada meticulosamente na sola dos pés dignos de um soneto, tudo isso numa visão de silhueta úmida da delgada delegada que se delineia através da porta de vidro do chuveiro, borrifada de gotas e espumas, visão difusa de cobra d’água sob as águas vivas e, no entanto, oh senhor Deus dos felizes voyeurs, que visão tão calorosa, tão apetecível, tão perturbadora, tão convidativa, tão provocante, tão-tão que tanto se faz merecedora de um estupro troglodita, quanto de um sanguessuguento assassinato à Hitchcock, nhoc-nhoc-hitch-cock, o sangue se esvaindo aos borbotões pelo ralo do chuveiro!

Somos, porém, nós, os postados de fora deste texto, que desfrutamos do privilégio de flagrar a nova delegada da Chapot Presvot no recesso doméstico de sua intimidade de deusa em banho-maria – e não o escrivão Pedro ou o seu colega  Nanico que na delegacia labutam entre policiais e bandidos, e vice-versa a mesma coisa.

Aos dois escribas da Chapot Presvot, 272, resta o consolo de ver a deusa em condições decentes de trabalho, no máximo se permitindo desejá-la socialmente quando chega à delegacia de banho já tomado (aquele banho!), vestindo uma calça jeans justa e descorada de bainha desfiada que lhe modela os glúteos possessivos (por exacerbar o desejo de posse), que arrebata Pedro, que inflama Nanico, chegando a se imaginarem (mas não digo qual deles se imagina por respeito a um e a outro) com a delgada delegada em variações de “cama-sutra”, oh senhor Deus dos sonhadores escrivães de polícia, oh senhora deusa do corpo misteriosamente espigado e curvilíneo!

E isso só porque viram a bem-vinda Dea, a deusa Benvenuto entrar na delegacia de calça jeans descorada e justa. De botinhas também, que ia me esquecendo das botinhas que a delegada usa, as quais apontam suas ameaçadoras pontas sob as pontas das bainhas desfiadas do jeans descorado e justo nas cruzadas de pernas que a deusa dá à la Sharon Stone.

Tudo isso – repita-se para que não se perca no alçapão do esquecimento o que já foi dito -, só porque Pedro, só porque Nanico veem a deusa no seu dia a dia na delegacia, em decentes condições de trabalho, socialmente falando como se disse.

Imaginem se a vissem como nós a entrevimos pelo sombreado do vidro do chuveiro, em nudez lúbrica e matinal, tão perturbadora, tão íntima, tão convidativa, tão-tão, tão e tanto!

E a tão e tanto vai esta crônica da delegada deusa e de seus escrivães enfeitiçados que se faz oportuno que a encerremos com um voto de despedida que não seja um voto de encerramento derradeiro da convivência com a deusa, mas sim um voto interesseiro de demoradíssima convalescência para Digital, por suas benditas rodopiadas à la Monk.

Assim desejando, vaticinemos em coro as pioras para o delegado! Pioras, muitas pioras!



[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]

Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

Estação Capixaba

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