Nossa turma era muito restrita. Meu pai era o cabeça da turma. Duas vezes por ano ia à caçada de macuco, especialmente no dia 7 de julho, se...

Capítulo IV – Caçada em Boa Esperança

1/01/2001 0 Comentários

Nossa turma era muito restrita. Meu pai era o cabeça da turma. Duas vezes por ano ia à caçada de macuco, especialmente no dia 7 de julho, seu aniversário.

De todas as expedições faziam parte o secretário Enrico Ruschi, Neguinho, funcionário do porto de Vitória, Colatino, motorista e caçador, e Tio Antônio. O mestre caçador que cuidava de tudo era o Tio Bernardo, apelidado de Gato do Mato.

Uma vez saímos para caçar próximo de Montanha, numa região ainda inculta, onde a firma Donato fazia extração de madeira, principalmente de peroba, jacarandá e outras madeiras de lei. Fizemos nosso acampamento no córrego Vinhático, hoje vila, onde havia uma boa reserva de macucos e outras aves. O córrego possuía pouca água, principalmente no mês de outubro, quando secava, e aí faltava água para limpeza tanto dos caçadores como das caças. Isso nos obrigou a partir, escolhendo no caminho, mais ao sul, outra mata para acamparmos.

Para completar a aventura, fizemos o segundo acampamento na região de Soa Esperança, então denominada Boa Lembrança. No meio da exuberante Mata Atlântica havia um pobre morador isolado, numa pequena derrubada junto à estrada.

À tarde partimos para o mato. Lá pelas quatro horas começaram os tiros e o caboclo exclamou: "Gente, isso aí até parece São João..." — estava acostumado ao silêncio profundo do lugar, agora quebrado pelo som dos tiros. Meu Tio Antônio, que ficava no rancho, gracejou: "Cada pipocar desses é um macuco que morre. Você vai ver quando eles saírem do mato..."

De fato, os cinco caçadores chegaram trazendo dez macucos... Era mês de outubro, como disse, e os macucos estavam no auge do cio, o que simplificava bastante a tarefa pois, morto um deles, o outro chega rápido no pio.

Houve necessidade de cortar uma tábua para fazer uma cama. Não tínhamos, porém, levado ferramenta. Aí eu, atrevidamente, resolvi cortar a tábua com meu canivete vermelho suíço Victorinox. Segundo se dizia, ao ser recrutado, na Suíça, cada jovem recebia um fuzil e um canivete desses, considerado também como equipamento militar... O corte não foi fácil como o de uma faca cortando manteiga, mas separou as duas metades com facilidade.

Muito mais tarde, nas minhas caçadas de perdizes, andei por aquelas bandas, então já povoadas e elevadas à condição de município. As perdizes que povoavam seus campos tinham vindo da Bahia, pois o grande obstáculo ao seu deslocamento — a mata — já tinha sido impiedosamente derrubada, abrindo livre caminho para os tinamídeos.

Retornei àquelas bandas mas me decepcionei por não encontrar mais a selva exuberante e quase impenetrável, com o seu sabor de mistério e solidão. O que havia em seu lugar era um campo aberto, estendendo-se na distancia até onde nossa vista alcançasse.

Do fundo da memória brotou a advertência que o caboclo Dário fazia para evitar que alguém se perdesse: "Se se perderem nestas matas, só encontrarão a praia a setenta quilômetros daqui..."


[ALVES, Luiz Flores. Caçadas. Reprodução parcial do livro publicado em Vitória-ES, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e Prefeitura Municipal de Vitória em 1999. Reprodução autorizada pelo autor.]

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Luiz Flores Alves nasceu em Vitória, em 1920, e mudou-se no mesmo ano para Cachoeiro de Itapemirim-ES. Trabalhou na CVRD de 1942 a 1946 como administrador na construção de vários trechos da estrada de ferro. No Rio de Janeiro trabalhou em várias obras públicas e formou-se em Economia. Aposentou-se em 1985 como diretor do Centro Jurídico e Econômico da Universidade Federal do Espírito Santo. Faleceu em Guarapari, ES, no ano de 2003.

Estação Capixaba

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